Hemingway

Testamento precoce nas savanas do Quênia

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Por José Castello

Ernest Hemingway foi um escritor que trabalhou , sempre na borda entre a literatura e o jornalismo. E que viu sempre a si mesmo como um macho premido entre a valentia e a queda. Não foi por outra razão, provavelmente, que acabou se suicidando, com um tiro na cabeça, aos 62 anos incompletos; a morte celebrada para eliminar o conflito sem fim. Entre seus livros, o caso mais célebre dessa intersecção entre mundos opostos é Por Quem os Sinos Dobram; romance inspirado em sua experiência como jornalista durante a Guerra Civil Espanhola.

Também este Verdade ao Amanhecer, romance póstumo que só agora nos chega, é fruto direto dos paradoxos de uma experiência real: o último safári que Hemingway, um apaixonado por aventuras, grandes riscos e outros emblemas da masculinidade, realizou no Quênia. Escrito em 1953, oito anos anos antes de sua morte, o livro exerce também a função de testamento precoce. Só foi publicado em 1999.

Verdade ao amanhecer é, antes de tudo, um relato a respeito do modo brutal, às vezes irônico, em geral apaixonado, com que Ernest Hemingway se aproximou do inóspito continente africano. É verdade que, mesmo quando, anos depois, escreveu sobre a França (Paris é uma Festa), ele continuou a ver o mundo como um território de selvagerias – ainda que deformadas pelos protocolos da elegância parisiense. Também no Quênia, ele se movimentou com a postura desbravadora do repórter aventureiro, o destempero do apaixonado e a elevação do ficcionismo. Esse elo obsessivo com a realidade é, ao mesmo tempo, a marca e o limite da literatura de Hemingway – e talvez tenham sido também as fronteiras do homem Ernest. Ele se atrela à vida, suga do real um sumo cuja existência poucos chegamos sequer a perceber; no entanto, isso parecia às vezes sufoca-lo, até imobiliza-lo; em outros momentos, é inevitável pensar se tal apego, quase embriaguez com os fatos (e Hemingway foi, de fato, um alcoólatra), não foi só o avesso de uma imaginação limitada – e muitos críticos respeitávels, como Harold Bloom, já, trabalharam com esta. hipótese.

Hermingay passou uma parte importante de sua vida de adulto na África Oriental. Foi um incorrigível curioso. No cotidiano da selva africana, teve a chance de reforçar a autoimagem de homem valente, sempre pronto para um desafio. Os primeiros capítulos de Verdade ao Amanhecer não são de compreensão fácil para quem desconhece o que se passou no Quênia entre os anos de 53 e 54: a revolta desencadeada por Jomo Kenyatta, um negro africano bem educado e casado com uma inglesa que, ao regressar para sua terra natal, desencadeou a rebelião dos trabalhadores rurais negros contra os fazendeiros europeus, conhecida como Mau-Mau. Nesse ambiente ameaçador, Pop, um caçador famoso entrega a Hemingway a chefia da área de caça de seu safári. Mesmo momento em que os Mau-Mau decidem atacar a área . Á espera da luta inevitável, Mary, mulher de Hemingway, se dedica á caça de um leão. É a distração que consegue ter para aliviar também os horrores de um casamento infeliz.

Vale recordar que, em 52, Hemingway lançara O Velho e o Mar, romance que motivou o Nobel de Literatura que receberia dois anos depois. Seis anos mais tarde, ele ainda reuniria suas reminiscências francesas em seu célebre Paris é uma Festa. No ano seguinte, já à beira da psicose, numa sucessão de atos cada vez mais radicais, Cometeria o suicídio. Quando se transferiu para o Quênia, em janeiro de 54, transformando-se em guardião honorário de caça do território de Kimana Swamp, tentava, ainda uma vez, emprestar heroísmo à sua vida. Entre outras peripécias, experimentou um célebre desastre de avião, do qual teria sido resgatado sacudindo uma garrafa de gim e gritando: “Ando tendo muita sorte”. Vencer aquilo que o ultrapassava era o grande prazer de Hemingway, e foi com esse ímpeto de herói que ele sempre escreveu.

Seu filho Patrick, que assina a introdução, montou os originais de Verdade ao Amanhecer à partir de um manuscrito (sem título) de cerca de duzentas mil palavras que, ele avaliou – “certamente não é um diário” -, daí ter decidido publicar como um “romance”. “Metade do que se vai ler é ficção”,ele trata de advertir os leitores, sem indicar: contudo, que metade é essa. E talvez não seja mesmo uma metade que se possa separar .Relato biográfico, mas a cada linha transformado, excedido, ornamentado pela mente esfogueada de Hemingway, um escritor, ao contrário da avaliação dos críticos, de grande imaginação, sim, só que com uma imaginação contaminada mortalmente pelo real. O grande instrumento, que Hemingway manipula com rara desenvoltura, é este abismo entre a palavara e os fatos – selva que não é para qualquer aventureiro.

Hemingway deixou o manuscrito de Verdade ao Amanhecer pelo meio, e jamais o retomou. Talvez temesse chegar a um desfecho que o contrariasse, ou que desmentisse suas próprias ilusões de heroísmo.Também o suicídio pode ter sido uma maneira de interromper os fracassos inerentes à decadência física. Ambos resultaram numa reafirmação de sua célebre sentença segundo a qual “o homem não foi feito para a derrota”.

Texto publicado no jornal “O Estado de S.Paulo”, 10 de dezembro de 2000


Verdade ao Amanhecer
Hemingway,  Ernest
Ed. Bertrand Brasil, 2001

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