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Poema: Açougue Imprimir E-mail
Escrito por Iosif Landau   

Não vi mentes sendo destruídas pela loucura,
eu vi a própria loucura, nua, fedorenta e risonha
num manicômio do Estado à beira do rio Paraíba,
natureza verdejante, águas pujantes, belas haras,
quadrúpedes hospedados em luxuoso ambiente
exagerado até para milionários sultanos,
emoldurando o inferno impossível de ser imaginado,
mas concebido com cínica genialidade
por demônios paridos no Inferno,
seguidores de Hipócrates e diplomados doutores
pela hipócrita sociedade, burocrática e burra,
eu vi bípedes seres se arrastando pela lama,
os vi nus, acocorado e defecando na grama,
os vi cobertos por fétidos panos, olhares vazios,
cabeças raspadas com feridas abertas,
os vi se escondendo da luz do dia
em cubículos de paredes manchadas de excrementos
de todas as tonalidades, cárcere do Marques de Sade,
suas mentes queimadas por lança-chamas medicamentosa
vomitando por bocas desdentadas fétido liquido
e obscenas palavras em monótona cadência,
os vi encostados em banheiros orelhas colados
nas paredes com azulejos gretados e encardidos
ouvindo o Terror caminhando do outro lado,
vi mulheres nuas correndo entre arbustos
que ao me verem abriam as pernas mostrando
as entranhas escuras e me chamando de filho,
a caminho do meu dever de engenheiro recém formado,
imaginei o horror dos seus sonhos,
o nunca acordar dos pesadelos,
enfermeiros sonâmbulos ao meu lado em jalecos sujos
resmungavam: a gente se acostuma, a verba é pouca,
nada pode ser feito, só enfiar pelas goelas pílulas coloridas,
um velho seguia nossos passos, emitia soluços ininterruptos
tentando rir ao mesmo tempo, de repente iniciou
um choro convulsivo rolando nos pedriscos,
apanhei meus cigarros do bolso,
um enfermeiro gritou: não faça isso!
meu maço foi arrancado, minha mão arranhada,
vi alguns ajoelhados em posição de reza me olhando,
tentei recriar em minha mente a sintaxe da sanidade,
fazer um discurso caridoso e inteligente,
senti apenas tremores envergonhados,
confessei em silêncio a minha inutilidade,
peguei o caminho de volta sem cumprir minha tarefa,
saí do inferno, num último relance
vi mulheres urinando no sol,
homens se masturbando nas sombras,
deixei para trás a poesia da vida, retalhada e sanguinolenta,
como carne enganchada e enfileirada num açougue,
e por longo tempo me vi em sonhos
caminhando pelas estradas do meu belo País,
resmungando palavras sem nexo


de Preto e Branco
de Iosif Landau
Editora Altos da Glória, 2001

 

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