Roberto Piva – Autobiografia (1964)

Roberto Piva – Autobiografia (1964)

Nasci na maternidade Pró-Matre no coração de São Paulo. Piva é um antigo nome do Veneto (Itália do Norte). Meu avô era de Saleto, perto de Rovigo.

O Livro da Família, que tinha lá em casa, conta a história de um antepassado cavaleiro que combateu nas Cruzadas. Como o avô Cacciaguida de Dante. Só que ao voltar das Cruzadas virou herético & começou a pregar a favor do Demônio. Por ordem do bispo local, foi queimado na praça pública com armadura & tudo. No momento, deve estar passando uma temporada na IX Bolgia do Inferno de Dante. Local destinado aos semeadores de discórdia. Os filhos fugiram da cidade & a descendência continou.

Mas em matéria de revolta eu não preciso de antepassados. A minha vida & poesia tem sido uma permanente insurreição contra todas as Ordens. Sou uma sensibilidade antiautoritária atuante. Prisões, desemprego permanente, epifanias ,estudo das línguas, LSD, cogumelos sagrados, embalos, jazz, rock, paixões, delírios & todos os boys. O cinema holadês informará.

Só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental. Não tenho nenhum patrono no “Posto”, nem leões-de-chacará & guarda-costas literários nas redações de jornais & revistas.

Nada mais provinciano do que os clubinhos fechados da poesia brasileira, com seus autores-burocratas tentando restaurar a Ordem & cagando Regras que o futurismo, dadaísmo, surrealismo & modernismo já se encarregaram de destruir. A estes neozhdanovistas de todos os matizes, gostaria de lembrar esta passagem do manifesto redigido por André Breton & Leon Trotsky: ” Em matéria de criação artística, importa essencialmente que a imaginação escape a toda sujeição, não se deixe impor filiação sob nenhum pretexto. Àqueles que nos pressionam, hoje ou amanhã, para que consintamos que a arte seja submetida a uma disciplina que sustentamos radicalmente incompatível com seus meios, opomos uma recusa inapelável, e nossa deliberada vontade de nos manter no lema: todas as licenças em arte”. Fecho também com John Cage & não abro: “Sou pela multiplicidade, a atenção dispersa e a descentralização, e portanto me situo do lado do anarquismo individualista”. Ou Jean Dubuffet: “O unísssono é uma música miserável”. Precisamos de criações desprovidas de regras & de convenções paralisantes. A poesia é um salto no escuro como o amor. Por isso, meus leitores preferidos são os heréticos de todas as escolas & os transgressores de todas as leis morais & sociais. como não sou intelectual de esquerda, estou sempre às voltas com o problema da grana.

Pasolini começou a contagem regressiva do nosso planeta a partir do desaparecimento dos vagalumes na Itália. Eu poderia começar a mesma contagem regressiva a partir do desconhecimento & desaparecimento da abelha Jataí no Brasil. Acredito que, para a defesa do nosso planeta, as melhores idéias, como disse Edgar Morin, são as idéias “biodegradáveis”.

Uma tarde, numa ilha esquecida do litoral sul de São Paulo, um garoto com olhos de Afrodite me perguntou no que eu acreditava. Respondi: Amor, Poesia & Liberdade. E nos Ovnis também.

Introdução aos poemas

Uma tarde em que eu ouvia Palestrina por toda uma vida sem obstáculo, sem a floresta do afogamento, meu companheiro surgiu no balaústre de meu quarto seus cabelos ondulando com a curvatura da Terra & me disse com sua desgraça de Anjo: o estado originário da imaginação se reencontra na primeira figura da natureza & isto é na aspereza que cobiçosa que guia sua figura através do mundo obscuro & até o fogo – O intervalo tirou o seu fio decapitado ente nós & o sopro da Substância de Joelhos se perdeu de vista – O pequeno coração me reteve me flor: Escuta eu sou o Tríptico – os pássaros me envolveram & ele me reteve Às cinco horas eu recomeço uma vida a partir do caprichoso hálito em que Jacob Böehme me acusa naquela tarde de gelo & tristeza originais Meu companheiro dizia : é fácil aprisionar alguém no perfume de uma flor Assim a Estrela estava sólida no dente fatigado A negra dificuldade oferecia seus ramos sem chance Seu rosto permanecia ensolarado pela doçura Às cinco horas aquele que Devora se mostrou entre as ondas Infantil entre as pálpebras como num enterro Soluçando Aquele que Devora teve suas núpcias de pedra – Freud é o Inferno Musical Nietzsche é o Paraíso

Meu companheiro é o Jardim das Delícias A Figura Negra está impertinente com um Porta-Estandarte Heliogábalo o novo dia recomeça Este é o único turbilhão que meus olhos possuem – O Karma coletivo me aborrece eu acordo com uma luz que me acena por cima dos tetos aquelas mesmas flores após a longa chuva de corações, abanam para sempre os instantes pegajosos que se precipitam na Rocha Eu acordo & elas existem como luz encarnada crescendo em escala até o supremo Girassol – Como um enorme porco verde perto de um lago o Demônio esteve 2 noites ao meu lado plantando seus pesadelos entre a minha mão e Sono Ele supervisionou as portas que me retêm dentro das raízes da Mandrágora Eu viro a cabeça um órgão multiplica & ferve uma Mensagem – Uma luz azul amortece através da vidraça Dante & Beatriz com duas novas faces poderiam vir até mim agora Frankenstein Rimbaud Blake todos pelos chuveiros todos pelas paredes, estes mitos, estes gregos adolescentes no Domingo de seus amores como pequenas crianças enrubescendo todo mundo Ruas Praças cheias de silêncio as árvores outra vez todos estes mitos com seus roxos corpos nus todos chamando por mim & meu amigo para morar com eles crânios galopantes Rimbaud Shelley Caravaggio & o braço sorridente também Nos escuros tapetes cinzentos da luz nas caminhadas de Sábado Nos jantares Apertando a avenida nos bolsos alaranjados Eles mesmos, através da Terra.

Roberto Piva SP Agosto 1964

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