William Burroughs

Autobiografia Junky

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de Junky.
Editora Brasiliense, 1984.

“Nasci em 1914, numa sólida casa em tijolo aparente, de três andares, numa grande cidade do Meio Oeste. Meus velhos viviam bem. Meu pai tocava seu próprio negócio madeireiro. A casa tinha uma área na frente, um quintal nos fundos com jardim, um laguinho cheio de peixes e uma cerca alta de madeira protegendo tudo. Não faltava nada: era uma vida segura e confortável, para sempre perdida agora. Eu podia vir aqui com uma dessas conversas nostâlgicas sobre o médico alemão que morava ao lado e os ratos que rondavam o quintal e o carrinho elétrico da minha tia e o meu sapo de estimação que vivia na beira do laguinho dos peixes.

Na verdade, minhas primeiras lembranças são matizadas pelo medo de pesadelos. Eu tinha medo de ficar sozinho, medo do escuro e medo de dormir, por causa dos pesadelos, em que um horror sobrenatural estava sempre a ponto de se materializar. Tinha medo de que um dia, ao acordar, o pesadelo ainda estivesse lá. Me lembro de uma empregada falando sobre ópio, que o ópio trazia lindos sonhos, e eu disse: “Vou fumar ópio quando crescer.”

Quando criança eu vivia assolado por alucinações. Uma vez, acordei de manhã bem cedo e vi uns homenzinhos brincando numa casa de cubos que eu tinha erguido. Não tive medo, só uma sensação de imobilidade e espanto maravilhado. Outra alucinação ou pesadelo muito comum envolvia “animais na parede”, e começava com o delírio provocado por uma febre estranha, jamais diagnosticada, que eu costumava ter aos quatro ou cinco anos.

Freqüentei uma escola moderna, ao lado dos futuros cidadãos íntegros – advogados, médicos e empresários de uma grande cidade americana. Junto das outras crianças eu ficava tímido, com medo de violências físicas. Tinha uma lésbica-mirim muito agressiva que puxava meu cabelo, tão logo me via. Eu bem que gostaria de socar a cara dela nesse mesmo instante, mas, anos atrás, ela caiu do cavalo e quebrou o pescoço.

Quando eu tinha sete anos meus pais resolveram se mudar para o subúrbio “pra se verem livres de gente”. Compraram um casarão com muito terreno, bosques e um lago com peixes; em vez de ratos, tinha esquilos no quintal. Vivíamos numa redoma aprazível, ao lado de um belo jardim, afastados da vida urbana.

Me botararn num ginásio particular de subúrbio. Eu não era especialmente bom ou mau nos esportes, nem brilhante ou retardado nos estudos. Tinha um bloqueio definitivo para maternática e tudo que fosse mecânico. Jamais gostei de jogos competitivos de equipe, e os evitava sempre que possível. O fato é que me tornei um doente imaginário crônico. Porém, gostava pra valer de pescar, caçar e caminhar. Lia mais do que a média dos garotos americanos daquele tempo e lugar: Oscar Wilde, Anatole France, Baudelaire e até Gide. Criei um apego romântico por um garoto, e a gente passava os sábados explorando velhas pedreiras, passeando de bicicleta e pescando em lagoas e rios. Por essa época, fiquei muito impressionado pela autobiografia de um ladrão, intitulada Você Não Pode Vencer. O autor afirmava que tinha passado boa parte da sua vida na prisão. Me parecia melhor que a chatice do subúrbio, onde todo contato com a vida estava cortado. Eu encarava meu amigo como um aliado, um cúmplice no crime. A gente descobriu uma fábrica abandonada, quebrou todos os vidros e roubou um formão. Fomos apanhados e nossos pais tiveram de pagar os prejuízos. Depois dessa, meu amigo me virou a cara, porque a nossa relação punha em risco a sua permanência no grupo. Eu logo vi que não havia compromisso possível com aquele grupo – os outros – e, quando dei por mim, estava bem sozinho.

O ambiente era estéril, o adversário vivia oculto, e eu parti para aventuras solitárias. Meus atos criminosos eram meros gestos gratuitos, não visavarn vantagens, e, na maior parte, não eram punidos. Eu invadia casas, ficava zanzando lá dentro sem pegar nada. Na verdade, não tinha nenhuma necessidade de dinheiro. Às vezes, eu percorria a região com uma carabina 22, acertando galinhas. Dirigia como um tarado, sem ligar pra segurança, até que um acidente, do qual saí sem um único arranhão por milagre, me assustou a ponto de me tornar prudente.

Entrei numa das Três Grandes universidades, onde me graduei em literatura inglesa por falta de interesse em outro assunto. Detestava a universidade e a cidade em que estava instalada. Tudo ali era morto. A universidade era um estabelecimento inglês postiço dirigido por graduados em renomadas escolas inglesas não menos postiças. Eu vivia só. Não conhecia ninguém, num lugar em que os estranhos eram vistos com desdém pela fechadíssima corporação dos benquistos.

Caí por acaso num grupo de homossexuais abonados da cena gay internacional que vivia perambulando pelo mundo e se tropeçando nas bibocas de “entendidos”, de Nova lorque ao Cairo. Conheci um outro jeito de vida, um novo vocabulário, referências específicas – um sistema simbólico global, enfim, como dizem os sociólogos. Mas quase que só dava idiota nessa turma e, depois de um curto período de fascínio, caí fora.

Uma vez graduado, sem distinções, me deram uma pensão de 150 dólares por mês. Isso, no tempo da Depressão, quando não havia empregos; em todo caso, eu não conseguia mesmo pensar em nenhum emprego que me interessasse. Fiquei passeando pela Europa durante um ano, mais ou menos. Os remanescentes da decadência do pós-guerra vadiavam pela Europa. Os dólares americanos podiam comprar uma boa percentagem dos habitantes da Austria, machos ou fêmeas. Isso foi em 1936, com os nazis avançando rapidamente.

Voltei aos Estados Unidos. Minha pensão dava para viver sem ter de trabalhar ou trambicar. Eu ainda estava apartado da vida, como nos tempos do subúrbio do Meio Oeste. Vivia bestando, entre cursos de psicologia e aulas de jiu-jitsu. Comecei a fazer psicanálise, o que durou três anos. A psicanálise removeu inibições e ansiedades, me facilitando viver do jeito que eu queria. Muito do meu progresso na psicanálise foi obtido a despeito do meu analista, que não concordava com a minha “orientação”, como ele dizia. Por fim, ele abandonou a objetividade analitica e me botou pra fora, me acusando de “degenerado e fora-da-lei”. Eu estava mais satisfeito com os resultados da análise do que ele.

Cinco programas de treinamento para oficiais me rejeitaram, por motivos fisicos. Mesmo assim, o exército acabou me incorporando com um certificado de capacidade para qualquer tipo de serviço. Percebendo que eu não ia me dar bem no exército, apelei para minha ficha do hospício. Certa vez, entrei numas de Van Gogh e cortei um pedaço do dedo pra impressionar uma pessoa em quem estava interessado na ocasião. Os médicos do hospício nunca tinham ouvido falar em Van Gogh. Me engaiolaram como esquizofrênico, acrescentando um diagnóstico de “tipo paranóide”, para justificar o fato de eu saber onde estava e quem era o presidente da República. Quando o exército viu aquele diagnóstico, fui logo dispensado, com a ressalva: “Este homem não deve nunca mais ser recrutado ou reclassificado”.

Depois de abandonar o breve convivio com o exército, arranjei uma série de empregos. Naquela época já era possivel arrumar qualquer tipo de trabalho que se quisesse. Trabalhei como detetive particular, exterminador de insetos e roedores e barman. Trabalhei em fábricas e escritórios. Fui xeretar nas redondezas do crime. Contudo, meus 150 dólares mensais estavam sempre à mão. Eu não precisava ganhar dinheiro. Gostava da extravagância romântica de pôr em risco a minha liberdade em atos criminosos de valor simbólico. Foi por esse tempo, e nessas circunstâncias, que eu entrei em contato com drogas pesadas, me tomei viciado, e, em função disso, passei a ter necessidade real de dinheiro, que até então desconhecia. Sempre se formula a mesma questão: por que um sujeito se toma viciado?

A resposta é que, em geral, ele não pretende se tomar viciado. Ninguém levanta de manhã e resolve se viciar. Demora pelo menos dois meses, com duas aplicações diárias, para se ficar realmente dependente. E ninguém sabe de fato o que é fissura por droga pesada até passar por vários períodos de dependência. Eu demorei quase quatro meses para ficar dependente pela primeira vez, e, mesmo então, os sintomas da privação da droga foram suaves. Não acho exagero afirmar que é preciso um ano e várias centenas de injeções para se produzir um verdadeiro viciado.

Outras questões, é claro, poderiam ser colocadas: por que você resolveu experimentar entorpecentes? Por que continuou a usá-los o tempo suficiente para se viciar? Bem, você se vicia em entorpecentes quando não tem motivações fortes que apontem para outras direções. A droga pesada ganha por desistência. Eu a experimentei por curiosidade. Ia tomando umas picadas sempre que descolava a droga. Acabei fisgado. A maioria dos viciados com quem conversei relata a mesma experiência. Ninguém começou a usar drogas por algum motivo especial. Apenas foram tomando seus picos até se verem fisgados. Quem nunca foi viciado não consegue entender o que significa precisar da droga pesada com a urgência do vicio. Ninguém decide virar viciado. Certa manhã o sujeito acorda fissurado e pronto -é um viciado.

Nunca me arrependi da minha experiência com drogas. Acho que estou melhor de saúde agora, depois de ter tomado drogas pesadas em vários períodos da vida, do que estaria se nunca tivesse me viciado. Quando se pára de crescer, se morre. Um viciado nunca pára de crescer. A maioria dos usuários costuma cortar a dependência periodicamente, o que envolve o encolhimento do organismo e a substituição das células dependentes da droga. Um usuário está em contínuo processo de encolhimento e crescimento no seu ciclo diário de carência e satisfação através da picada. Os viciados, na maioria, parecem mais jovens do que são. Recentemente, cientistas fizeram experiências com um verme que obrigavam a encolher pela privação de alimento. Repetindo periodicamente esse processo de encolhimento, mantinham o verme em crescimento contínuo, o que prolongou indefinidamente sua vida. Se um junky (viciado em droga pesada – junk) pudesse se manter num constante estado de dependência e cura, talvez conseguisse viver até uma idade assombrosa.

Droga pesada -junk – é uma equação celular que ensina ao usuário (junky) verdades de validade universal. Aprendi muito usando junk: vi a vida sendo medida em contagotas com solução de morfina. Senti a privação agônica da droga- a chamada “fissura” -e o alivio prazeroso quando as células sedentas de junk bebiam da agulha. É possível que todo prazer seja apenas alivio. Aprendi o estoicismo celular que a droga ensina ao usuário. Vi uma cela repleta de junkies fissurados, silentes e imóveis em suas misérias estanques. Eles sabiam o quanto era inútil reclamar ou se mover. Sabiam que ninguém ali podia ajudar ninguém. Não há nenhum recurso, nenhum segredo que alguém possua e possa te oferecer . Aprendi a equação junk. Droga pesada não é um meio de aumentar o prazer de viver. Junk não é um barato. É um meio de vida.”

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