Carta de Dom Deo

Carta de Dom Deo

de Estar sendo. ter sido
Editora Nankin, 1997

Só vejo o dorso de Deus, Vittorio. tem listras. nunca lhe vejo o rosto. certa vez tentou acariciar-me, e fez-me uma ferida. aqui em Itiquira tudo é fome. o lugar foi esquecido. eu e meus pobres também. há um leprosário a 5Km daqui e plantamos o dia inteiro numa terra que não é nossa. ajudamos os doentes. há uma pequena capela. e gentes e muitos cães, todos magros e tristes. eu canto às vezes. a canção do sol. diz o estribilho que “o sol ilumina aquele que capina”. quando há fome a poesia é também pobre. por que me escreves? dizes que precisas da minha benção. minha alma é mais magra do que a tua, Vittorio. Deus ama a indiferença e a aspereza. descobri há pouco. também é possível domar Deus dentro de nós. blasfemando somos um pouco santos, sabias? excitamos o OUTRO para que não durma tanto. tu és melhor do que eu. acaricio tanto a meu Deus, tanta volúpia que hoje tenho as mãos feridas e muitas vezes sangro. temos a mesma idade, Vittorio, eu e tu, eu e Deus. é um velho também, Ele. mas forte como um tigre-menino. tem horror que se lhe saiba o nome. certa noite, intuí, então chamei-O. lanhou-me todo o ventre. as coxas. a semente. uma voz delicada e sonolenta vinda das folhas altas de umas árvores negras se expressou assim: Dom Deo, se repetires o Meu Nome ainda que às escondidas, dentro da pedra, ou dentro da tua própria barriga, hás de perder a vida. e entendi que não se referia a esta vida, esta aqui da Terra, não Vittorio, ia perder para sempre a mais remota possibilidade de voltar a ser. temo-O agora e contando-te, tremo. não contes a ninguém o que te escrevo. se souberem disso, as gentes, hão de ficar tão desamparadas como tua amiga Hillé, aquela de quem tanto gostavas. soube por uma sua vizinha, uma destrambelhada, Luzia, que Hillé deixou-se morrer embaixo de uma escada. e que sua última amiga foi uma porca. Hillé chamava-a apenas com este nome: senhora P. disse-me também Luzia que a senhora P morreu com Hillé, à mesma hora, e no mesmo dia. caríssimo: lembra-te se puderes, de nós daqui. roupas e comidas são bem-vindas. e cuidado! não tentes adivinhar o rosto Daquele Dorso. guarda-te de geometrias e luzes. a mais ínfima busca ao redor dessas duas… cuidado! guarda-te.

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