William Burroughs

Episódios de Almoço Nu

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de Geração Beat – Antologia,
Organização de Seymour Krim
Editora Brasiliense, 1968.

-Tudo certo, então?
O pequeno engraxate deu um sorriso confiante e levantou a cabeça em direção aos olhos do marinheiro, olhos mortos, frios, submarinos, sem nenhum vestígio de calor humano, desejo ou ódio, sem nenhum dos sentimentos que o menino conhecia em si mesmo ou nos outros, como o aroma mofado de quartos desertos e trancados. O marinheiro examinava suas unhas com uma intensidade ardente.

-Coisa boa aqui, Gordo. Posso arrumar vinte. Mas preciso de um dinheiro adiantado.
-Para arranjar?
-É. ..não estou ainda com os vinte fininhos no bôlso. Mas é negócio sopa. Basta dar uma corridinha e pronto.
O marinheiro olhava para as unhas como se examinasse um mapa.
-Arruma trinta. Dou dez adiantado. Essa mesma hora amanhã.
-Escuta, Gordo, preciso de um dinheiro agora.
-Dá uma volta que você arruma.

O marinheiro dirigiu-se lentamente para a praça. Um moleque balançava um jornal no seu rosto enquanto com a outra mão lhe furtava a caneta. O marinheiro continuou andando. Tirou a caneta do bôlso e partiu-a como uma noz entre seus dedos vermelhos, grossos e musculosos. Tirou em seguida um tubinho de chumbo do bôlso. Cortou uma das extremidades do tubo com uma pequena faca curva. Um vapor negro saiu do interior e ficou suspenso no ar como uma pele fervendo. O rosto do marinheiro se liquefêz. Sua bôca espichou para frente com a forma de um tubo comprido e sorveu a penugem negra que boiava no ar. Vibrando em seguida com um movimento peristáltico supersônico ela desapareceu no meio de uma explosão silenciosa e rosa. Seu rosto voltou a entrar em foco, um foco insuportàvelmente claro e cortante, enquanto a erva amarelada que ardia devorava as nádegas pardacentas de milhões de viciados que gritavam. “Isso vai durar um mês”, pensou consigo, consultando um espelho invisível. Todas as ruas da cidade correm por entre gargantas profundas em direção a uma praça imensa, em forma de rim, mergulhada na escuridão. Os muros da cidade e da praça são perfurados por cubículos habitáveis e por bares, alguns com apenas poucos pés de profundidade, outros perdendo-se de vista numa confusão de quartos e corredores. Em todas as alturas, existem cruzamentos de pontes, passagens estreitas, bondinhos suspensos em cabos. Jovens catatônicos, vestidos como mulheres, esbarram nos passantes com uma silenciosa insistência pegajosa. Usam roupas grosseiras de saco, velhas e gastas, e trazem os rostos exageradamente pintados; as cores vivas da pintura cobrem marcas da batida, arabescos de cicatrizes interrompidas e supuradas que atingem os ossos de pérola. Traficantes de Carne Preta, carne do gigantesco centípede aquático – atingindo algumas vezes o comprimento de seis pés encontrado em um caminho existente entre rochas negras e lagoas pardacentas e iridescentes, exibem crustáceos imobilizados em redutos clandestinos da praça, visíveis apenas para os Comedores da Carne… O Café do Encontro ocupa um lado da praça, um labirinto de cozinhas, restaurantes, cubículos para dormir, sacadas perigosas de ferro batido e porões que levam às salas de banho sub. A terraneas. Em bancos cobertos de cetim branco estão sentados nus os Mugwumps,(1) sorvendo refrescos translúcidos e coloridos em canudos de alabastro. Os Mugwumps não têm figado e alimentam-se exclusivamente de doces. Lábios finos, azul-púrpura, cobrem os bicos de osso preto, afiados como navalha, com os quais eles se despedaçam frequentemente uns aos outros em brigas que surgem por causa dos clientes. Essas criaturas secretam, de seus pênis eretos, um líquido que vicia e que prolonga a vida, tornando mais lentas as funções do metabolismo. (Aliás, todos os agentes que prolongam a vida viciam na razão direta de sua eficiência). Os viciados no líquido dos Mugwumps são conhecidos como Répteis. Alguns deles voam por cima das cadeiras com seus ossos flexíveis e sua carne rosa-preto. Por trás de cada uma das orelhas dos Répteis sai um leque de cartilagem verde, coberto de cabelos ocos e eréteis com os quais eles absorvem o líquido. Os leques que são balançados de tempos em tempos por correntes invisíveis servem também para uma forma de comunicação conhecida apenas dos Répteis. Durante os Pânicos bienais, quando a andrajosa e escorchada Polícia do Sonho devasta a cidade, os Mugwumps refugiam-se nas cavidades mais profundas das paredes, fecham-se no interior dos cubículos da massa argilosa e permanecem durante semanas em bioéxtase. Nesses dias de terror cinza, os Répteis voam de um lado para o outro com uma rapidez cada vez maior e passam gritando em frente um do outro em velocidade supersónica, enquanto seus crânios flexíveis sopram os ventos negros da agonia de um inseto.


A Polícia do Sonho desintegra-se então em glóbulos de ectoplasma podre que são expelidos por um velho viciado que tosse e cospe na manhã doentia. O Homem Mugwump aparece com jarros de alabastro contendo o líquido e os Répteis saem mansamente. O ar torna-se de novo parado e claro como glicerina. O marinheiro descobriu seu Réptil. Ele continuou avançando lentamente e pediu um refresco verde. O Réptil tinha uma boca pequena, em forma de disco, de cartilagem marrom, e os olhos verdes inexpressivos estavam quase recobertos pela fina membrana da pálpebra. O marinheiro esperou uma hora antes que a criatura desse pela sua presença.

-Nenhuma muamba para o Gordo? perguntou o marinheiro, enquanto suas palavras agitavam os cabelos em leque do Réptil. O Réptil levou duas horas para levantar três dedos rosados e transparentes cobertos com uma penugem negra. Muitos Comedores de Carne ficam deitados em cima do vómito, excessivamente debilitados para se moverem. (A Carne Preta é como um queijo passado, irresistivelmente deliciosa e enjoativa, de sorte que os apreciadores comem e vomitam, e comem novamente até cairem exaustos no chão).

Um jovem com o rosto pintado entrou no café e apanhou uma das grandes tenazes pretas do crustáceo – um odor adocicado e doentio espalhou-se em ondas pela sala.

(1) Mugwumps – Membro de um partido político norte-americano que arvora o direito de uma ação política independente; originalmente simbolizava uma pessoa importante. ( N. do T. )

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