Claúdio Willer

Depoimento: Anteparos da visão

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Processo de criaçao

Ruínas Romanas, um dos poemas de meu próximo livro, Estranhas Experiências: eu estive lá. Terminei a caminhada Capitólio – Senado Romano – Coliseu com o poema se formando na cabeça. Os poemas intitulados Anotações de Viagem de Estranhas Experiências foram escritos assim. O lago do primeiro poema de Anotações de Viagem, nadei nele, fui tomando notas ao sair da água. O poema seguinte, da mesma série, na Praia Mole, Florianópolis, atrás da Lagoa da Conceição, lugar empolgante, em 1981 ninguém ia lá. Viagens 3, de Jardins da Provocação, escrevi no avião para São Paulo, tresnoitado, sobre a noite anterior em Brasília. Viagens 5, a cena do quarto com a luz filtrada pela persiana: meu quarto. O longo poema erótico do final de Jardins da Provocação, É assim que deve ser feito, com uma reiteração, nossos corpos isso, nossos corpos aquilo, traduzindo o gozo, o prazer ainda presente, as sensações da noite anterior fluindo pelo corpo, nas imagens em frases longas.

Poemas da hora ou do dia seguinte. Então, não se trata apenas de relação entre sujeito e mundo, mas entre poesia e vida, e da palavra com o corpo. O mesmo entusiasmo pode ser suscitado por um texto. Homenagem a Dashiell Hammett, do Jardins da Provocação: eu havia lido, de uma enfiada só, os contos do The Continental Op, até tarde. No dia seguinte acordei e já fui escrevendo, enquanto tomava o café.

Nem tudo é assim, no ato. Às vezes, mediado pela memória. Um encontro, um sonho, despertam sensações e emoções que se transformam em imagens, frases. Ou uma combinação do aqui e agora e do antes, um catalisando o outro. O poema em prosa Chegar lá é, de certa forma, metalinguagem, descreve como sobrevêem a evocação.

Citei poemas dos quais sei referências exteriores ao texto: estive lá aquela noite, chovia em Roma, estava em casa com aquela mulher… Outros, não sei o que pretendia dizer com aquilo. Às vezes, redescubro poemas. Chegar lá – quem me chamou a atenção para esse poema em prosa foram vocês, do Azougue, ao me pedirem que o lesse em voz alta (em uma sessão de leitura de poesias na Biblioteca Mário de Andrade, em 1996). Antes, não havia reparado. Há um filme, Inventário da Rapina, de Aloísio Raulino, um média-metragem com cenas da cidade e poemas meus, no qual ele pôs um poema do Jardins ao qual nunca havia dado importância, O dia seguinte (começa assim: Ajuda-me a desembrulhar esta cidade/e seus pacotes de percepção). Quando vi o poema na tela, pensei – “Que bonito! Como é que escrevi isso e não reparei?”

Minha poesia valoriza as imagens. Imagens visuais. Mas a prosódia, ritmo, musicalidade, têm que estar presentes. Mostro isso ao ler em voz alta. Fiquei mais sensível à prosódia ao traduzir Ginsberg, autor no qual essa dimensão é fundamental. Isso me ajudou a perceber, também, o ritmo e sonoridade de poemas anteriores, aqueles dos anos 60.

Poesia e prosa

Categorias como prosa e poesia são relativas. Octavio Paz (entre outros) lembra que a poesia precede a prosa, que a prosa é historicamente recente. Curtius mostra que os antigos, até a Idade Média, desconheciam a diferença entre poesia e prosa. Era tudo o “falar eloqüente”, o discurso literário, que obedecia a regras e cânones de uma retórica e uma poética. Não sei se passei de uma coisa para a outra, ou se não é tudo a mesma coisa.

Comecei com os poemas em prosa do Anotações para um Apocalipse e Dias Circulares, década de 60, quase escrita automática, associação livre, o Daimon encostando e soprando coisas em meu ouvido. Anos 70, uma fragmentação, poemas não mais apenas em prosa, mas uma espécie de versificação, de disposição gráfica das frases na página, e o aparecimento do tema, poema sobre Dashiell Hammett, sobre Garcia Lorca, sobre a noite anterior etc. Narrativa em prosa, como em Volta, publicado em 1996, foi a etapa seguinte. Mas esse não é um percurso linear, de uma coisa para outra. Faço de tudo ao mesmo tempo. Contemporâneos da preparação de Volta, há poemas em prosa e poemas que não são em prosa. Alguma coisa do Estranhas Experiências coincide com ter escrito Volta, e é diferente.

Mas Volta é prosa em termos, fora do esquadro. Um dos comentaristas de Volta – Humberto Mariotti, em um artigo na revista Toth – observou isso, ao intitular seu artigo de Prosa de poeta e mostrar que a estrutura do livro, não-linear, movendo-se em várias direções, passando de um assunto para outro – coisas que aconteceram comigo, as cidades, magia, surrealismo – é mais própria do poema que da narrativa em prosa. Álvaro Alves de Faria e Deonísio da Silva, em artigos, também viram a confluência prosa-poesia.

É possível que essa característica de Volta, ser uma coisa e outra, e não ser bem uma coisa nem outra, tenha determinado dificuldades na recepção. Complicou a classificação e catalogação. Em alguns lugares (todo o noticiá-rio do lançamento) figurou como en-saio. Em outros, como memórias (memórias… esperem, a hora em que eu for escrever memórias…). Ensaio, Volta com certeza não é – ensaio é o prefácio que fiz para a Obra Completa de Lautréamont, ensaio não-acadêmico (se fosse obedecer aos requisitos de uma tese, daria 150 páginas…), mas com referências bibliográficas, citações, no lugar em que tem que estar.

Volta, assim como o restante do que escrevi, e talvez toda criação literária, foi um acerto de contas comigo mesmo. Um desafio a ser enfrentado. Testou meu fôlego. Sou mais de escrever textos curtos, poemas e ensaios.

Crítica literária

Outro dia, numa palestra de Gerd Bornheim sobre Brecht, ele trabalhou com as categorias arte do objeto e arte do sujeito. Bertolt Brecht como representante da arte do objeto. Aceitas essas categorias, perfilo-me do lado da arte do sujeito, de Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, Artaud, Lorca, os surrealistas, beats etc. Representantes da rebelião romântica. Baudelaire, ao questionar o realismo e fazer o elogio da imaginação, foi o pilar, o fundamento dessa visão.

A crítica e os estudiosos de literatura brasileiros são enviesados para o lado da arte do objeto. Cerebrais, formalistas. Isso tem um correlato, que é uma poesia contemporânea brasileira excessivamente contida, bem-comportada. Uma ou duas gerações de poetas assimilaram um modo de escrever a la João Cabral de fase final, que acabou por tornar-se o corifeu da poesia escrita a frio, da supressão da emoção. Absorveram a versificação quadrada, geométrica, simétrica. Metáfora e analo-gia são substituídas pela paráfrase, algo que pertence à lógica simbólica e não à poesia. Outro dia, ao preparar uma palestra sobre poesia e o mar, vi isso em dois poemas de Cabral, sobre o canavial e o mar, e sobre o mar e o canavial. São séries de paráfrases e definições negativas, do que o mar não é, do que o canavial não é, um confrontado ao outro. Isso se faz em análise lógica, na formalização dos enunciados científicos. Poesia é o contrário de uma coisa dessas.

Acho um escândalo a pouca atenção da crítica e a pouca quantidade de estudos sobre poetas como Piva, Afonso Henriques, Rodrigo de Haro, entre outros. Piva é autor de uma poesia de grande riqueza simbólica, original, e, além disso, todo mundo o conhece – ao dizer “todo mundo”, refiro-me à ltapira encravada na metrópole, à província que constitui nosso mundo cultural – e faltam inserções em antologias e estudos críticos sobre ele. Sintoma da burocratização dos estudos literários. Sobre Baudelaire, sobre Lautréamont, sobre Murilo Mendes e Jorge de Lima, escrevem, protegidos pelas décadas de distância do autor.

A situação, aqui, se assemelha ao ambiente intelectual americano denun-ciado por Allen Ginsberg nos anos 40/50, dominado pelo formalismo, que via a Beat como subliteratura, fenômeno comportamental. Essa opinião permanece. A resenha do Collected Poems de Ginsberg, da edição Harper & Row de 86, no NY Times, foi nessa linha. Mas lá, levou apenas alguns anos até os beats repercutirem. Aqui, não, aqui, são décadas, dá a impressão de que, desde 1960, está tudo igual, mesmo com a contracultura e ou-tros acontecimentos revolucionários de permeio. No manifesto do final do meu livro de 1964, Anotações para um Apocalipse, meus impropérios contra o establishment literário são atuais, tudo continua do mesmo jeito.

Surrealismo

Vejo o surrealismo como um enorme e maravilhoso conjunto de realizações artísticas – na poesia, prosa, artes visuais, inclusive objetos, colagens e fotografia, cinema, mais isso que depois veio a ser chamado de happening e performance – e, principalmente, como movimento de idéias. Uma grande reflexão sobre a relação entre poesia e sociedade, arte e política, criação e vida. Onde Baudelaire havia sustentado a separação das esferas do verdadeiro, do ético e do estético, em sua crítica ao Victor Hugo de Os Miseráveis, argumentando que as questões da verdade interessavam à ciência, e que moral e arte nada tinham a ver uma com a outra, Breton e seus companheiros tentaram juntá-las ou reaproximá-las. Apresentaram uma nova utopia.

Assim, a dimensão filosófica é inseparável da produção artística do surrealismo. Não existe forma surrealista. Uma exterioridade surrealista, dissociada das idéias, não é surrealismo. Produções instrumentais em video-clipe, peças de publicidade, arranjos de vitrina, desfiles de moda, design, capas de CDs, decoração, o que for, não são surrealismo. A atenção a uma “estética” surrealista pode fazer passar desapercebido aquilo que for realmente provocador e subversivo. Por outro lado, isso que a gente vê, hoje, pode representar um aspecto da permanência do surrea-lismo. Ao menos, da crítica ao realismo, à idéia da arte como mimese (nisso dando seqüência a Baudelaire), valorizando a liberdade de criação.

Atualidade das idéias surrealistas? Quando perder atualidade a idéia da contradição entre poesia e sociedade, da criação como subversão, o mundo pára.

Há polêmica à vista. Ainda mais com a publicação, programada para logo, das entrevistas de André Breton. Em resenhas sobre um livro de en-trevistas com poetas latino-americanos de Floriano Martins, Escritura Conquistada, foi questionado o interesse do surrealismo para a literatura brasileira. O próprio Floriano, mais alguns de seus entrevistados, foram chamados de tardosurrealistas. Comecei a imaginar, quando li isso, os possíveis prefixos do surrealismo. Tardígrados tardo-surrealistas. Esquivos parasurrealistas. Sombrios criptosurrealistas (incluindo o autor da série Contos da Cripta), Lúgubres sub-sur-realistas, adejantes suprasurrealistas, megasurrealistas freqüentadores das megastores, consternados pós-surrealistas tão tristonhos quanto pós-modernos. Anti-surrealistas engolindo em se-co depois de adotarem e lerem direito Octavio Paz. Animados neo-surrealistas, um bando deles subindo e descendo às carreiras, fazendo bastante confusão, as escadarias do seu prédio, Sergio Cohn, naquela festinha de aniversário do Piva. E eu? Quem sou? Qualquer hora, jogam um grosso volume de taxonomia literária sobre minha cabeça, represália a esta entrevista e ao Estranhas Experiências.

Há um acervo de besteiras sobre surrealismo. Duas vezes, nos últimos anos, li em artigos na Folha – um de Milan Kundera, outro de Décio Pignatari (como esse está cada vez mais idiossincrático!) – a afirmação de que o surrealismo não produziu literatura importante. Não, não produziu nada… Exceto toda a poesia de língua francesa da primeira metade do século. E não só Breton, Péret, Eluard etc. Há uma configuração surrealista, que inclui até mesmo Queneau e Ponge, depois de participarem do movimento, fazerem questão de criar algo diferente, bem como Char ficar pouquíssimo, mas dizer que aqueles foram os anos mais importantes de sua vida, e Michaux ter que dar-se ao trabalho de explicar por que não era. Idem, na segunda metade do século, com Octavio Paz, Almé Césaire, Mário Cesariny, não importa quanto tem-po cada um deles participou ativamente do grupo surrealista. Assim como não importa se alguns desses poetas são duas décadas e meia mais velhos do que eu – em termos de tempo da História, isso não é nada.

Nesses e em inúmeros outros casos, o surrealismo é referência. Há uma cons-telação da rebelião, na qual o surrealismo tem lugar central, brilho mais forte, e que, contudo, é mais extensa do que o surrealismo achava que fosse (para mim, inclui a Beat, onde a rebelião se realiza). E há mais coisas ainda. Grandes autores com relações ambivalentes. Cortázar, em seu livro de entrevistas, argumentar que fazia algo menos simbólico, mais real do que surrealismo, para mim é um modo de dizer que, mes-mo incorporando o hábito de guiar-se por signos ao acaso da cidade, ia além das paráfrases bretonianas no Jogo de Amarelinha. O surrealismo como divisor de águas, referência, inclui as caras feias dos estruturalistas, que nossos scholars adotaram. Gérard Legrand, nos anos 60, ironizou os colóquios de Cérisy-la-Salle como frescura, perfumaria de intelectuais. 0 Brasil universitário adotou Tel Ouel e afins, e, por tabela, seus contra-ataques a La Bréche.

Não tenho um medidor de radiação que dê os graus de contaminação surrealista de poetas contemporâneos brasileiros. Nem sei se é o mais importante, embora, com certeza, esse hipotético medidor fosse crepitar perto do Sérgio Lima. Interessa a escrita com imagens, e a poesia em prosa, gênero, a meu ver, subversivo, por, sendo uma coisa, ser outra. Floriano Martins de Tumultú-mulos e outras obras, sem dúvida. Sérgio Lima, cf acima. Idem, ibidem, Piva, Afonso Henriques. Os poemas em prosa do Weydson Barros Leal. Muito mais gente. Poetas imagético-hermético-simbólicos, a começar por Rodrigo de Haro.

Boom de poesia

Não há boom poético. Entendendo boom como sinônimo de proliferação, o último foi o dos poetas marginais dos anos 70/80. O que está sendo publicado e divulgado, via novas editoras (Nankin, Sette Letras) e novos periódicos, é o mínimo. Parece muito porque, até há pouco, não havia nada.

Para acontecerem leituras de poesia, basta alguém disposto a trabalhar, se possível de modo competente.

Faço parte de uma geração poética – a dos anos 60 – que definiu sua identidade negativamente em relação à poesia concreta e outros empreendimentos formalistas, precedentes ou contemporâneos. O que Antônio Fernando de Franceschi escreveu em seu depoimento à antologia do Augusto Massi, e o que eu publiquei na Revista da Biblioteca Mário de Andrade, sobre poetas dos anos 60, vale para todos os autores daquele período (coleção Novíssimos de Massao Ohno etc). No caso do nosso grupo (Piva, De Franceschi, Décio Bar, Sérgio Lima e Rodrigo de Haro alternadamente, um por vez, Maninha, logo em seguida Bicelli, Raul Fiker) mais radical, mais antiburguês, negativamente também com relação à geração de 45 e às expressões poéticas do nacional-populismo, tipo Violão de Rua. Para nós, ou eram cerebrais e faziam poesia burocrática, dissociada da vida, ou eram beletristas acadêmicos, ou tudo isso junto. Afirmando nossa identidade, afirmamos a diferença com relação ao mundo literário e, por extensão, à sociedade. Traduzimos isso comportamentalmente, com provocações e boemia desenfreada (li, há pouco, a biografia de Ginsberg por Barry Miles – nesse livro, e nas biografias de Kerouac, quando falam daquele período dos anos 40/50… – e quando leio em voz alta o Uivo, aquelas histórias e alusões – como eu sei muitíssimo bem do que estão falando! – há um depoimento meu para o Piva, na série Meditações de Emergência da Funarte, a ser publicada, cujas entrelinhas são sugestivas).

Havia, reconheço, algo de província nisso de você cruzar a toda hora com alguém de outra turma, dar de cara com Bell, Chamie ou Paulo Bonfim na esquina da Consolação e São Luís, ou estar no bar ao lado, ou a duas mesas de distância no mesmo Paribar ou Ferro’s Bar. Mas toda vida literária, inclusive Nova York ou Paris, é meio província. E aquela agitação era sintoma de vitalidade. Dos anos 80 para cá, não vejo nada com esse caráter coletivo e orgânico. Há poetas. Mas o panorama oferecido por uma antologia importante, como Artes e oficios da Poesia, do Augusto Massi, é uma soma de individualidades. Outra antologia recente, essa que saiu nos Estados Unidos e provocou polêmica (Nothing that the Sun could not explain, organizada por Nelson Ascher e Régis Bonvicino) retrata um segmento em relação de continuidade com a poesia concreta (sem dúvida, atestando sua permanência, mostrando como resistiu ao confronto com a poesia marginal e outras correntes antagônicas). Portanto, dos marginais para cá, quase nada de novo em matéria de movimentos e propostas coletivas, embora tenham aparecido bons autores.

Estou comentando isso para chegar à distinção entre duas coisas. Uma, leituras e outras manifestações como expressão de um movimento. Outra, sessões de leitura de poesia que são, ou deviam ser coisa normal na agenda de São Paulo, do Rio, de qualquer metrópole. Aí, repito, basta alguém saber organizá-las.

Participei de leituras nos anos 60. Voltei a participar, e a organizá-las, nos anos 70 (Feira de Poesia e Arte, inclusive). Com verbas e apoio da Secretaria Municipal de Cultura, nos anos 90. Havia parado, pois promover esse tipo de coisa sem apoio é desgastante. As lei-turas dos anos 60 foram expressões de movimentos e propostas (o grupo do Bell, o Álvaro Alves de Faria, o nosso, depois a série de leituras promovidas por Renata Pallottini, Neide Archanjo e Ilka Laurito etc). As dos anos 70, da resistência política, pluralistas, retinindo quem era contra os militares (bastante gente). A interrupção da sua regularidade entre 1985 e 1995 foi, de um lado, resultado da falta de propostas – de outro, um problema de política cultural e administração cultural.

Eunice Arruda organizou leituras e depoimentos na Livraria Duas Cidades. Há programação de poetas novos na Livraria Cultura. Donizete Galvão e Dora Ferreira da Silva. Renata Pallottini e Cel-so de Alencar, em um novo espaço cultural no Itaim. Alguma coisa na Funarte-SP. No Rio, as Quintas Poéticas. Algo sendo feito pelo trio Claufe-Bial-Petri. E as coisas lançadas ao ar, ou ao ciber-espaço, como as pages da Casa das Ro-sas. Espero que prossigam e se am-pliem. A quantidade não provocará per-da de qualidade. Ha-vendo quem as patro-cine, é natural acontecerem. Mas não indicam, necessariamente, movimentos com uma fisionomia identificável.

Com essa característica, com maio-res chances de exer-cer um papel catalizador, o que existe, parece-me, é o circuito que inclui este Azougue e Nankin do Fábio Weintraub. Tomara que, com o tempo, ocupem a cena, influindo nos ritmos da crítica e da recepção.

Novos projetos

No Azougue n° 1, ou zero, ou 0,75, para o qual dei um depoimento, havia comentado que ia organizar leituras de poesia. Quando saiu aquele Azougue, já estavam acontecendo. Agora, penso mais para a frente, no que pode ser feito além das sessões com leituras de poesia e depoimentos de poetas.

Tenho alguns projetos. Um, de poetas falando sobre prosa e fazendo leituras de prosa, e prosadores lendo poesia e falando de poesia (a idéia é do Augusto Contador Borges). A intenção é evidente, depois do que disse acima sobre poesia-prosa.

Outro projeto, que espero começar logo, é um ciclo de palestras e leituras de texto sobre malditos, rebeldes e marginais, desde William Blake e o Marquês de Sade até Ginsberg e Artaud. A intenção é valorizar a rebelião como força motriz da criação e da própria história, e enfrentar a onda que vem aí de bom-comportamentismo, hipocrisia, neo-moralismo “politicamente correto”, censura querendo entrar pela porta dos fundos.

Além disso, quero, eu mesmo, dar oficinas de leitura de poesia. Leitura como expressão oral e como interpretação do texto, interligadas. Chamou-me a atenção, nesses ciclos que organizei, haver poetas que sabiam dizer seus poemas, e outros que apresentavam um resultado oral aquém do que estava escrito. Portanto, presos à página. Cordas vocais, boca, brônquios etc, fazem parte do corpo humano. Acho que o trabalho com o som também é aproximação entre signo e corpo, e pode resultar em um ganho de concretude da criação. Não pretendo fazer oficinas de poesia Beat, mas me parece que a valorização da oralidade e prosódia, notadamente em Ginsberg e Kerouac, teve relação direta com a dimensão do concreto, a saída do ar rarefeito onde pairava a poesia que os circundava.

Quanto a publicações minhas, são dois livros em vista. Um deles, o livro de poesias, Estranhas Experiências, com poemas inéditos e alguns de Jardins da Provocação e Dias Circulares. O outro um livro de ensaios. Para 1999, também, pela Palas Athena. Título, O escritor como personagem – textos sobre literatura e vida. É sobre biografias de escritores, retomando artigos que publiquei e conferências já dadas sobre Lautréamont, Jarry, Artaud, Kerouac, Lorca e Dashiell Hammett. Seu fio condutor: a idéia do escritor como personagem de si mesmo, da literatura produzindo vida, numa relação contrária àquela que o realismo enxerga (da arte retratando a vida), e herética com relação ao formalismo (que recorta o texto de seu contexto e exclui o biográfico).

De outro modo, isso foi tema de Volta: os momentos mágicos em que o texto se antecipa aos acontecimentos e parece produzí-los.

No meu prefácio a Lautréamont, também insisto em que havia um sujeito, alguém de carne e osso escrevendo aquilo. Quero ir mais longe. Há um período, uma fase da história da literatura que pretendo pegar a fundo. O grupo de poe-tas e intelectuais associados ao simbolismo e decadentismo, ligados à revista Mercure de France, e os por ela valorizados ou publicado. Daí, desse ambiente cultural, surgiram ou receberam influência, direta ou indireta, idéias, movimentos e personagens que constituíram modernismos e vanguardas: cubismo, futurismo, construtivismo, imagismo poundiano, dada, surrealismo, as re-voltas e revoluções culturais que pautaram o século XX. Tomando o simbolismo e o pós-simbolismo francês em sua formação mais ampla, a escalação completa, vê-se a plêiade de excêntricos, visionários, loucos: Rimbaud, Verlaine, Mallarmé, Corbiére, Laforgue, Huysmans, Germain Nouveau, Lautréamont, Fargue, Jarry (…nunca ninguém confundiu tanto autor, personagem e obra como Jarry, ao encamar Ubu Rei daquele jeito: protagonizou na vida real um texto que nem era seu, porém adaptação de uma gozação escolar, escrita por colegas de Liceu!).

* * *

Aqui, neste depoimento, comecei com observações sobre a relação poesia-vida na criação dos meus poemas. Termino mostrando mais alguns modos dessa relação, seja em projetos de ação cultural ou em textos que estou preparando. Pode ser que meu interesse não esteja propriamente voltado para a literatura, mas para outra coisa, um lugar entre a literatura e o outro, onde se processa o diálogo sobre a contra-dição entre palavra e vida, símbolo e realidade. Um eixo ao redor do qual tenho dado voltas.

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