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Ontem eu não fumei Imprimir E-mail
Escrito por Ana Peluso   

Não consigo lembrar onde deixei o maço de cigarros. Nem o incenso. Qualquer lamento agora é muito. Melhor seria ficar calada até em pensamento. Mas não acho o maldito maço; não sei onde deixei. Tudo está em desordem; desde o quarto até minha alma e não sei de sentimentos, mas sei da solidão. O gesto do vizinho é percebido. Ele acaba de abrir o piano e pretende tocar Bach. Mas nunca toca. Toca um emaranhado de notas, como quem despeja os dedos em fúria sobre as teclas do piano - suas cúmplices. Eu o compreendo. O prédio inteiro o compreende, mesmo sem saber porquê. Nunca ninguém comentou. E não encontro o cigarro e nem o resto da vida, que não sei se partiu, não ficou e se voltar, não sei de mim pra abrir a porta.

Fomos unos por muito tempo. O mesmo que se encarregou de nos transformar em dois fragmentos finalmente de composições opostas ou pelo menos diferentes. Não sei quando isso aconteceu e não perguntei a ele se sabia, enquanto arrumava suas malas.

- Você vai levar os sapatos do casamento?

Sim, ele levaria os sapatos do casamento. Como propriedade legítima, ele simplesmente levaria os sapatos do casamento, ainda que deixasse sua aliança, não sei se por esquecimento ou com algum propósito. Como se isso importasse naquele momento. Não conseguia decifrar se ele era irônico ou alguém perdido no tempo. Preferi não considerar hipóteses.

- Fica com a "Síntese" pra você. - me disse sorridente, enquanto pegava seu último livro na estante, que agora me lembrava um prédio em construção.

A "Síntese" era nosso amuleto. Uma pedra encontrada numa beira de praia, diferente de todas as outras. Por isso demos a ela o nome de Síntese. Além de ser bela, era diferente: "talvez carregasse um pouco de cada minuto do mundo", ele dissera ainda sorrindo. Ele lembrava de alguns momentos tanto quanto eu, mas aquilo não me consolaria ou mesmo me deixaria feliz. Eu nada podia sentir, além do incômodo que a música do vizinho já começava a me causar, ainda que eu o compreenda. E não encontro nem o caminho para o quarto, nem minha blusa de lã, e tudo está numa desordem de fim de mundo. Tanto quanto o próprio. Observo, através da cortina, os meninos do décimo andar terminando de encurralar o filho do zelador novamente. Me questiono porque não abro a janela e grito ou porque nunca contei ao velho homem que seu filho era vítima de uma espécie de poder. Mas nunca faço nada do que deveria fazer. Bach do avesso é a desculpa perfeita para ninguém ouvir direito à noite.
E o mundo que se dane, afinal; ainda quero meus cigarros. Mas encontro uma foto em uma das gavetas da sala. Uma foto de quando nos conhecemos e ele dizia que me amaria pra sempre e que teríamos seis filhos. Ria muito e dizia: "Já pensou? Você tá fodida!". Eu ria junto. Eu teria tido doze, se fosse preciso, desde que com ele e desde que ele nunca partisse, ou mesmo seu olhar se precipitasse sobre outros como quem ia embora a cada instante. Seu olhar sempre partiu e não tivemos filho algum. Nada no mundo carregava nós dois ao mesmo tempo, a não ser os momentos em que nos esbarramos enquanto pensávamos nos amar.

Finalmente encontro os cigarros, vício abandonado há mais de um ano. Ontem não fumei. Só vou fumar hoje porque é uma data especial. Olho o relógio; passa da meia noite. Hoje faz algumas horas que ele partiu e eu fiquei só dele como sempre estive, ainda que não soubesse até então. E ainda que o vizinho toque Bach de ponta cabeça ou os meninos do décimo andar já durmam - sem sequer saber que começam pelo fim - ainda assim nada importa. A vida virou pedra num dado momento e talvez já plena de um pouco de tudo, ficou lá parada como a "Síntese" na estante, que parece já carregar também esse minuto em que eu trago do cigarro e solto a fumaça que some aos poucos no impuro ar do mundo.

 

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