Pergunte ao Pó

Pergunte ao Pó

de Pergunte ao Pó
Editora Brasiliense, 1987

Uma noite, eu estava sentado na cama do meu quarto de hotel em Bunker Hill, bem lá no centro de Los Angeles. Era uma noite importante na minha vida porque eu tinha que tomar uma decisão sobre o hotel. Ou eu pagava ou caia fora: era isso que a nota dizia. A nota que a proprietária tinha enfiado por baixo da minha porta. Um grande problema, que merecia muita atenção. Resolvi o problema apagando a luz e indo pra cama.

De manhã, acordei, decidi que devia fazer mais exercício físico e comecei na hora. Fiz varias flexões. Depois, escovei os dentes, senti gosto de sangue, vi o vermelho na escova, lembrei das recomendações, e decidi sair pra tomar café.

Fui ao restaurante aonde eu sempre ia, sentei no banco em frente ao balcão e pedi café. O gosto até parecia café, mas não valia o preço. Sentado lá, fumei uns cigarros, li a lista de gols da Liga Americana, escrupulosamente evitei ler a lista dos jogos da Liga Nacional, e notei com satisfação que Joe DiMaggio continuava sendo o orgulho da italianada, porque estava liderando o time no rebate,

Um grande rebatedor, aquele DiMaggio. Sai do restaurante, parei diante de um pegador imaginário, e atirei uma bola de volta por cima da cerca. Daí desci a rua em direção a Angel’s Flight (Vôo de Anjo), me perguntando o que e que eu ia fazer aquele dia. Mas não tinha nada a fazer, e assim decidi dar uma banda pela cidade.

Desci a Rua Olive, passando pela frente de um prediozinho amarelo de apartamentos que ainda estava úmido como um registro da neblina da noite passada, pensei nos meus amigos Ethie e Carl, que eram de Detroit e tinham vivido lá, e lembrei a noite que Carl bateu em Ethie porque ela ia ter um bebê, e ele não queria um bebê. Mas eles tiveram a criança e tudo ficou por isso mesmo. Lembrei daquele apartamento por dentro, como cheirava a rato e pó, e as velhas que ficavam sentadas na entrada em tardes quentes, e a velha com pernas bonitas. Dai tinha o ascensorista, um homem acabado, vindo de Milwaukee, que parecia não estar nem ai, que fazia uma cara de desprezo cada vez que você indicava o andar que queria, como se você fosse um idiota por ter escolhido aquele andar em especial, o ascensorista que sempre tinha uma bandeja de sanduíches no elevador, e uma revista sensacionalista.

Então, desci a colina na Rua Olive, passando pelas horríveis casas abandonadas recendendo a historias de assassinato, e daí ate o Auditório Filarmônico, e lembrei como tinha ido lá com Helen ouvir o Grupo Coral dos Cossacos do Don, como eu me enchi o saco e a gente brigou por causa disso, lembrei também como Helen estava vestida aquele dia – um vestido branco, e como eu ouvi mil sinos tocando quando encostei nele. Ah, aquela Helen – mas não aqui.

Assim, eu estava lá na Quinta e Olive, onde os carros na larga rua mastigavam os ouvidos da gente com tanto barulho, e o cheiro da gasolina deixavam triste a vista das palmeiras, e a calçada preta ainda úmida da neblina da noite anterior.

Assim, agora eu estava na frente do Hotel Biltmore, andando ao longo da fila de táxis amarelos, com todos os motoristas dormindo, menos o motorista perto da porta de entrada, e eu fiquei pensando sobre esses caras e suas agendas de endereços quentes, e lembrei a vez que Ross e eu pegamos um endereço com um deles, ele fez uma cara maliciosa e então nos levou ate a Rua Temple, logo onde!, e quem foi que nos encontramos lá a não ser dois bagulhos, e Ross encarou o lance com uma delas, mas eu fiquei sentado no salão e liguei a radiola, assustado e triste.

Eu estava passando pelo porteiro do Biltmore, e o detestei na hora, com seus alamares amarelos mais um metro e noventa de altura e toda aquela empáfia, então um automóvel preto estacionou, e um homem saiu. Parecia rico. Ai então uma mulher saiu, ela era linda, o casaco de raposa prateada, ela era uma canção atravessando a porta giratória, e eu pensei porra cara só um pouquinho disso, só um dia e uma noite disso, ela era um sonho enquanto eu passava, seu perfume parado no ar úmido da manhã.

Então muito tempo se passou enquanto eu fiquei estático na frente de uma loja de cachimbos, olhando, e o mundo inteiro desvaneceu-se, exceto aquela vitrine, e eu continuava ali, fumei todos aqueles cachimbos, e me vi como um grande autor com aquele elegante cravo italiano na lapela, e uma bengala, saindo de um grande carro preto, e ela estava lá também, orgulhosa de mim pra caralho, a dama com o casaco de raposa prateada. Nós pedimos o melhor quarto e dai tomamos uns coquetéis e dançamos um pouco, tomamos mais um coquetel, eu declamei algumas frases em sânscrito, e o mundo era tão maravilhoso, porque de dois em dois minutos uma coisa linda olhava pra mim, o grande escritor, e não adiantava, eu tinha que dar um autografo no seu cardápio, e a garota da raposa prateada ficava puta de ciúmes.

Los Angeles, me dá um pouco de você! Vem a mim, Los Angeles, do Jeito que eu vou até você, meus pés nas suas ruas, você, cidade linda que eu amo tanto, você, flor triste na areia, você, cidade linda.

Um dia e outro dia e o dia antes, e a biblioteca com os grandes caras nas estantes, velho Dreiser, velho Mencken, toda aquela turma, e eu fui lá pra ver eles. Olá Dreiser, olá Mencken, olá, olá: tem um lugar pra mim também, e começa com B, na estante B, Arturo Bandini, abram alas para Arturo Bandini, o lugar vago para seu livro, e eu sentei na mesa e fiquei olhando para o lugar onde meu livro estaria, bem alí, do ladinho de Arnold Bennett; sei lá de Arnold Bennett, mas eu estaria lá para segurar as pontas dos Bs, velho Arturo Bandini, um da turma, até que aparecesse uma garota, algum cheiro de perfume passando pela seção de ficção, algum clique de altos calcanhares para quebrar a monotonia da minha fama. Dia de gala, sonho de gala!

Mas a dona da pensão, a dona da pensão, com seus cabelos brancos, continuava escrevendo aqueles bilhetinhos: ela era de Bridgeport, Connecticut, o marido tinha morrido e ela estava sozinha no mundo e não confiava em ninguém, ela não tinha condições, me disse isso e me disse que eu tinha que pagar. A coisa estava crescendo que nem a divida nacional, eu tinha que pagar ou cair fora, centavo por centavo – cinco semanas vencidas, vinte dólares, e se eu não fizesse isso ela ia ficar. Com meus pertences; só que eu não tinha pertences, apenas uma maleta que era puro papelão sem nem uma tira em volta, porque a tira estava na minha barriga segurando minhas calças, o que também não era grande coisa, porque não restava muito das minhas calças.
– Acabo de receber uma carta do meu empresário – disse a ela. Meu empresário em Nova lorque. Ele diz que eu vendi mais uma; ele não diz onde mas diz que vendeu uma. Sendo assim, não se preocupe, Senhora Hargraves, não esquente muito, o dinheiro vai estar aqui em um dia ou dois.

Mas ela não ia acreditar num mentiroso que nem eu. Não era bem uma mentira; era um desejo, não uma mentira, e talvez não fosse nem um desejo, talvez fosse um fato, e o único jeito de descobrir era olhando para o carteiro, olhando bem de perto, checando bem sua sacola quando ele a punha na entrada do prédio, perguntando para ele, a queima-roupa, se tinha alguma coisa para Bandini. Mas eu não tinha mais que perguntar depois de seis meses naquele hotel. Ele via que eu vinha vindo e já balançava a cabeça dizendo sim ou não antes que eu perguntasse: não, três milhões de vezes; sim, uma vez.

Um dia, uma bela carta chegou. Ah, eu recebo uma porção de cartas, mas esta era a única carta linda, e ela veio de manha, e dizia (ele estava falando sobre O Cachorrinho Riu) que ele tinha lido O Cachorrinho Riu e tinha gostado; ele disse, Senhor Baldini, eu nunca tinha visto um gênio, até conhecer o senhor. 0 nome dele era Leonardo, um grande critico italiano, só que não era conhecido como critico, era apenas um cara de West Virginia, mas era ótimo e era um critico, e morreu. Estava morto quando minha carta aérea chegou em West Virginia e sua irmã me mandou a carta de volta. Ela também escreveu uma carta muito bonita, era uma critica ótima também, me dizendo que Leonardo morreu de tuberculose mas feliz até o fim, e uma das ultimas coisas que ele fez foi sentar na cama e me escrever sobre 0 Cachorrinho Riu: um sonho feito de vida, mas muito importante; Leonardo, agora morto, um santo no céu, igual a qualquer um dos doze apóstolos.

Todo mundo no hotel leu O Cachorrinho Riu, todo mundo: uma história para fazer você ler até morrer, e nem era sobre um cachorro: uma história jóia, grito de poesia. E o grande editor nada menos que J. C. Hackmuth, com seu nome assinado como se fosse em chinês, disse numa carta: uma grande historia e estou orgulhoso em edita-la. A senhora Hargraves a leu e, desde então, eu era uma pessoa diferente aos seus olhos. Continuo naquele hotel, sem ter que bater pernas no frio, graças a O Cachorrinho Riu. A senhora Grainger, no 345, adepta de Ciências Cristãs (quadris sensacionais, mas um tanto velha), de Battle Creek, Michigan, sentada na entrada esperando a morte, e 0 Cachorrinho Riu a trouxe de volta à terra, e aquele olhar em seus olhos me fez saber que estava legal e eu estava legal, mas eu estava esperando que ela perguntasse sobre minhas finanças, como e que eu estava me virando, e então eu pensei por que não pedir emprestado pra ela uns cinco paus, mas eu não fiz isso e sai estalando meus dedos de tanta raiva.

0 hotel era chamado Alta Loma. Erguia-se numa colina, lá na crista de Bunker Hill, construído contra o declive da colina, de modo que o andar térreo ficava no nível da rua mas, o décimo, dez andares abaixo. Se você for ao quarto 862 tem de pegar o elevador e descer oito andares e se quiser descer ate o porão você não desce, mas sobe ate o sótão, um andar acima do térreo.

Ah, uma garota mexicana! Costumava pensar nela o tempo todo, minha garota mexicana. Eu não tinha uma, mas as ruas estavam cheias delas, Plaza e Chinatown estavam em chamas por causa delas, e a meu modo elas eram minhas, essa aí e aquela lá, e algum dia quando outro cheque viesse tudo isso ia acontecer de fato. Por ora, era de graça e elas eram princesas astecas e princesas maias, as garotas morenas no Grande Mercado Central, na Igreja de Nossa Senhora, e eu até fui a missa só pra vê-las. Era uma atitude sacrílega mas era melhor do que não ir a missa, assim, quando escrevi pra minha mãe no Colorado, eu falei a verdade. Querida Mãe: fui a missa domingo passado. Lá no Grande Mercado Central eu esbarrava nas princesas fingindo ser sem querer. Isso me dava a chance de falar com elas, e eu sorria e dizia me desculpe. Aquelas garotas lindas, tão felizes quando você dava uma de cavalheiro e essas coisas todas, era só encostar nelas e carregar a lembrança para dentro do meu quarto, onde a poeira crescia em cima da minha máquina de escrever e Pedro, o, rato sentava no seu buraco, seus olhos pretos me observando.

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