Subcultura - Artes e Letras para o Estômago

Home >> Inferninho >> Claudio Willer >> Poema homenagem a Dashiell Hammet
Poema homenagem a Dashiell Hammet Imprimir E-mail
Escrito por Claudio Willer   

1
uma geração pulou no abismo
mas você foi mais adiante
ou saltou mais fundo
levantou a tampa da vida
para ver o que havia por baixo
para ver que não havia nada embaixo

2
parar
reescrever
começar tudo de novo
passar a limpo mais uma vez
a selva das cidades
por trás de cada crime
uma teoria do conhecimento
por trás de cada janela
um olho rasgado

3
percorro novamente as ruas do desespero
e tudo é sombrio e úmido
lembro-me de Sam Spade, Nick Charles,
o detetive da Continental (meu personagem predileto, de
meia-idade, triste, comum, vestia uma capa de chuva
comia sanduíches frios antes da perseguição
e sempre estava chovendo, garoando ou nevando)
eles sabiam de tudo
testemunhas solitárias e discretas
de histórias verdadeiras

4
é preciso parar de ter medo das palavras
porque às vezes é necessário penetrar no inferno
ver a mão do último esquartejador
envolta nas cortinas
carros alucinados beijando-se ao entardecer
e os assassinos - o que dizer deles
prestidigitadores seguros
imersos nos confins do acaso
agora absortos
diante de uma humanidade atônita
arrancados a seu balé sobre tapetes de pupilas assustadas
a seu devaneio entre trapézios de vísceras
visões frenéticas
empilhadas pelos cantos da saleta art-decô
em saguões de gravuras campestres
em quartos de hotéis de beiras de cais

5
funis do sonho
ogivas do delírio
paralelas da memória
simplicidade da lâmina
como contar tudo
prefiro os contos
as histórias curtas e precisas
que atravessam os poros do cristal
e as máquinas
as máquinas são muito importantes:
precisão dos magnetos
lucidez das válvulas
rapidez dos fios
inquietude das tesouras

6
você ofereceu mais uma vez ao mundo
a luminosa flor híbrida do crime
súbita e tentadora em seu desabrochar itinerante
e que todos terão que comer de agora em diante
e sentir que a tentação do mergulho existe

7
a velha tinha um revólver
o velho também
e o que importa
cada vez mais
os corpos se retorcem de dor
rasgados pelo estilete
chuva de sangue atrás da realidade
e paisagem de manchas na parede
você começou como detetive particular
continuou como detetive da mente
conviveu 45 anos com o abismo
para viver intensamente
Seara Vermelha Falcão Maltês Moça dos Olhos de Prata Chave de Vidro Ferradura Dourada Ceia dos Acusados A Décima Pista Estranha Maldição
poemas do nosso tempo
desfilando em números sucessivos da revista Black Mask
rasga os véus
o oculto
o não-sabido
a causa de tudo
uma lógica incansável
puro rigor da mente
palavras retorcendo-se de objetividade
revelam
mostram
apontam
tudo muito claro
seco
direto
HORROR TOTAL
ora
então vocês não sabiam
não vale gritar
esperavam outra coisa

8
a senha era dedo amarrado com esparadrapo e toque no chapéu telegramas em código os olhos e a língua mostraram que estava fora de combate os quatro degolados pela faca de trinchar o chinês foi à forca a moça fez o que eu teria feito no lugar dela não tinha sido ele que emitira o cheque uma pequena veia trêmula apareceu no pescoço branco mobília e pedaços de mobília por toda parte as pessoas não morrem fazem-se matar
a troco de nada

9
e se não fosse o velho mas a cunhada também não faria diferença alguma
o crime por trás do crime era outro
o crime por trás do crime era pior que o crime
por trás de cada crime outro crime
não era o que estavam pensando
mas era tão óbvio...
o cenário do nosso tempo
você vislumbrou o núcleo sangrento da História
e mais coisas ainda
à sombra da porta
mas ainda não é o espetáculo final
você não contou
só insinuou
San Francisco 1923 / São Paulo 1976
a lei seca continua
e o deserto cresce
cada qual defende-se como pode
com as armas que tem
sarabanda de cérebros estraçalhados
minueto
antes do festim para valer

10
o morto fingia-se de assassino
para ganhar mais dinheiro
o empregado pensou haver matado
mas a identidade era outra
o brilhante não existia
a estátua era falsa
foi ele
não, não foi
não foi ele
quem será
ah, como tudo isso é esclarecedor

11
selva de olhares atônitos
a mesma história de todas as histórias
em cada esquina um ventre aberto
e as cidades, o que dizer delas
como lançar os dados
a verdade transmitida por canos de revólver
um olhar hesitante
um grito de medo
a mão indecisa
fingindo amar
ninguém era
todos são
são todos assassinos

12
como você sabia
de tudo isso
e que depois
tudo se tornaria
pálido, frio, cinzento e amorfo
e aqueles criminosos ainda eram um último espasmo
de vida
Samuel Dashiell Hammett
1894 / 1961
escritor de contos policiais
levou apenas 12 anos para escrever o que tinha que escrever
marxista convicto
militante do PC americano
processado, perseguido e preso pelo macarthismo
porque não quis dedar ninguém
nem entregar os amigos
detetive quando jovem
aventureiro a vida toda
morto de tuberculose e enfizemas
contraídos em duas guerras mundiais e na prisão morto
por excesso de álcool e de contradições


Claudio Willer (1940) é tradutor de Allen Ginsberg, Antonin Artaud e Lautréamont. Publicou Volta (1996), entre outros.
O poema Homenagem a Dashiell Hammett, foi originalmente publicado em Jardins da Provocação (1981). 
Contatos com o autor: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

 

Filtragem Rápida