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Pra cima com a viga, moçada! e Seymour – uma introdução. (1)

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A confusão já começa aqui – é este o título que está na capa do livro que acabo de ler, uma edição da Brasiliense para a coleção Circo de Letras, de 1984. No entanto, no original, esse pequeno livro do mítico escritor J.D.Salinger é Raise High the Roof Beam, Carpenters and Seymour, na introduction. Em um blog que visitei, pesquisando sobre o assunto, a editora é acusada de colocar este título para atrair o público jovem já que a tradução adequada para o livro é Carpinteiros, levantem bem alto a cumieira e Seymour, uma introdução. Seja um como o outro não sei porque ou como um título desse iria atrair um publico jovem brasileiro.

Nunca tinha lido Salinger antes, mas sabia de sua existência. Sabia que era autor de um clássico da literatura norte-americana O apanhador no campo de centeio e pensava que sabia que esse fosse o único livro do autor. Estava enganada: agora sei que esse foi o único romance. Seus outros livros são Nove estórias, Zooey e Franny e o livro que acabei de ler. Não são romances. São contos reunidos, talvez novelas. Eu não saberia classificar. O mais surpreendente é que tenho esse livro há anos e nunca li e nem me lembro de saber quem era o seu autor. Levei o maior susto quando descobri principalmente porque isso é um mico enorme. Ser viciada em livros, adorar ler, ter uma imensa biblioteca e simplesmente ignorar quem era o autor do livro que jazia entre os seus pares há anos e anos. Um mito. Um ícone!Mas, deixa pra lá… Agora que li é só contar.

Esses três livros contam a história da família Glass –Seymour, Buddy o narrador e possível alter ego do autor, os gêmeos Walt e Waker, Boo Boo, Franny e Zooey e seus pais Less e Bessie.

Carpinteiros narra a história de um não casamento previamente anunciado e que não foi levado a sério pela noiva. Buddy é instado pela irmã Boo Boo a ir ao casamento de Seymour já que nenhum outro membro da família poderá ir. Buddy sai direto do hospital para o hotel onde vai acontecer a cerimônia – que não vai acontecer. E é essa deliciosa narrativa que compõe o texto – Desde a espera de o noivo chegar, a desistência da noiva, o convite dos pais da noiva para que todos fossem para o seu apartamento, a colocação dos convidados nas limusines a espera na porta do Hotel, da qual Buddy participa e seu embarque no último carro onde estão além do chofer, uma parente da noiva, a Dama de Honra e seu marido e o tio surdo mudo do pai da noiva. Os diálogos dentro do carro sobre o ocorrido sem que ninguém desconfiasse do parentesco de Buddy com o noivo, a descoberta de que era o irmão, a barreira provocada por um desfile militar que os obrigou a ficar parados um tempão  em um calor infernal até que decidem sair do carro para se refrescar e acabam indo parar no apartamento de Buddy e Seymour onde continuam a conversar, a descoberta do diário do noivo que Buddy oculta e vai ler sentado na borda da banheira até a descoberta do por que Seymour não queria se casar e finalmente a noticia do Happy End.

O que posso dizer depois dessa leitura? É surpreendente o talento de J.D.Salinger em contar essa história simples, mas com tantos detalhes que a gente parece estar acompanhando todo o acontecimento. E o faz de um modo que nada tem de enfadonho. Eu, se tivesse que contar uma história semelhante, o faria em pouquíssimas linhas (Vale aqui lembrar: participei de uma cerimônia de casamento em que o noivo simplesmente disse Não).

Esse conto/novela começa com Seymour lendo para sua irmã, um bebezinho de dez meses a história do Duque Mu e do homem especialista em escolher cavalos – aquele que era incapaz de observar e prestar atenção nos detalhes supérfluos, mas que conseguia ver o desempenho espiritual, sobre o qual já comentei em outro texto.

Aqui comento apenas a primeira parte do livro – sessenta páginas escritas em letras miúdas, parágrafos longos e diálogos perfeitos. O resto deixo para depois porque à moda de Buddy Glass agora simplesmente vou para a cama porque não consigo imaginar o tempo que vou gastar escrevendo o resto e já passa da meia noite.

Fonte: Recanto das Letras

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abandonar tudo. conhecer praias. amores novos. poesia em cascatas floridas com aranhas azuladas nas samambaias. todo trabalhador é escravo. toda autoridade é cômica. fazer da anarquia um método & modo de vida. estradas. bocas pefumadas. cervejas tomadas nos acampamentos. Sonhar Alto.

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