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Em Pueblo Colorado, no meio do inverno, Cody sentou-se em um banco de bar às três horas da madrugada na triste situação de quem está sendo procurado pela polícia na América do Norte, ou pelo menos procurado durante a noite (batendo com a moeda no balcão como alguém que mata uma mosca com a mão ) - América, a palavra, o som dessa palavra é a entonação da minha infelicidade, a expressão do meu amargo e estúpido sofrimento - entre minhas recordações felizes não consta o nome da América, elas possuem um nome bem mais íntimo, mais pessoal, mais secreto, um nome apenas balbuciado - América é ser procurado pela polícia, é ser perseguido através do Kentucky e do Ohio, é dormir em estábulos cheios de ratos ouvindo os gemidos do vento nos telhados de zinco dos silos sombrios, é o retrato de um herói nas revistas policiais, é a hora impessoal da noite quando as pessoas se sentem perdidas nas encruzilhadas das estradas e ninguém se importa - América é o país onde ninguém tem o direito de chorar consigo mesmo - É onde os gregos lutam para serem aceitos, se bem que muitas vezes venham de Malta ou de Chipre - América é o que ficou colado à alma de Cody Pomeray, o ônus e o estigma - isso quando um enorme sujeito vestido à paisana surrou-o em um quarto dos fundos até que ele falou de alguma coisa que já não tem mais importância alguma. América (QUADRILHA DE JOVENS SEXO ENTORPECENTES E CARROS!) é também a luz neon vermelha e as coxas num hotel barato onde à noite os bêbedos trôpegos saem para as ruas, como um enxame de baratas, quando os bares se fecham - onde as pessoas, milhares de pessoas, estão chorando e mordendo os lábios nos bares e nas camas vazias, onde há sempre alguém se masturbando em algum canto escuro - Existem caminhos malditos atrás dos postos de gasolina onde cachorros assassinos rosnam atrás de cêrcas de arame farpado e onde surgem de repente carros da polícia, como se fugissem de algum crime inconfessável, mais vergonhoso do que as palavras podem expressar - onde Cody Pomeray aprendeu que as pessoas não são boas, elas querem ser más, elas gostam de apanhar e bater - é onde as cenas do amor transcorrem em meio a gemidos de raiva e de dor - a América transformou o rosto de um jovem em algo doloroso de se ver, rodeou suas pálpebras de olheiras fundas e negras, tingiu seu rosto de uma côr desbotada, cresceu pêlos na testa que antes era lisa como o mármore, transformou seu desejo ardente em uma sabedoria silenciosa e muda (ele não conversa mais, nem consigo mesmo, no meio da noite maldita) - ah os ruídos das xícaras de café na tristeza infinita da noite - Alguém está lavando a louça na pia a essa hora da manhã (e tudo isso para nada, para nada, num Colorado desértico e ventoso) - Ah e ninguém se importa mas o coração no centro da América haverá de pulsar novamente quando todos os vendedores morrerem...
de Geração Beat - Antologia Org. por Seymour Krim Editora Brasiliense, 1968
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