Cacaso

Alguns poemas de Cacaso

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O poeta, letrista e compositor brasileiro, Antônio Carlos Brito (1944-1987), conhecido como Cacaso, pertenceu, junto com Ana Cristina César e Chacal, à chamada “geração mimeógrafo”. É autor de cerca de 200 canções, e publicou os livros de poesia A Palavra Cerzida (1967), Grupo Escolar, Beijo na Boca, Segunda Classe e Na Corda Bamba, todos nos anos 70. Seus poemas se caracterizam pelo uso da fala coloquial, temática urbana, musicalidade e presença de elementos da contracultura dos anos 60. Cacaso, que foi professor na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, também deixou artigos e ensaios.

E Com Vocês a Modernidade

Meu verso é profundamente romântico.
Choram cavaquinhos luares se derramam e vai
por aí a longa sombra de rumores e ciganos.

Ai que saudade que tenho de meus negros verdes anos!

Moda de Viola

Os olhos daquela ingrata às vezes
me castigam às vezes me consolam
Mas sua boca nunca me beija.

Dentro de Mim Mora um Anjo

Quem me vê assim cantando
não sabe nada de mim
dentro de mim mora um anjo
que tem a boca pintada
que tem as asas pintadas
que tem as unhas pintadas
que passa horas a fio
no espelho do toucador
dentro de mim mora um anjo
que me sufoca de amor

Dentro de mim mora um anjo
montado sobre um cavalo
que ele sangra de espora
ele é meu lado de dentro
eu sou seu lado de fora
Quem me vê assim cantando
não sabe nada de mim

Dentro de mim mora um anjo
que arrasta as suas medalhas
e que batuca pandeiro
que me prendeu nos seus laços
mas que é meu prisioneiro
acho que é colombina
acho que é bailarina
acho que é brasileiro.

Epopéia

O poeta mostra o pinto para a namorada
e proclama: eis o reino animal!
Pupilas fascinadas fazem jejum

Poema

Trago comigo um retrato
que me carrega com ele bem antes
de o possuir bem depois de o ter perdido
Toda felicidade é memória e projeto.

Logia e Mitologia

Meu coração
de mil novecentos e setenta e dois
já não palpita fagueiro
sabe que há morcegos de pesadas olheiras
que há cabras malignas que há
cardumes de hienas inflitradas
no vão da unha na alma
um porco belicoso de radar
e que sangra e ri
e que sangra e ri
a vida anoitece provisória
centuriões sentinelas
do Oiapoque ao Chuí.

O futuro já chegou

– Como foi?
– Com revólver,arrebentou
a cabeça. Enem o sangue bastou
para destar seus cabelos.
O desepero cortou-se
pela raiz.
– Impossível, como foi?
– Assim.
– Mas como?
– Dizia que estava desanimado,
que as coisas não faziam sentido.
Ultimamente
já nem saia de casa.


de Beijo na boca
Editora  Brasiliense, Sao Paulo, 1985

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