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Não vi mentes sendo destruídas pela loucura, eu vi a própria loucura, nua, fedorenta e risonha num manicômio do Estado à beira do rio Paraíba, natureza verdejante, águas pujantes, belas haras, quadrúpedes hospedados em luxuoso ambiente exagerado até para milionários sultanos, emoldurando o inferno impossível de ser imaginado, mas concebido com cínica genialidade por demônios paridos no Inferno, seguidores de Hipócrates e diplomados doutores pela hipócrita sociedade, burocrática e burra, eu vi bípedes seres se arrastando pela lama, os vi nus, acocorado e defecando na grama, os vi cobertos por fétidos panos, olhares vazios, cabeças raspadas com feridas abertas, os vi se escondendo da luz do dia em cubículos de paredes manchadas de excrementos de todas as tonalidades, cárcere do Marques de Sade, suas mentes queimadas por lança-chamas medicamentosa vomitando por bocas desdentadas fétido liquido e obscenas palavras em monótona cadência, os vi encostados em banheiros orelhas colados nas paredes com azulejos gretados e encardidos ouvindo o Terror caminhando do outro lado, vi mulheres nuas correndo entre arbustos que ao me verem abriam as pernas mostrando as entranhas escuras e me chamando de filho, a caminho do meu dever de engenheiro recém formado, imaginei o horror dos seus sonhos, o nunca acordar dos pesadelos, enfermeiros sonâmbulos ao meu lado em jalecos sujos resmungavam: a gente se acostuma, a verba é pouca, nada pode ser feito, só enfiar pelas goelas pílulas coloridas, um velho seguia nossos passos, emitia soluços ininterruptos tentando rir ao mesmo tempo, de repente iniciou um choro convulsivo rolando nos pedriscos, apanhei meus cigarros do bolso, um enfermeiro gritou: não faça isso! meu maço foi arrancado, minha mão arranhada, vi alguns ajoelhados em posição de reza me olhando, tentei recriar em minha mente a sintaxe da sanidade, fazer um discurso caridoso e inteligente, senti apenas tremores envergonhados, confessei em silêncio a minha inutilidade, peguei o caminho de volta sem cumprir minha tarefa, saí do inferno, num último relance vi mulheres urinando no sol, homens se masturbando nas sombras, deixei para trás a poesia da vida, retalhada e sanguinolenta, como carne enganchada e enfileirada num açougue, e por longo tempo me vi em sonhos caminhando pelas estradas do meu belo País, resmungando palavras sem nexo
de Preto e Branco de Iosif Landau Editora Altos da Glória, 2001
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