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Havia muito silêncio no apartamento, janelas fechadas, muitas sombras também, cortinas cobrindo a claridade de fora, o homem vestindo um terno escuro e amarrotado, barba de dois dias, cabelos em desalinho. Repousava num sofá. Não era um repouso confortável, a tensão que o dominava se refletia no rosto sulcado, no olhar quase demente, o corpo teso, rigor mortis, cadáver onde batia um coração e a mente turbilhonava desespero, os intestinos em revolta e o estômago retorcido em dor. Suas mãos trêmulas deixaram escapar o cigarro aceso sobre o tapete persa, não esboçou nenhum movimento, a ponta em brasa apagou-se lenta, chamuscou um delicado filigrana, ele esperava... A campainha tocou, um som delicado, dó-ré-mi, ele detestava ruídos metálicos, estridentes, o dó-ré-mi repetiu-se em intervalos de frações de segundos, ele não se moveu, batidas fortes na porta. Levantou-se sem esforço, seu porte atlético desmentia seu estado de prostração de há pouco, seu rosto moreno agora alegre expectativa, abriu a porta, a mulher entrou: - Demorou tanto, quase desisti, tá com uma cara.. - Ligeira indisposição. A mulher dirigiu-se apressada até uma poltrona, sentou-se, cruzou as pernas: - Por que me chamou depois de tanto tempo? Não tinha mudado, ainda era bonita, vestia um elegante terninho, cabelos negros puxados para trás, rosto largo, olhos negros, ninguém imaginaria tratar-se de uma mulher de programa. - Quer beber algo? Ele não esperou pela resposta, conhecia sua preferência, encaminhou-se ao bar, escolheu uma garrafa, colocou a bebida em dois copos. - Não esqueceu! Ele sorriu: - Nem do seu telefone. O que o atraíra nela não era a sua beleza, ou sua mente vivaz, ou o modo casual de lhe fazer entender como ela era o cativara. Naquela soirè ele se aproximara dela, e antes mesmo das apresentações de praxe pedira seu telefone. Ela o olhou com frieza: "se quer me ter, é só falar com ele" disse ao se afastar de braço dado com seu escort, ele o conhecia, nenhum embaraço, o telefonema no dia seguinte, encontro marcado... Por que brigamos? Cada um culpando o outro, os encontros se espaçando, a conversa por telefone rareando, um como vai, um tudo bem, depois a gente se fala, na cama mais nenhuma chama, ela apressada, o tesão sumindo, mulheres quando querem são cruéis, dão um jeito... - Me chamou por que? - insistiu ela. Seu modo brusco sempre o incomodou, "está na hora", falava quando o queria fora do apartamento dela, nenhuma sutileza, às vezes cruzava com um cliente, conhecia alguns, fingiam ser invisíveis, uma palhaçada, ele começou a rir, ela o olhou contrariada, parecia adivinhar o que se passava pela mente dele. - Saudade - falou ele, um ligeiro deboche no tom de voz. - Continua o mesmo, sacaneando, que saco! Ela levantou-se, colocou o copo em cima da mesa de centro, dirigiu-se à porta. - Espera! - gritou ele, quase em pânico. Ela parou, a mão na maçaneta: - Não tenho tempo a perder, você conhece minha vida. Ele colocou a mão no bolso, escolheu umas notas e colocou-as na mesa junto ao copo. Sem falar uma palavra ela voltou, apanhou o dinheiro e o escondeu na bolsa. - Quer aqui ou no quarto? - perguntou ela, ainda de pé. Ele acendeu um cigarro: - Me amou algum dia, de verdade? Ela sentou-se de novo na poltrona, cruzou as pernas, o rosto impassível, olhou-o: - Por algum tempo, sim, gostei do seu jeito direto de abordar, macho, sem frescura, um tanto posudo, um pronto com pinta de magnata. Ele nunca soubera explicar sua paixão por ela, não naqueles tempos, mas agora... Vivera um inferno, pai rico, fortuna esbanjada, anos seguidos no desgosto do afastamento dos grandes centros, do refinamento da grande cidade, da cultura, das luzes no asfalto, da praia, do mar, dos amigos, perdera o contato com a civilização, do que mais amava, de viver a vida para a qual fora criado desde a infância, algo se quebrara dentro dele, não escondera suas mágoas na bebida, nem tentara o caminho das drogas, perdera-se no sexo desenfreado. - Sabe, nunca senti tanto prazer com uma mulher, quase me mata. Ela o olhou, seu rosto perdera a frieza, sorriu: - Precisava de mim, percebi logo, mulher como eu sabe. - Foi caridade? - Sim... Não, você se virava bem na cama. - Foi apenas sexo? - Me teve de graça, o que queria mais? Ele não respondeu, seria inútil agora uma discussão, ela era mais forte que ele, sempre fora, todas a quem amara eram, algum problema no seu passado, da infância, se entregava demais a elas. - Pode ir - falou calmo. Se ela se surpreendeu, não demonstrou, colocou o copo na mesa. - Não devolvo o dinheiro - falou com frieza. O homem levantou-se, começou a caminhar pela sala, olhar baixo, a mulher o acompanhava com o olhar, parecia perplexa, aos poucos, quase imperceptível, um sorriso apareceu no rosto dele, corpo aprumado, retirou o paletó e o jogou num canto, a gravata seguiu o mesmo caminho, arregaçou as mangas, os braços musculosos apareceram, o andar tornou-se elegante, fluido. - O que te deu? - perguntou a mulher. Ele começou a falar, quase didático: - Leu o romance As Meninas, de Lygia Fagundes Telles? Não importa se não leu, ela conta no livro a história de um rapaz que ficava doidão quando via sua namorada tirar seus cílios postiços, ela de biquíni não lhe dizia nada... - Se quer perder seu tempo contando taras, conheço todas, eu não tenho tempo a perder. - Cale essa boca, te paguei, é minha por uma hora, se quer saber porque te chamei, vai ter que esperar. Quando eu era rapaz, as fodas eram rápidas, apressadas num banco do carro, nem existiam motéis com camas redondas, espelhos nos tetos, filmes pornô, tirou o cabaço, casou e fim de papo. Lygia pressentiu que décadas adiante surgiria a banalização do nu, o sexo fácil, daí a impotência, o enfado, a indiferença... - Pára com essa churumela - interrompeu a mulher - que saco! - ...a procura do impossível - continuou o homem como se não tivesse ouvido a mulher - daí Lolita, Anita, a adolescente, a ninfeta, o fruto safado, tão em voga, a mulher madura já era, ter ereção era difícil, seios nada mais significavam, a posição papai-mamãe um porre, novas combinações, posições sexuais, no livro Erotica Universalis de Gilles Neret, tá tudo lá, paguei uma nota por ele... - Se continuar com esse treco, vai ter que pagar mais - interrompeu a mulher de novo. O homem parou a caminhada, retirou um maço de notas do bolso e o jogou em cima dela, recomeçou a andar: - As mulheres dão sexo para obter amor, os homens dão amor para obter sexo, o tesouro feminino não está mais entre as pernas, um outdoor com um lindo par de olhos azuis é mais prazeroso que um com o corpo sensual de mulher explodindo de prazer. O homem silenciou, observou a mulher recolher as notas, uma por uma: - Quando te conheci eu estava impotente, nenhuma mulher despertava mais meu desejo, pressenti algo diferente em você, não me enganei, voltei a ser o que já fora, todos os dias, todos, de madrugada, no fim da tarde, entre um freguês e outro, semanas, meses, anos, tudo no fim mecânico, enfadonho, acabado... Sei que não me amava, por que exigia tanto de mim? A mulher abriu a bolsa, retirou de dentro o dinheiro, colocou-o em cima da mesa: - Me tratou como mulher, não como objeto, senti prazer, desde o primeiro encontro, não queria te perder. - Mas... - Sim, te tratei mal, não podia mudar, baixar a guarda, você ia me fazer sua, para sempre? Não, não mesmo, portanto... O homem parou na frente dela: - Acho que sabe porque te chamei. Ela levantou-se, aproximou-se dele, beijou-o no rosto, olhou o relógio: - Estou atrasada, esqueça o numero do meu telefone. A porta bateu. O homem deitou-se em cima do tapete persa, viu o filigrana danificado pelo cigarro, passou os dedos por cima, acariciou-o por um longo tempo e depois adormeceu.
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