Ungulani Ba Ka Khosa – O Exorcismo

Ungulani Ba Ka Khosa – O Exorcismo

I

Reunidos à beira do rio, e em poses indescritíveis, os homens tiraram as balalaicas da disciplina, os fatos do poder, as medalhas da luta e do trabalho, e envergaram as tangas da ancestralidade, em sinal de respeito e anuência aos espíritos antigos e recentes, evocados em preces intermináveis pelo curandeiro que desceu a montanha, acompanhado pelo séquito de ajudantes e neófitos nesta matéria única do saber não-escrito, a pedido do administrador que recusava aceitar o desaparecimento repentino do filho nas águas que o levaram na tarde de uma quinta-feira, dia em que Hanifa, mulher esbelta e de ancas fartas e seios túrgidos, descia ao rio na hora em que os relógios marcavam as dezasseis horas, com intuito de executar o trabalho de todas as semanas ante o olhar trémulo e fugidio de Pedro, razão das preces, não só pelo desaparecimento, mas por estar assente entre os homens que o viram nessa tarde fatídica e em todas outras tardes de que há memória que o caso devia-se a irritação das almas ancestrais que o viam, silencioso, contemplando as ancas fartas e as nédias coxas que se locavam lubricamente à capulana molhada da moça que sorria e enchia, sem a precipitação simulada das mulheres que sentem a presença incómoda dos homens, a bilha encostada à linha de suicídio das ondas com a ajuda de uma concha feita de casca de abóbora, enquanto aguardava um gesto, um movimento, uma palavra, um sorriso, um olhar convidativo que ligasse o céu e a terra no corpo único do prazer de todos os séculos da tarde interminável de quinta-feira de todas as semanas que Pedro, sorumbático, recusava desencadear, o que irritou as almas, porque, segundo afirmavam os homens, os nguluves, nome que os espíritos levam nestas terras banto, teriam dito que esta não é a terra e muito menos o continente onde o prazer é satisfeito em sonhos e ideias, mas uma terra de machos que não largam o coelho quando o atiçam, e mais não disseram, pois a irritação era tanta que Pedro viu, nessa tarde memorável, a concha desprender-se da mão da moça e mergulhar nas águas, obrigando-o, em impulsos inexplicáveis, a persegui-la em braçadas contínuas, até que a concha e a mão se abraçaram, a meio do rio, local onde as almas se reúnem em noites de tempestade e luar.

II

Hanifa, curvada sobre as águas do rios, esgravatou a terra molhada, expôs ao céu e às águas os seios erectos, desgrenhou as lianas que se entrecruzavam na cabeça como uma possessa, olhou com olhos de suicida as águas sem cheiro de cadáveres, tirou as capulanas do pudor, voltou ao dia primeiro, gritou como nunca, aspirou o oxigénio da vida, e chorou cruelmente. As lágrimas, misturando-se às águas que brigavam com a margem, subiram a pequena ladeira e correram, loucas, em fios dispersos, por entre atalhos que desembocavam na principal avenida da vila. A terra, solta e seca, humedeceu-se. O vento, sempre calmo, mudou de direcção e atirou-se às terras mais felizes. Os homens, preocupados com as carências mundanas, não ligaram às águas que formavam um fio único que correu, célere, em direcção à administração, pois tudo o que era anormal entrava na lógica dos dias e das noites da morte e do desespero.

O secretário da célula, com um fato de mordomo, ensaia um discurso alusivo ao dia dos heróis vivos e mortos, na varanda do poder, quando sentiu as águas à altura dos artelhos. Sem espanto, e com a morosidade das jibóias, interrompeu o ensaio e disse com toda a sinceridade que a militância lhe permitiu: reaccionários, inimigos da revolução.

As águas, alheias à comunicação humana, entraram pelos gabinetes da burocracia, espantaram os serviços estancados pela canícula tropical, e acercaram-se do gabinete do chefe. O administrador, com a balalaica totalmente desabotoada e os pés assentes sobre os sapatos com a dimensão de sapos de épocas perdidas, despachava processos dos candongueiros de ratos selvagens, dos adúlteros impotentes e dos poços sem águas, com o polegar da mão direita, o mesmo que servia, com o apoio do indicador, para limpar o ranho que teimava sair das narinas coloridas de azul, quando se apercebeu de que algo estranho se passava. As águas, como larvas em cio, invadiram o corpo obeso e cobriram a secretária, tornando indecifrável os processos de prostitutas em regime de reeducação e dos candongueiros de ratos selvagens.
– O que é que se passa?
– O seu filho desapareceu, senhor administrador, respondeu um funcionário que irrompeu pelo gabinete adentro com mesuras do tempo de Changamire Dombo.
– Como?
– O rio levou-o, camarada…
– Porcaria de vida!

Caminhando com as meias por onde despontavam os dedos como cabeças de tartarugas espantadas com a clareza do mundo, como cabeças de tartatugas espantadas com a clareza do mundo, e a balalaica mostrando o relvado desordenado da savana entregue aos dissabores da devastação amorosa dos herbívoros insaciáveis, o administrador percorreu os gabinetes dos regulamentos e das palavras de ordem em busca dos polícias que jogavam damas debaixo das árvores., longe da esquadra e dos locais de vigília.
– Chamem-me esses, esses…

Minutos depois, por vontade e ordem do administrador, os homens e as mulheres saíram dos gabinetes e das residências e bares e bazares legais e clandestinos e em todos outros locais onde pudessem estar, incluindo as retretes e as casas de banho sem tecto. E durante cinco dias e seis noites, as canoas em uso e desuso, cortaram as águas em todas as direcções possíveis, e o mais que puderam encontrar foram os ossos do primeiro colono que morreu de um diarreia crónica, as armas enferrujadas de encher pelo cano, a primeira dentadura postiça que circulou na boca de um preto que se orgulhava do nome de João Merda, as polainas dos caçadores de pretos revoltados, as lanças de cabo curto de que os nguni reivindicavam a patente, séculos depois dos aborígenes as terem inventado, e outros objectos sem nomeação nas línguas correntes, pois pertenceram às comunidades que falavam o banto primitivo.

Disse-te, Pedro, pensava o administrador, goza esta vida, eu sou chefe, tenho o poder, as ordens são acatadas por mais de quinze mil almas; os homens e as mulheres lambem-me os pés como cães carentes de afecto… dei-te tudo, Pedro, as mulheres mais belas perfilaram a teus olhos, e tu nem quiseste… meu filho único, órfão de mãe, mãe que choraria se te visse a correr como um cão atrás dessa, dessa, dessa, … ai, Pedro, quantas vezes, mas quantas, quantas não foram as vezes que te disse que esses tipos mudam os chefes quando lhes dá na gana, e por isso goza, meu filho… e tu, parvo que foste, deixaste-te levar por essa…

E foi neste turbilhão de pensamentos desencontrados que os homens da procura, meio desfeitos pelas águas e pelo cansaço, o encontraram: os cotovelos rasgando as coxas, a cabeça sustida pelas mãos calosas, o cabelo desgrenhado, o rosto contrito, a velhice despontando. Estava sentado no mesmo local onde o filho sempre se sentara.
– Não o encontrámos, camarada administrador.
– É impossível.
– Procurámo-lo pelo rio todo.
– E como é que o corpo não apareceu?
– Os crocodilos devem tê-lo comido.
– E o sinal?
– É verdade. O sinal não apareceu. Mas não seria melhor chamarmos o curandeiro?
– Quem?
– Simamba.
– Chamem-no. Mas… esperem aí. Soergueu-se. Limpou as calças. Aproximou-se dos homens que o olhavam com a inocência das lebres em zoos carentes de erva e disse:
– Não quero cartas de leitores nem relatórios falsos às estruturas centrais. O que vamos fazer aqui não deve sair deste distrito. Não quero ouvir histórias. Não quero intriguistas, boateiros, reaccionários, contra-revolucionários, inimigos da pátria, ouviram? Aqui não entra superstição, curandeirismos! O que vamos fazer, camaradas, enquadra-se nas experiências revolucionárias. Entenderam?
– Entendemos, senhor administrador.
– E não basta que vocês entendam, é necessário que expliquem isto aos vossos irmãos, às vossas mulheres, aos vossos filhos, e aos conhecidos e desconhecidos. E digam-lhes claramente que vamos fazer uma grande experiência revolucionária com base nos recursos locais. Ouviram?
Ouvimos, camarada administrador.
– Ide, concluiu. E suspirou profundamente. A noite entrara. A lua corria. Hanifa, envolta nas capulanas do desespero, contemplava as águas que levaram o homem com quem sonhara partilhar para todo o sempre o seu leito de solteira na cabana entregue às melodias do vento tropical que entrava pelos interstícios de palha e adobe, escorrendo depois pelo corpo em convulsões de amor, de ânsias, de desejos, enquanto a imagem amada lhe entrava pelas carnes, levitando-a do espaço da desgraça. O administrador, repousando a cabeça entre as mãos, deixou que a noite e a lua entrassem no corpo devastado pelas insónias e o levassem ao mundo da infância.
Hanifa chorava mansamente.
As fogueiras alteavam-se desordenadamente na margem direita.
O silêncio cobria a noite.
As águas pelejavam com a margem.
A vila estava de luto. (….)

de Orgia dos Loucos
Ed. Karingana, 1990

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