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1 uma geração pulou no abismo mas você foi mais adiante ou saltou mais fundo levantou a tampa da vida para ver o que havia por baixo para ver que não havia nada embaixo 2 parar reescrever começar tudo de novo passar a limpo mais uma vez a selva das cidades por trás de cada crime uma teoria do conhecimento por trás de cada janela um olho rasgado 3 percorro novamente as ruas do desespero e tudo é sombrio e úmido lembro-me de Sam Spade, Nick Charles, o detetive da Continental (meu personagem predileto, de meia-idade, triste, comum, vestia uma capa de chuva comia sanduíches frios antes da perseguição e sempre estava chovendo, garoando ou nevando) eles sabiam de tudo testemunhas solitárias e discretas de histórias verdadeiras 4 é preciso parar de ter medo das palavras porque às vezes é necessário penetrar no inferno ver a mão do último esquartejador envolta nas cortinas carros alucinados beijando-se ao entardecer e os assassinos - o que dizer deles prestidigitadores seguros imersos nos confins do acaso agora absortos diante de uma humanidade atônita arrancados a seu balé sobre tapetes de pupilas assustadas a seu devaneio entre trapézios de vísceras visões frenéticas empilhadas pelos cantos da saleta art-decô em saguões de gravuras campestres em quartos de hotéis de beiras de cais 5 funis do sonho ogivas do delírio paralelas da memória simplicidade da lâmina como contar tudo prefiro os contos as histórias curtas e precisas que atravessam os poros do cristal e as máquinas as máquinas são muito importantes: precisão dos magnetos lucidez das válvulas rapidez dos fios inquietude das tesouras 6 você ofereceu mais uma vez ao mundo a luminosa flor híbrida do crime súbita e tentadora em seu desabrochar itinerante e que todos terão que comer de agora em diante e sentir que a tentação do mergulho existe 7 a velha tinha um revólver o velho também e o que importa cada vez mais os corpos se retorcem de dor rasgados pelo estilete chuva de sangue atrás da realidade e paisagem de manchas na parede você começou como detetive particular continuou como detetive da mente conviveu 45 anos com o abismo para viver intensamente Seara Vermelha Falcão Maltês Moça dos Olhos de Prata Chave de Vidro Ferradura Dourada Ceia dos Acusados A Décima Pista Estranha Maldição poemas do nosso tempo desfilando em números sucessivos da revista Black Mask rasga os véus o oculto o não-sabido a causa de tudo uma lógica incansável puro rigor da mente palavras retorcendo-se de objetividade revelam mostram apontam tudo muito claro seco direto HORROR TOTAL ora então vocês não sabiam não vale gritar esperavam outra coisa 8 a senha era dedo amarrado com esparadrapo e toque no chapéu telegramas em código os olhos e a língua mostraram que estava fora de combate os quatro degolados pela faca de trinchar o chinês foi à forca a moça fez o que eu teria feito no lugar dela não tinha sido ele que emitira o cheque uma pequena veia trêmula apareceu no pescoço branco mobília e pedaços de mobília por toda parte as pessoas não morrem fazem-se matar a troco de nada 9 e se não fosse o velho mas a cunhada também não faria diferença alguma o crime por trás do crime era outro o crime por trás do crime era pior que o crime por trás de cada crime outro crime não era o que estavam pensando mas era tão óbvio... o cenário do nosso tempo você vislumbrou o núcleo sangrento da História e mais coisas ainda à sombra da porta mas ainda não é o espetáculo final você não contou só insinuou San Francisco 1923 / São Paulo 1976 a lei seca continua e o deserto cresce cada qual defende-se como pode com as armas que tem sarabanda de cérebros estraçalhados minueto antes do festim para valer 10 o morto fingia-se de assassino para ganhar mais dinheiro o empregado pensou haver matado mas a identidade era outra o brilhante não existia a estátua era falsa foi ele não, não foi não foi ele quem será ah, como tudo isso é esclarecedor 11 selva de olhares atônitos a mesma história de todas as histórias em cada esquina um ventre aberto e as cidades, o que dizer delas como lançar os dados a verdade transmitida por canos de revólver um olhar hesitante um grito de medo a mão indecisa fingindo amar ninguém era todos são são todos assassinos 12 como você sabia de tudo isso e que depois tudo se tornaria pálido, frio, cinzento e amorfo e aqueles criminosos ainda eram um último espasmo de vida Samuel Dashiell Hammett 1894 / 1961 escritor de contos policiais levou apenas 12 anos para escrever o que tinha que escrever marxista convicto militante do PC americano processado, perseguido e preso pelo macarthismo porque não quis dedar ninguém nem entregar os amigos detetive quando jovem aventureiro a vida toda morto de tuberculose e enfizemas contraídos em duas guerras mundiais e na prisão morto por excesso de álcool e de contradições
Claudio Willer (1940) é tradutor de Allen Ginsberg, Antonin Artaud e Lautréamont. Publicou Volta (1996), entre outros. O poema Homenagem a Dashiell Hammett, foi originalmente publicado em Jardins da Provocação (1981). Contatos com o autor:
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