Sobrevivendo nas entranhas da América

Sobrevivendo nas entranhas da América

Por Mário Satto

Charles Bukowski é um autor de quem você não vai ouvir falar num papo-cabeça numa dessas round tables frequentadas por subliteratos intinerantes que passam as tardes ruminando frases de Joyce, alimentados a base de chá com rosquinhas proustianas (crocantes e cheias de reminiscências, experimente!).

Charles Bukowski felizmente não está no cardápio. Bukowski é intolerável ao paladar refinado dessa gente vanguardex, do mesmo jeito que a sopa servida aos mendigos pelo Exército da Salvação ou a bóia servida aos presos numa cadeia de Los Angeles.

Os comedores de Rosquinhas Proust ficam salivando ao falar de genuinos representantes da alta literatura como Oscar Wilde, Rambaud, Goethe, Tolstoi etc. Entre uma rosquinha e outra você poderá até ouvir o nome de caras como Hemingway e Norman Mailer, dois guardiães da reserva de virilidade na literatura americana.

Tratemos de dissipar qualquer suspeita. Hemingwey e Mailer só são mencionados à mesa dos experts almofadinhas na qualidade de espécimes raros: homens de letras (uááu!) que tiveram colhões para ir à guerra. Só por isso tornaram-se merecedores de gritinhos histéricos e salamaleques em sua homenagem.

Frivolidade à parte, pode-se arriscar compreender o fenômeno. A guerra, quando ainda era feita por homens e não por máquinas, era uma experiência marcante, decisiva, da qual ninguém saía incólume. Um escritor com o mínimo de talento poderia retirar da guerra o sentimento básico da condição humana e da boa literatura: o sentimento da morte iminente, da própria finitude, do enfrentamento com monumentais forças adversas que colocam à prova toda a capacidade de sobrevivência. Na guerra, essas forças podem ser identificadas, ainda que insidiosamente, nas cores do uniforme inimigo, contra o qual se emprega todas as reservas do instinto de autoconservação, rechaçando as dúvidas insolúveis e os caprichos éticos do espírito confuso, evocando cegamente aliados inconsistentes como a Pátria, a Família, a Raça, Deus etc…Mas, depois de Kafka, ficou claro que essas forças mortificantes estão presentes na existência ordinária, na vida cotidiana, manipulando com mão invisível, anônima, o destino dos indivíduos, arrastando-os para a morte sem glória.

O erro está, pois, em pensar que essa experiência extrema, cuja guerra é uma modalidade exemplar, só pode se dar em algum remoto e enlameado campo de batalha e não nas ruas de cidades como a Los Angeles de Charles Bukowski.

Bukowski não foi à guerra, burlou o serviço de recrutamento. Bukowski era alemão de nascimento e foi para os Estados Unidos aos três anos de idade. Em quem ele iria atirar se estivesse na guerra? Ele não simpatizava nem um pouco com os nazi; tampouco com o típico pai-de-família americano que apanha o jornal todo dia bem cedo na porta da sua casa tipicamente americana e olha com satisfação para a grama bem aparada do jardim antes de voltar e comer ovos com bacon no café da manhã em família. Por isso Bukowski decidiu: Nenhuma metralhadora vai me acertar o rabo, a não ser que seja uma das do Tio Sam. E ficou combatendo na sua guerra particular, nas ruas.

O inimigo estava em toda parte: em casa, o seu pai, um belo exemplar de filho-da-puta americano da classe dos fodidos; na escola, os riquinhos com seus conversíveis e suas garotas da torcida organizada do time do colégio, além de uma fauna de miseráveis que acorriam para o surumbático Bukowski, tomando-o erroneamente por um do grupo; o inimigo era o chefe Stone com sua camisa vermelha, nos Correios dos Estados Unidos, onde Bukowski trabalhou por doze longos anos; era o senhorio, sempre chamando a polícia por causa do barulho que as putas faziam no quarto de Bukowski e cobrando o aluguel atrasado; eram os chatos no hipódromo, que vinham encher o saco logo na hora em que Bukowski estava concentrado, estudando as variações no novo sistema que bolara para acertar nos cavalinhos; era a enfermeira gorda da enfermaria dos indigentes; era a audiência dos recitais de poesia, composta pelos mesmos que batiam na porta de Bukowski, querendo um autógrafo e ver se o velho escritor estava mesmo de porre; eram os grandes-poetas-imortais-não-publicados; os caras de Hollywood; os policiais; o tio Sam com seu dedo inquisidor…

Bukowski sabia que nenhuma guerra é gloriosa. Nenhuma é preferível a outras tantas possíveis. E ficou nas ruas, tentando salvar o próprio rabo das investidas da morte.

Hemingway e Mailer podem exibir suas medalhas; Bukowski expôs as entranhas da América, e isso bastou para excluí-lo dos festins literários.

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