Claúdio Willer

Autobiografia selvagem

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1961: Do grande olho saiam todas as coisas. Caminhava-se em meio ao maremoto, sondava-se o tempo, a indiferença dos dragões alados não comovia ninguém.

1962: Pelos cantos das casas, pelos cantos, encolhiamo-nos e rolávamos, saltimbancos de uma nova ordem das coisas. Algum tipo inédito de som era despejado sobre a cidade. Aumentava a umidade do ambiente, nem sempre fazia frio. Devo contar tudo. Garrafas voaram pela janela.

1963: O terremoto, a convulsão, o susto pálido. E o entardecer que se abria como uma grande vagina para engolir-me. A mais pura esquizofrenia. Pastéis alados começavam a cobrir a paisagem, e pousavam nos beirais e parapeitos. Transcrevia-se a loucura. Como descrever tudo que aconteceu?

1964: A grande risada. Contemplei o mundo, presenciei os fatos de perto, a partir da minha cama. Impossíveis outras posturas. Alucinações no Maranhão e Recife. Que odor de ferrugem permeava as madrugadas! Mas algo preparava-se.

1965: Chovia demais, era muita lama cobrindo tudo. Lembro-me de um olhar, uns olhos, talvez por detrás residisse alguém. Não sei; seria incapaz de contar tudo. Somente o plano inclinado, e era oleoso. Um dia trepamos numa árvore, era bonito, e fazia sol.

1966: O eco dos tambores. As anunciações. As auréolas. As corolas. Os reverberos. Também dessa vez, todo mundo estava lá. Um começo misterioso de qualquer coisa. Novamente o olhar habitado, estendendo-se e tomando conta dos subúrbios.

1967: Não sei quando começou. Durante um tempo, carregou-se um canivete espanhol.

1968: Uma certa acidez e ferrugem no ar. A poeira também fazia-se sentir. O calor era aquele calor que precede as batalhas. Mas tudo bem, juntamos os pedaços galhardamente.

1969: Como era extensa aquela praia. Tinha vindo ao mundo para brincar, mas havia me esquecido. Claridade, talvez. Entenda quem quiser. 1969 foi um ano rodeado de gotículas como um halo lunar.

1970: Aquele tambor, e o vértice fincado! Dizíamos sempre a mesma coisa, um aguilhão de ouro atravessando os dias e juntando-os na mesma fieira.

1971: Resto de selvageria. Certas coisas não devem ser ditas, apenas esculpi- das em jacarandá.

1972: Redondo ou ovalado. No fundo da caverna, fogueiras acesas.

1973: Não consigo lembrar-me.

1974,1975,197………………………………………………………………….

E agora, e agora estamos aqui, fixos e trespassados no tempo. E agora estamos um frente ao outro, olho contra olho, sexo contra sexo, abrindo sucessivas cortinas do oculto olhar. E agora sabemos o que se passa e o que vai acontecer. Somos definitivos como uma profissão de fé. Somos uma confissão arrancada à meia noite. Prenuncia-se um diálogo poético. Os amigos começam a chegar, cheiro de malas e corrimões no ar. O grande olho despeja novos caminhantes, eles procuram seus aposentos e instalam-se.

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