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Entrevista com Iosif Landau Imprimir E-mail
Escrito por Rodrigo de Souza Leão   

Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão e publicada no PD Literatura

Pergunta - Wodsworth escreveu que o menino é o pai do homem. Até que ponto isto é verdade? Fale-nos da sua infância na Romênia.
Iosif Landau - Romênia, um belo país, de natureza exuberante, montanhas, planícies e mar. Subsolo rico, petróleo, ferro e ouro. Rico em trigo e frutas. O Danúbio no seu delta no Mar Negro, berço dos esturjões, o caviar abundante. O camponês alegre, sadio e belo. A música folclórica maravilhosa, os ciganos com cítaras e violinos, insuperáveis na sua maestria. A capital, Bucareste, apelidada de "Paris dos Bálcãs". Um reinado de opereta, castelos suntuosos, palácios resplandecentes. É como me lembro da última vez que a vi, em 1938. Mas lá viviam judeus, pequenos lavradores, comerciantes modestos e alguns ricos industriais e onde vivem judeus há anti-semitismo, pogrons, morte e terror. Romênia, o país de opereta, era o país mais anti-semita da Europa. Sem me alongar num assunto tão penoso, minha família lá nascida e de várias gerações, fugiu para escapar da morte e desembarcou no Brasil em 1940. Nascido de pais ricos, vivi em conforto e usufruí com tranqüilidade o quê lá havia de belo. Superprotegido, esconderam-me da feiúra da maldade, mas não por muito tempo. No ginásio apanhava quase diariamente, "judeu sujo" era como me chamavam, aprendi a reagir sem entender as agressões. Não fui criado num ambiente religioso, fui uma criança feliz, um adolescente confuso. Ser rico tinha muitas vantagens, o dinheiro usado como propina e defesa junto às autoridades poupou a família de tragédias. Tenho saudades de minha infância.

Pergunta - A poesia é um jogo lúdico?
Iosif Landau - A poesia, que comecei a escrever tardiamente, aos setenta e cinco anos, veio rasgando minha alma como um "uivo": tristezas, dores, arrependimentos, saudades, miscelânea sem nexo e sem ordem, um desabafo do "mal vivido" interior, um lancinante desespero pelo "não futuro", a impotência do "não reviver", choro e desespero, um pavor, um pesadelo, um manto infame de minha existência.

Pergunta - São sessenta e dois anos de Brasil. Por qual Brasil se apaixonou? O que lhe trouxe da Romênia para o Brasil?
Iosif Landau - Desembarquei no Brasil a 17 de dezembro de 1940, vindo da fria Inglaterra, das bombas nazistas sobre Londres, depois de atravessar o Atlântico num navio inglês, driblando os submarinos alemães. O sol esplendor, o céu cor de anil, o mar azul, os corpos morenos, o contraste do feio de antes com o belo presente, me enfeitiçaram, me fizeram brasileiro, carioca, num piscar de olhos. Nasci naquele instante, um pensamento impossível na mente: "já passei por aqui antes, conheço esse paraíso, tive outra vida?". Em poucas palavras: aprendi a língua em dois meses, completei o ginásio, fiz amizades no esporte, fui boêmio carioca, naturalizei-me brasileiro em 1945, formei-me em engenharia, casei-me com uma brasileira nata, tive quatro filhos, conheci o Brasil como poucos, ajudei a torná-lo mais grande ainda. Minha paixão pelo País é avassaladora, nunca mais retornei ao Velho Mundo, sou um brasileiro patriota, deixo oito netos como sementes, serei enterrado nesse solo com muita honra. Vivi parte da era getulista, do grande Juscelino, do louco Jânio, do indolente Goulart, da Redentora, do retorno à democracia, do contraditório FH. O Brasil é imutável na sua grandeza, mesmo nas suas imperfeições, mesmo na sua constante imaturidade, na revelação da podridão de parte das suas elites, na insegurança na qual o povo se debate, nos contrastes sociais. Com FMI ou sem, venceu a inflação, vencerá a fome, o analfabetismo, a pobreza será menos evidente, terras serão distribuídas, sei, sei, tenho certeza, vou morrer feliz, meu Brasil, te amo! Da Romênia nada traria, se pudesse, levava para lá o maravilhoso povo brasileiro.

Pergunta - Seu primeiro livro foi "Comissário Alfredo", publicado pela Editora Record em 1995. Começou tarde ou foi publicado tarde?
Iosif Landau - Comecei minha aventura de escritor em 1990, depois de aposentado. A oficina literária de Flávio Moreira da Costa foi meu aprendizado. "Comissário Alfredo" foi concluído em 1993. A procura de editora e a edição do livro levaram dois anos. Estafante.

Pergunta - Sendo um poeta beat, por que escolheu o romance policial para trabalhar na prosa?
Iosif Landau - Quando comecei a escrever romances, escrever poesia nem passava pela minha cabeça. O novo romance policial, representado por Raymond Chandler e Dashiell Hammett, fascinava-me, uma ruptura total com o romance policial clássico. A versão cinematográfica em preto e branco, Film Noir e, portanto, Roman Noir, com intérpretes superlativos como Robert Mitchum e Humphrey Boggart, aumentaram minha paixão pelo anti-herói, por detetives da laia de Philip Marlowe. As características principais do herói detetive particular (private eye) são o desrespeito à estrutura rígida da lei e a ausência quase absoluta do desejo de riqueza. É misógino em relação às mulheres, o amor pouco lhe importa, se a criminosa o quer seduzir ele a rejeita com frieza, tem ética toda especial quanto à honestidade, anda armado, sofre muito castigo físico, responde com violência, é amigo dos pouco privilegiados como os jornaleiros, taxistas, barmen e prostitutas, sempre resolve os casos em que a polícia fracassa, pode ser equiparado ao samurai ou a um Lancelot da era moderna. No film noir, ou no roman noir, a ação se desenvolve sempre no ambiente urbano das grandes cidades, no bas fond. Acrescentei ao "Comissário Alfredo" também a narrativa de road movie, o Brasil comporta essa alternativa. O Alfredo é um gum-shoe (apelido oriundo do uso de sapatos com sola de borracha pelos detetives), brasileiro, com fortes tintas do nosso grande herói Macunaíma. Esse tipo de literatura, ainda considerada no Brasil como subliteratura, pode ser lida como simples passatempo, mas quem procurar ler "entre linhas", ou quem possuir alguma sensibilidade, encontrará nela um espelho da sociedade em que vivemos, onde os marginalizados têm as mesmas qualidades e defeitos de todos os humanos.
A poesia beat, embora em mim latente depois da leitura do "Uivo" e "Kadish" de Ginsberg, surgiu-me como um desafio ao classicismo, que - com raras exceções- é um tanto enfadonho, e à quebra de regras como rima e métrica. Aliás, devo confessar: sou completa e absolutamente ignorante na matéria. O verso livre é a minha praia.

Pergunta - Quais os escritores que fizeram parte da sua existência? Quem é o escritor brasileiro?
Iosif Landau - Em várias etapas de minha vida, os ídolos escritores se revezaram. Na infância, Jules Verne e Karl May. Na adolescência, Alexandre Dumas. Na pré-maturidade tentei alguns filósofos como Nietzche, Rousseau, Descartes, um fracasso total. Na maturidade, muitos e todos, mas agora posso falar com segurança: Hemingway, Camus, Malraux, la crême de la crême, e nos novos (vivos), UPerguntaike, Philip Roth e Paul Auster. Os escritores brasileiros, sem a menor dúvida: Rubem Fonseca, Trevisan, Campos de Carvalho, Clarice Lispector e Flávio Moreira da Costa. Não sou adepto - embora sejam mestres e isso não contesto - de escritores clássicos do passado. O anacrônico não me seduz.

Pergunta - Qual uso faz da Internet?
Iosif Landau - A Internet é um imenso e proveitoso instrumento de pesquisa, uma resposta instantânea a tudo que preciso, em todos os campos: história, literatura, filosofia, religião, ciência, política, opinião e mídia. Uma "mão na roda".

Pergunta - Qual o segredo de tanta vitalidade poética na idade em que você está?
Iosif Landau - Vitalidade, vigor e energia sobram em mim. Excedo e exagero em tudo o que faço, sou um passional nato. Assim sou (fui) nos esportes, nos amores, nos prazeres, nos ódios e rancores, nas amizades, na profissão e, agora, na escrita. Tenho seis livros publicados e neste ano mais três serão lançados.
Sobre vitalidade poética, não tenho certeza sobre o que se refere. Às idéias, às palavras, ao agredir meu passado, ao zombar da morte, ao arrependimento, ao horror do presente, à tragédia humana, à contestação de ideais sem consistência, ao não tolerar as religiões? Estou confuso, perdoe-me. Sei apenas, que pensamentos se avolumam na minha mente, remoem o passado, não entendem o presente, afastam o futuro e se derramam quase em transe sobre o "papel".

Pergunta - Com quantas metáforas se faz um poema?
Iosif Landau - A metáfora poética não tem a intencionalidade da científica, ela é expressiva e não explicativa. Assim o poeta pode falar de um corpo magro como "transparente" e, às vezes, uma pluralidade de leituras é admissível. Como é utópica uma leitura "total" ou compreensão única pelos leitores. A metáfora usada por um poeta é pouco provável de ser usada por outros. A beleza da metáfora poética prende-se ao seu caráter único e irrepetível. Sem saber como te responder e para a minha própria elucidação, reproduzi parte de um texto teórico, portanto, fica a pergunta sem resposta e para ultimar usarei uma metáfora em gíria: sou uma besta quadrada. Falando sério por um instante: se uso muitas, poucas ou apenas duas metáforas por poema, não sei, nunca foi intencional e jamais as detectei.

Pergunta - No poema "Fantasma" você diz "Sou fruta madura/não serei colhido, nem provado/não mais existo, nem serei lembrado." É uma paranóia de todo escritor morrer inédito? Por que todo o Nobel de Literatura tem mais do que 60 anos de idade?
Iosif Landau - Não sei se é paranóia de todos os escritores morrerem inéditos, mas tenho uma certeza: reconhecimento "extenso" eu nunca terei e, para falar honestamente, não me preocupo muito com esse fato, é suficiente para eu ser apontado aqui e acolá como escritor. Qual a razão de a maioria dos prêmios Nobel ter mais de 60 anos? Apenas posso especular. Talvez seja preconceito, uma regra não escrita, uma casualidade ou merecimento, mas sei de um escritor que o recebeu aos 44 anos, em 1957. Albert Camus.

Pergunta - "Preciso reescrever a história de minha vida, uma cópia para Deus,/outra para o diabo". O que há em Deus que falta no Diabo? Não são elas (a idéia de Deus e Diabo) uma coisa só? Por que uma cópia para Deus e a outra para o Diabo?
Iosif Landau - Está aí uma metáfora, talvez, Deus e Diabo, a totalidade, um círculo fechado, uma cópia em mim, outra para fora, lá sei eu. O importante para mim é colocar-me em preto/branco, admirado/odiado, lido/ignorado, Deus/Diabo.

Pergunta - Por que os beat tornaram-se surrealistas?
Iosif Landau - Os poetas da beat generation, em sua maioria, eram homossexuais, beberrões, nômades, sofridos e drogados. O grande representante do grupo, Allen Ginsberg, vinha de uma família de emigrantes judeus pobres, a mãe morreu louca, o poema "Kadish" foi escrito em sua homenagem. Era homossexual, seu amante era Niel Cassidy, também poeta e ex-ferroviário, amigo de Kerouac, autor da bíblia beat, "On The Road". Ginsberg confessava que a droga libertava sua inspiração. Mais tarde sua mística religiosa budista influenciou também sua escrita. A absoluta revolta contra o establisment careta americano deixou os beat "livres" nas idéias e no comportamento: Borroughs matou a mulher, Niel foi preso e encarcerado. Cultuavam o jazz na sua nova faceta, o bop, e como Charlie Parker criava sua obra drogado, assim os beat o faziam. Viveram sua realidade própria. Contestadores, chafurdavam no lixo da sociedade, romperam todas as regras. Eu diria que eles nasceram surrealistas. O seu valor, como uma nova realidade poética, foi reconhecido mundialmente.

Pergunta - Como vê o escritor beat Salinger? "O Apanhador" é uma obra de arte?
Iosif Landau - Desculpe-me por contrariá-lo, Salinger não foi um escritor beat. Como indivíduo, era excêntrico, até algo atormentado, por seu pai ser judeu e a mãe católica e por ter participado como combatente na segunda guerra mundial. Escreveu apenas um romance, "The Catcher in The Rye", "O Apanhador no Campo de Centeio". Salinger escreveu-o na primeira pessoa, um tour de force, por ser o herói um adolescente de 16 anos, com linguagem própria. Holden é corajoso, foge da escola e perambula por Nova Iorque, envolve-se com um mundo estranho, motorista de táxi, duas freiras, um ascensorista, três garotas de outra cidade, uma prostituta e uma antiga professora. Holden é um menino normal, anormal é o mundo que o rodeia e, apesar de jovem, possui uma certa sabedoria, percebe que a sua delinqüência é mínima, comparada à delinqüência dos adultos que encontra no seu caminho. Em Nova Iorque tenta escapar de si mesmo por meio de bebida, sexo, boates, cinema sem sucesso. A maestria de Salinger consiste em - apesar de apresentar-nos um adolescente aparentemente desequilibrado - induzir-nos a perceber que se trata de uma boa pessoa e de mente sadia. Holden é resgatado pela sua irmã Phoebe, também uma linda figura. O que dizer? Só lendo, uma obra-prima.

Pergunta - Como todo o bom beat você deve gostar de jazz. Qual a sua relação com a música?
Iosif Landau - Não gosto do jazz, adoro jazz. Não passo um dia sem escutá-lo. Possuo mais de 1400 CDs de jazz, conheço profundamente tudo sobre essa arte, aprecio-a desde 1937, sem interrupção. O que dizer mais?

Pergunta - Como é o seu relacionamento com outros escritores brasileiros?
Iosif Landau - O único escritor brasileiro que conheço, reconhecido pelo público como tal, é o Flávio (Moreira da Costa). Pessoalmente mais nenhum, mas "virtualmente" muitos e isso me satisfaz plenamente.

Pergunta - Em que trabalha no momento?
Iosif Landau - No momento estou em recesso, aguardando a publicação de três livros já na editora: um romance, um livro de poemas e um livro com as minhas memórias.

Pergunta - Tem alguma epígrafe que o acompanhe pela vida?
Iosif Landau - Epígrafe que me acompanha pela vida? Esta pergunta fez-me pensar: teria mesmo? Fez-me refletir sobre o meu comportamento ao longo dos anos e concluir que meu lado pessimista e trágico prepondera. Lembrei-me do que Nietzsche escrevera, não me lembrava mais das suas palavras exatas, que lera há muitos anos, procurei por elas aflito, angustiado, precisava encontrá-las, tive sorte, respirei aliviado, reli-as, tive certeza e aqui estão: "Como todos estamos condenados a morrer, é óbvio que quando ou como não importa". Sou do tipo do cara compenetrado e sério quanto aos meus deveres, mas, ao mesmo tempo, rebelde quando posso e nesses momentos de liberdade me vem à mente a resposta que eu dava aos amigos que se preocupavam comigo e me admoestavam: "Não me preocupo com o que os demais pensam!", uma honesta bravata. Meses atrás, um amigo quis que eu lhe explicasse o significado da obra de Franz Kafka, pedi um tempo, hercúlea tarefa, busquei interpretações e conceitos, cansei, entendi, não compreendi, deixei meu amigo na mão, mas na minha impaciente busca, li uma frase de um ensaísta que denominava Kafka de fabulista do século do holocausto e resumia a obra dele nessas poucas palavras, aparentemente ditas pelo próprio: "A esperança é infinita, mas não para o homem". Gamei na hora. Já confessei minha paixão pelos poetas beat, Allen Ginsberg a maior estrela. Ele inicia seu poema "Howl" ("Uivo"), com as seguintes palavras (permita-me reproduzi-las em inglês, soa mais forte): "I saw the best minds of my generation destroyed by madness".("Vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura"). Aquilo penetrou no meu cérebro e nunca mais me deixou, quase um mantra, repetia sem cessar, I saw...I saw... O que significava? Talvez nada, apenas palavras dedicadas a Carl Solomon, brilhante e louco, internado num hospício. Na minha concepção - se coincidente com a dele - pouco importava, ele e eu vivíamos num século doido, dominado por colonizadores, exterminadores como Hitler e Stalin, que a quantos enlouqueceram, trucidaram milhões e milhões, adultos de mentes brilhantes, adolescentes que seriam geniais, crianças, quantas delas cremadas e fuziladas, que teriam um futuro de imortalidade, tantas best minds of my generation destroyed by madness, mentes destruídas pela loucura... Sem dúvida, é esta a minha epígrafe.

Pergunta - Qual o papel do escritor na sociedade?
Iosif Landau - O papel do escritor - eu diria, plagiando Hemingway - é escrever livros para serem lidos. Por quem? Não apenas por professores doutores em literatura, por críticos "metidos a besta" ou por falsos intelectuais que repetem frases prontas, lidas nas orelhas dos livros, ou ouvidas em reuniões intelectualóides, mas pelo povo ávido de leitura e que não o descarta antes das dez primeiras páginas por não entender nada. Se livro é cultura, que seja democrático e não elitista. A tendência dos escritores é a de se isolarem e quando tentam se engajar, vão para a rua, fazem bobagem (é o meu ponto de vista), visitam Yasser Arafat, intitulam-se representantes do Parlamento Internacional dos Escritores. Aí o genial Saramago emite analogia idiota, comparando a política de Sharon com o extermínio organizado de Auschwitz. Concordo que em tempos de crise, fica difícil para o escritor fingir que o mundo não está pegando fogo. Entretanto, pelo menos um devia ter ficado em casa.

 

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