Prefácio de O Rato (trechos)

Prefácio de O Rato (trechos)

O rato é meu primeiro romance sobre animais, um romance dedicado a criaturas excepcionais e pouco conhecidas, já que o estudo humano sobre os roedores tem mais a ver com os métodos para exterminá-los do que com a compreensão do seu comportamento, sua psique e emoções. Ao mesmo tempo é um romance cheio de sentimentos e mistério, porque muitas tragédias, dramas e aventuras acontecem nas tocas e ninhos de ratos: as proezas de Hércules, a tragédia de Edipo, as peregrinações de Odisseu, o desespero de Níobe, a morte de Antígona, o destino dos deuses, titãs, e seres humanos, entram em conflito, se entrelaçam, se fundem, nos fazendo tomar consciência do que é essencial e importante para nossos corações.

(…)

Há muito tempo deixamos de nos considerar parceiros dos animais. Nós os vemos apenas como elementos biológicos que devem ser subordinados a nossa vontade, nosso conhecimento, e nossos caprichos. Julgamos a inteligência animal na medida em que ela se submete a nós. Construímos matadouros gigantescos, fazendas, fábricas de curtimento, milhões de locais de destruição. Não somos apenas arrogantes, mas também as mais cruéis de todas as criaturas da natureza, e consideramos normal ou até mesmo bom procedimento o uso de elegantes peles de raposa ou casacos de astracã feitos de cordeiros abortados. Estou escrevendo sobre esses aspectos porque talvez valha a pena percebermos quem somos na realidade e para aonde estamos realmente indo.

Este livro é, ao mesmo tempo, uma descrição baseada em fatos e um conto de fadas, uma lenda, excepcionalmente cruel e estranha, cinzenta e dolorosa como a vida de um rato e, no entanto, plausível. Vivendo próximo a nós, literalmente sob nossos pés, a comunidade de roedores tem nos acompanhado há milhares de anos. Tem participado de nosso bem-estar e de nossa pobreza, na paz e na guerra. Nós não queremos vê-los, não queremos saber nada sobre eles. Nós os combatemos, os desprezamos como só os humanos são capazes de desprezar.

(…)

0 rato não é exclusivamente um livro sobre animais, embora tal interpretação possa também ser aceita. Ao contrário, é um romance sobre as leis que governam a sociedade, sobre nossas mitologias, nossas verdades e mentiras, sobre o amor e a esperança, a solidão e a nostalgia. Afinal de contas habitamos o mesmo cosmo, respiramos a mesma atmosfera terrestre, pertencemos à mesma classe dos mamíferos, com um cérebro de estrutura similar, um coração, um estômago, um processo semelhante de fecundação e maternidade. Somos então parentes, muito próximos biológica e psicologicamente. E apesar de causas diferentes terem sido responsáveis, ambas as espécies, graças a sua vitalidade, força e inteligência, não só sobreviveram a milhares de anos de evolução como também tomaram as rédeas do nosso planeta. Não se esqueça, então, caro leitor, de que ao descrever a vida de um rato nesse modo naturalista e detalhado eu tinha você em mente.


de O Rato, de Anrdzej Zaniewski
Tradução de Eneida Santos
Livraria 
José Olympio Editora, 1995

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