O Rato – Episódios

O Rato – Episódios

“É a primeira vez que vejo gente, que lhes sinto o cheiro. Estou perto deles pela primeira vez. Ouço a batida forte de corações humanos. O odor azedo de suor invade o porão. Barulhentos, disformes, com pernas que se dobram, com cabeças arredondadas e firmes, eles emitem sons desconexos e sibilantes.  Minha mãe está nervosa. Mais uma vez ela agarra as minhas costas com os dentes. Faz meia-volta e corre em direção aos canos de esgoto. Conseguimos. Espremidos entre canos envolvidos em estopa e reboco, nos sentimos um pouco mais seguros. O sangue de minha mãe bombeia mais devagar. Quase retoma o ritmo normal. Mas as pessoas ainda nos ameaçam. Sua presença, seu cheiro, a luz que trouxeram nos agitam. Estamos cercados. Aberto em cima, o espaço entre os canos e a parede não representa um esconderijo seguro. As narinas de minha mãe se movem. Cada ser humano tem um cheiro diferente e caracteristico – só que naquela ocasião eu ainda não sabia disso.

(…)

Escondido no fundo do vagão, dentro de um saco, eu esqueço o perigo e adormeço, embalado pelo ruído do trem. Sinto uma dor violenta nas costas. Com todo o peso, o rato preto se joga em cima de mim. Eu corto-lhe a orelha pequena e sem pêlos. Furioso, ele guincha. Nós nos atracamos. Ele é mais velho, mais forte e experiente na luta com outros ratos. Apoiados nos rabos, nos encaramos, cuspimos, guinchamos, e exibimos os dentes. Seus incisivos grandes, excepcionalmente afiados, deixam uma marca de sangue em minhas costas. Se ele tivesse me atingido mais em direção ao meio, entre as orelhas, teria esmagado minha espinha. Nós nos observamos com ódio, temendo um ataque repentino e fatal. Ele salta em minha garganta e me derruba. Eu me viro, me curvo, meus dentes afundam em seu pêlo. Uma fuga representa uma chance de sobrevivência. Escapo para o topo das pilhas de sacos. Posso senti-lo atrás de mim. Viro-me e assumo urna posição defensiva. Confuso com minha coragem repentina, ele para. Dou um impulso para fora do emaranhado de cordas de metal que amarram os sacos e pulo em direção à abertura por onde entra o ar. 0 vento me empurra para dentro. Penduro-me nas pás rotativas. Meu peso faz com que elas se movam mais devagar, e finalmente parem. Estou do lado de fora no teto do vagão.Convencido de que meu opressor irá desistir de perseguições futuras, me agarro com a barriga sobre a superfície coberta de alcatrão. Aqui, a céu aberto, em plena luz do dia, me sinto ameaçado por todos os lados. Agachado, mal consigo manter o equilíbrio. De repente o rato preto aparece. Como ele velo parar aqui? Veio pelo ventilador ou achou outra passagem? Seus dentes cortam o ar. Consigo dar um pulo para o lado, e agora estou escorregando cada vez mais para baixo do teto arredondado. 0 rato preto me observa de cima. Ele não ataca. Eu não represento mais perigo. Estou escorregando. Rolando.

(…)

0 pressentimento de um desastre causa reações violentas nos ratos. Eles sofrem de insônia, ignoram o perigo, e sem pensar atacam animais mais fortes, geralmente se movimentam para um outro lugar, adquirem um comportamento diferente do usual. Sua ansiedade aumentou por causa do comportamento das pessoas que estão deixando a cidade, partindo em pânico. Muitos apartamentos ficam vazios. Você tira partido disso, se aventura em lugares desconhecidos cheios de luz intensa e de ar. Conhece mobílias e acessórios humanos – camas, sofás, mesas, estantes de livro, guarda-roupas, armários, cadeiras, cortinas, luminárias. Você visita quartos, cozinhas, banheiros. Descobre que pode ir em todos os cômodos por canos de chaminé. Se o cano tem uma grade, então você pode passar pela abertura cheia de água do vaso sanitário, um acessório até então desconhecido para você. Basta passar por uma camada fina de água e descer por um cano largo até o esgoto mais próximo. Essas ligações mais simples das habitações humanas com o mundo subterr6aneo tem salvado sua vida multas vezes Os sons se tornam cada vez mais poderosos – eles são provenienentes dos arredores da cidade. Então, só então, você descobriu quão frágil e fraco seu maior inimigo – os humanos – é na realidade. Ele aparece dentro de uma passagem subterrânea. Traz na mão uma lanterna da qual emana uma luz excepcionalmente brilhante. Avança rapidamente, sua figura curvada bloqueando o corredor estreito através do qual muitos ratos fazem sua jornada diária. Na cabeça usa um capacete, que reflete os raios de luz. Alarmados e irritados, os ratos passam correndo por ele, escorregam por entre suas pernas, roçam seu capacete e ombros. 0 homem está andando cada vez mais rápido. De repente o guincho alto de um rato que foi esmagado é ouvido. A passagem dá para o porão mais baixo e há muito esquecido. As pessoas colocaram tijolos em sua saída. Somente a escada, que termina em um muro de tijolo sem saída, permaneceu. Nós ratos temos muitas saídas aqui, mas são inacessiveis aos humanos. 0 porão está apinhado de ratos. A chegada súbita de um ser humano causa confusão. Ele fica imóvel, ilumina o porão com a lanterna, percebe o contorno da escada, e investe na direção deles. Nós nos atiramos sobre ele, atacando-o. Ele corre para a escada, ilumina o muro, e, ao ver o retângulo de tijolos, decide escapar por onde veio. Espanta alguns ratos de cima dele. Com toda força, atira um contra o muro e esmigalha a espinha de outro. Ele nos cega com a luz. Está se aproximando da porta quando subitamente pisa e esmaga um ratinho, ainda cego. Uma fêmea furiosa pula direto em seu rosto. Ele deixa cair a lanterna. 0 raio agora brilha verticalmente, desenhando um círculo de luz no teto. Eu o ataco, mordo, corto o tecido, a pele, a carne. Ele luta, mata, esmaga. Com toda força, mordo seu pescoço, penetro no capacete de metal. Outros ratos fazem o mesmo. 0 capacete cai no chão. O homem se ajoelha,procura a lanterna mas não pode mais alcançá-la. O sangue escorre-lhe dos olhos, do rosto, das mãos. Está ajoelhado, dominado por uma massa cinzenta de ratos. Ele grita, geme, gagueja Um rato se introduz na sua boca. O homem o corta com os dentes, cospe, geme, fica em silêncio. Ele rola. Ratos vem correndo de todas as direções.


de O rato, de Anrdzej Zaniewski
Tradução de Eneida Santos
Livraria 
José Olympio Editora, 1995

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