O grande rebu da maconha

O grande rebu da maconha

A L&PM editores publicou o livro “Erections, Ejaculations, Exihibitions and General Tales of Ordinary Madness”, em dois volumes, sob o título geral de Ereções, Ejaculações e Exibicionismos (1984). O Vol.1 leva o título do filme que o italiano Marco Ferreri realizou baseado no texto de Bukowski: A Crônica do Amor Louco, cuja linha mestra é exatamente o primeiro conto do livro, A mais Linda Mulher da Cidade. O Vol.2 chama-se Fabulário Geral do Delírio Cotidiano. Os trechos abaixo são do Vol.2.


uma noite destas fui a uma reunião – em geral, o tipo do troço chato pra mim. sou, essencialmente, um solitário, um velho beberrão que prefere beber sozinho, talvez com a única esperança de escutar um pouco de Mahler ou Stravínsky no rádio. mas lá estava eu no meio da turba enlouquecedora. não vou explicar o motivo, pois isso já é outra história, talvez mais longa, e mais confusa ainda, porém, ao ficar ali parado, tomando meu vinho, ouvindo o The Doors, os Beatles ou o Airplane, misturados com todo aquele vozerio, percebi que precisava de um cigarro. estava a zero. como sempre, aliás. aí vi aqueles 2 rapazes por perto, braços caídos e oscilando; os corpos frouxos, feito gansos; pescoços girando; os dedos das mãos à vontade – em suma, pareciam feitos de borracha, um elástico que se esticava, puxava e partia. cheguei perto:
– ei, caras, um de vocês tem cigarro?

foi o que bastou pra borracha começar a saltar. fiquei ali parado, olhando, enquanto se entusiasmavam, estalando os dedos e batendo palmas.
– aqui ninguém fuma, bicho! BICHO, a gente não … fuma.
– não, bicho, a gente não fuma, não desse tipo, não, bicho.
flipflop. flipflap. que nem borracha.
– nós vamos pra M-a-li-buuu, cara! é, nós vamos pra Malfii-bUUUU! bicho, nós vamos pra M-a-li-buuuuuu!
– é isso aí, cara!
– é isso aí, bicho!
flípflap. ou, flapflap.

não podiam me dizer simplesmente que não tinham cigarro. precisavam me impíngir aquele lance de religião: cigarro era pra gente careta. estavam indo pra Malibu, pra algum lugar onde iam “ficar numa boa”, curtindo um pouco de erva. faziam lembrar, em certo sentido, essas velhinhas paradas pelas esquinas, vendendo “0 Atalaia”. essa turma toda que vai de LSD, STP, maconha, heroína, haxixe, e remédio pra tosse, sofre da comichão d`O Atalaia”: você tem que estar na nossa, cara, senão sifu, tá fora. esse lance é permanente e, pelo visto, uma OBRIGAÇÃO com quem usa esses baratos. não admira que a toda hora vão em cana – não sabem ser discretos – com o que lhes dá prazer; têm que APREGOAR que estão por dentro. e, o que é pior, tendem a ligar isso com a Arte, o Sexo, com o ambiente de Protesto. o Deus do Ácido deles, Leary, lhes diz: “desistam da luta. me sigam.” aí aluga um auditório aqui na cidade e cobra 5 pratas por cabeça de quem quiser ouvir ele falar. depois chega Ginsberg, junto com ele. e proclama que Bob Dylan é um grande poeta.  autopropaganda dos que ganham manchetes posando de maconheíro.  América.

mas mudemos de assunto, porque isso também já é outra história. este negócio, do jeito que eu conto, e do jeito que é, tem braços à beça e pouca cabeça. mas, voltando aos rapazes que estão na crista da onda, os cucas de maconha. a linguagem que usam. chocante, bicho. tem tudo a ver. o pedaço. maneiro. bacana. cafona. careta. embalo. de repente. xará. coroa. por aí, e não sei mais o quê. já ouvi essas mesmas frases – ou seja qual for o nome que se queira empregar – quando tinha 12 anos em 1932. deparar com tudo isso de novo, 25 anos depois, não contribui muito pra se simpatizar com o usuário ‘ ainda mais quando considera que são o que pode haver de atual. grande parte dessa gíria se deriva do pessoal que usava drogas da pesada, a turma da colher e da agulha, e também dos velhos músicos negros das orquestras de jazz. a terminologia dos que estão de fato “por dentro” já mudou, mas os pretensos modernosos, como dupla a quem pedi cigarro – esses ainda falam no estilo de 1932.

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