Estar sendo. Ter sido

Estar sendo. Ter sido

de Estar sendo. Ter sido
Nankin, 1997

Pensar que isso sou eu. e o morto que há em mim. o roto. o decomposto. alguém lá dentro me diz que estou sendo injusto. que há mortos muito mais putrefatos, a cara expelindo ranço e desgosto, que aquele, o Oscar, o Fingall, o O’Flahertie Wills, aquele, o Wilde, quando morreu, tudo estourou dentro dele, que o estômago explode, é o que dizem quando se está na pira, na Índia talvez, e ouve-se uma explosão a muitos passos dali. eu e minha “intensa fisiose”, como dizem os médicos, o que você come, hen, um saco de ventos? engoliste, Vittorio, o fole de pele de boi onde Éolo guardava os ventos? palavras é o que guardo no meu fole. cabeludas, glabras, macias umas, outras enfezadas, duras, arames eriçados iguaizinhos aos pêlos do púbis de Licina-Juno, sim porque a essa altura já lhe vi inteira, uma pomba espetada entre as coxas gordas. foles, púbis, eu ofegante soprando na cabeluda. em seguidinha cansei. pedi que se masturbasse à minha frente e ao mesmo tempo fingisse que lia. que livro devo ter nas mãos? o código penal, naturalmente. que eu gostava assim, ver a mulher como se ela estivesse mesmo a sós, largadona distraída…

ela: nunca fico largada.
ah, é? nunca mesmo?
nem fico distraída.
nem quando caga?

ofendeu-se como se eu a tivesse espancado. fui vestindo a cueca, as calças, a camisa e ia me mandando quando Licina

– por favor, não vá

eu inteiro vestido reclamei, ah, não, vou sim, tenho horror de ficar me despindo a toda hora. atirou-se aos meus pés. fiquei pasmo. há muitos anos mulher nenhuma me fazia isso. só duas o fizeram, eu aos trinta. não era pela minha pica, não, era aquele saco de dinheiro que eu já costumava dar. mas Licina-Juno ainda não tinha visto o meu dinheiro. como qualquer rábula, deve lhe ter sentido o cheiro. e aproveitando o perfeito dela já estar no chão, só desabotoei a braguilha e enfiei-lhe o lambaio na boca. estrebuchou um pouco mas ordenou-se em seguida, ritmada e nobre. que grosseria! tal pai, tal filho. meu deus, vou escrever a Dom Deo, meu amigo bispo. no colégio era só Deozinho, magrela, espinhudo, triste. o cajado de Deozinho era mínimo, uma bimbinha de nada. no banho sempre depois de ver o meu lambaio ele chorava e dava uns taponas na bimbinha dele: fedelho, tu nào serve pra nada. chegou a amortalhar a bimba num trapo roxo, olhava lúgubre para o grão de milho e dizia solene: non habeo usum. era inteligentíssimo. e que memória! sabia Vieira de cor. enquanto ele dizia non habeo usum, eu que nada sabia (e só para atormentá-lo) colocava um espelhinho frente ao meu lambaio e radioso declamava: speculum et lambaius majestatis. ele ria-se a valer. um dia um novato quis lhe comer o macio, e Deozinho disse-lhe solene: amigo, meu rosquete é minha cidade, e de início: non ingredietur urbem hanc, nec mittet in eam sagittam et nec circumdabit eam munitio, e tudo isso era Vieira e queria dizer que ele não entraria na cidade, que não lançaria dentro dela as suas setas e que não a poria a cerco. o Dinhas, o novato massudo que lhe queria o zenóbio, ficou ali aparvalhado, a mandíbula caída, a linguona em ponta no palato e Deozinho ria, ria, e nós todos também. com o tempo Deozinho foi ficando Dom Deo. era lírico, suave com todos e severo consigo mesmo. hoje é bispo. nos confins do país. lá em Itiquira. dizem que o Vaticano lhe tem horror. Dom Deo só cria problemas. penso que está lá para morrer. agora me veio o poema que ele jovenzinho a todo instante declamava, os olhos cheios d’água: “Morreu. Deitada num caixão estreito, pálida e loira muito loira e fria. O seu lábio tristíssimo sorria, como num sonho virginal desfeito. Tinha a cor da rainha das baladas, e das monjas antigas maceradas, no pequenino esquife onde dormia. Levou-a a morte na sua garra adunca, e eu nunca mais pude esquecê-la, nunca. Pálida e loira muito loira e fria”. um dia eu disse esse poema ao Dantas e ele achou que era Cruz e Souza. não sei. todos nós o sabíamos de cor. um dia perguntei a Dom Deo, o poema te lembra alguém? sim, Vittorio, uma irmãzinha, não irmãzinha de sangue, uma irmãzinha da alma que se foi. era teu amor? era eu mesmo, Vittorio, se o lá de cima me tivesse feito fêmea.

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