Hemingway

Ernest hemingway – O amante do risco

0 Love this post.0
Kilimanjaro

Por Marcos Cesana
jornalista, autor da peça Desamparo

Ernest Hemingway é dos mais celebrados escritores deste século. Autor de sucessos como O sol também se levanta, Por quem os sinos dobram e O velho e o mar; foi festejado e copiado por jovens em início de carreira. e pela indústria do cinema americano, que adaptou vários de seus romances. Mas Hemingway anda um pouco em baixa. A maioria das referências ao escritor feitas pela mídia se restringe ao seu prazer pela caça, pelas touradas e pelo boxe – e o qualifica como machista e antiecológico.

A verdade é que esse americano nascido em Oak Park, Illinois, em 21 de julho de 1899, e que é conhecido por uma literatura enxuta, sem muitas adjetivações, parágrafos curtos e narrador de grandes aventuras, como as que ele mesmo viveu, nunca poderia ser modelo para um mundo “politicamente correto”.

O pai era um médico sem grandes ambições; a mãe, amante da música, tentou sem muito êxito fazer de Hemingway um violoncelista. Na escola, ele estudava apenas o necessário para superar os exames, nunca foi um aluno brilhante.

Descobriu-se escritor depois de adquirir sua primeira máquina de escrever. Os colegas apostavam num autor humorístico, mas se transformou num autor humanista e corajoso. A descoberta aconteceu quando passou a participar de um clube de contistas na cidade natal. As composições que chegavam ao colegas foram melhorando a cada dia e cada palavra de incentivo que ouvia era um atestado de que tinha descoberto seu verdadeiro instrumento de trabalho, a máquina de escrever.

Mas só a vontade de escrever não formou esse escritor amante do risco. A Primeira Guerra foi, sem dúvida, seu primeiro contato com o mundo real. Era um motorista de ambulância na Itália, recolhendo feridos e, provavelmente, colhendo desde aquela época as primeiras histórias e impressões da vida que o fizeram tornar-se o Hemingway conhecido por nós.

Desiludido com o que havia visto na guerra, mas acolhido como um herói, Hemingway foi assombrado pelos moradores de sua cidade natal, que insistiam com ele para que lhes contasse as histórias e lhes mostrasse as feridas do corpo, como se fossem medalhas de guerra. Incomodado, passou a dedicar seu tempo ao Tribune de Chicago, jornal em que trabalhava. Através dele, fez várias viagens, numa delas conheceu sua primeira mulher, Hadley Richardson, e Sherwood Anderson, escritor que também havia combatido na Primeira Guerra e com quem compartilhava uma necessidade de ver um país com mais justiça e paz.

Essa ansiedade e os prejuízos psicológicos dos escritores que lutaram na Primeira Guerra geraram neles um vazio ideológico. Sherwood e Hemingway foram algumas dessas vítimas que, sem se encontrarem no próprio país, procuraram a felicidade voltando para a Europa.

Como correspondente estrangeiro do jornal Toronto Star, Hemingway chegou à Europa e foi morar em Paris. Nos bares, cafés, teatros e galerias da “cidade luz”, conviveu com alguns dos maiores gênios deste século – nomes como Matisse, Braque, Picasso, Jean Cocteau -e com o grupo que ficou conhecido como “geração perdida” – Gertrude Stein, Ezra Pound, John dos Passos, Faulkner -, do qual faria parte.

Mas, quando publicou seus primeiros livros em 1923 e 1924 (Três histórias e dez poemas e Em nosso tempo), a “geração perdida” já tinha afrouxado seus elos e cada um já seguia seu caminho. Em 1926, publicou O sol também se levanta. Nesse período, que vai do primeiro ao terceiro livro, Hemingway fez uma série de viagens à Espanha. Ali descobriu uma das grandes paixões de sua vida, as touradas, e ficou espantado com a naturalidade dos espanhóis em face da morte ( evocada em Morte à tarde , de 1932).

O sol também se levanta foi um sucesso, mas o escritor alcançou projeção internacional com Adeus às armas, de 1929, que retoma suas experiências na Primeira Guerra e vendeu 80 mil exemplares em quatro meses. Nesse período conturbado de sua vida, o escritor viu nascer seu segundo filho e recebeu a notícia do suicídio do pai, em Oak Park. Pouco tempo depois, Hemingway divorciou-se.

Em novembro de 1933, embarcou com a nova mulher, Martha Gellhorn, para uma expedição na África. O resultado do safári foi outra grande história: As neves do Kilimanjaro, de 1935.

Quando, em 1936, começou a guerra civil espanhola, Hemingway sentiu-se sensibilizado com as forças republicanas, contrárias a Francisco Franco, e doou 40 mil dólares para depois, em 1937, rumar para o país como correspondente da Aliança de Jornais Norte-americanos e constatar os métodos do tirano espanhol. Apesar dos esforços, Franco ganhou a guerra. A luta foi novamente retratada por Hemingway em Por quem os sinos dobram, de 1940.

Suas duas últimas obras mais conhecidas – O velho e o mar, que ele escreveu quando morava em Cuba, em 1952, e Paris é uma .festa, de 1960 – revelam dois momentos distintos na vida desse autor nada burocrático, nada politicamente correto e que, enquanto esteve vivo, esteve sempre apaixonado pela vida.

Em O velho e o mar, o autor retrata com maestria a luta incomum de um velho para apanhar um grande peixe. A luta pela sobrevivência talvez nunca tenha sido tão bem descrita como nesse livro. Em Paris é uma .festa, Hemingway faz um retrato um pouco nostálgico do que foram para ele aqueles anos da chamada “geração perdida”.

Durante a Segunda Guerra, o escritor separou-se novamente. A sua terceira e última esposa, Mary Welsh, era a única pessoa, além dele, na casa de Ketchum, ldaho, em 2 de julho de 1961, quando Hemingway estourou a cabeça com um tiro de espingarda – sete anos depois de ter ganho o prêmio Nobel de Literatura de 1954.


da revista “Cult”, n.38, Setembro de 2000

Relacionado

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *