| O segredo da esfinge |
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| Escrito por Alexon Oliveira | |||
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Talvez, como Kafka, "eu não tenho nenhuma das qualidades necessárias para vencer na vida", (e o que significa vencer na vida?), por outro lado não me sinto nem um pouco fracassado ante a multidão de imbecis que agonizam e se definham no afã de ser alguém quando não conseguem ser eles mesmos. Eu pelo menos sou eu. Não suporto máscaras. As pessoas não saem de casa sem máscaras, às vezes, na cama, antes de olhar pro próprio cônjuge, põem uma. Sentem medo de se revelarem ou, quem sabe, vergonha de si. Ah, foda-se. Quem quiser gostar de mim goste como eu sou. Entrei no elevador do meu prédio ainda ofegante naquela manhã. Não me lembro quando me tornei um fumante, mas há pouco tempo havia decidido parar de fumar e comecei a empreender algumas caminhadas pelo calçadão da orla. Dizem que caminhar ajuda a liberar nicotina e desperta um senso de amor à saúde. Mesmo assim de vez em quando eu fumo um cigarrinho. No elevador havia mais duas pessoas, um jovem de uns vinte e poucos anos com cara de burocrata e chato como todos os burocratas e uma garota nos seus dezesseis, dezessete anos. O cara apertou o botão do terceiro andar, eu o do décimo oitavo, onde ficava meu apartamento, a menina permaneceu parada. Depois que o burocrata saltou nós ficamos a sós. Ela não era estranha, pouco a pouco a reconheci. Não sei em que andar ela morava, mas não era no décimo oitavo. Tinha o rosto branco, quase pálido, seus olhos negros estavam inchados e vermelhos como quem havia chorado muito, cabelos longos, lisos e igualmente negros. Ela usava uma calça de brim preta, sapatos de camurça bege e uma blusa de algodão amarela. Seus seios eram médios e rijos, suas calças estavam tão apertadas que desenhavam a silhueta de sua vagina, sua bunda era média e firme. Não usava brincos nem maquiagem. Há menos de uma semana ela usava saias longas e camisas largas que cobriam a formosura do seu corpo adolescente. Deveria fazer parte dessas seitas protestantes neopentecostais que escravizam as mentes fracas subjugando-os aos seus dogmas hipócritas as custas de uma falsa esperança. Ela precisa se livrar de mais alguns preceitos falso-moralistas para usar brincos e maquiagem. O processo de transformação é lento. "Posso ficar no seu apartamento hoje? É só por hoje. Juro". O elevador parou no décimo oitavo. Saltei da cabine e ela veio atrás. Dentro do meu apartamento. Nem todo abuso contra a mulher é de ordem sexual. A agressão física de um estupro seria facilmente esquecida pela vítima se não fossem as conseqüências psicológicas causadas pelo ato. O que ela quis dizer com "sou sozinha no mundo?". Quando não aceitamos um determinado comportamento imposto e massificado nos condenamos a solidão dentro de outra, não menos dolorosa, solidão. Eu também não tinha ninguém. Descobri isso há alguns anos, depois de várias aventuras em busca do que eu não sabia e hoje sei que era a mim mesmo que eu procurava e hoje também sei que o processo de busca é inesgotável. Fui criado pelo meu avô. Um velho professor universitário, ele lecionava História do Pensamento Econômico em duas universidades, uma federal e outra privada. Ele foi ao mesmo tempo pai e mãe para mim. Ensinou-me a amar os livros e buscar neles os amigos fiéis que faltavam na humanidade, mas nem sempre as letras me foram sinceras, às vezes eram até sinistras. Quando ele morreu há dez eu já tinha uma profissão, dois empregos, uma casa, um apartamento, dois carros, uma conta bancária razoável e uma série de interrogações. Fiz algumas viagens antes de publicar o meu primeiro livro, pensei em começa-lo quando retornasse ao Brasil, mas as primeiras linhas surgiram num trem que saía da Áustria em direção a Liechtenstein, principado independente que faz fronteira com a Áustria e a Suíça. Durante dois anos andei por boa parte da Europa. O tempo que passei na Europa, me comunicando em outras línguas, entrando em contato com outras culturas, costumes e tradições, me despertou para uma realidade que eu ainda não havia percebido em toda sua inteireza: ser brasileiro. A identidade nacional, tantas vezes lesada por uma influência imposta por culturas dominantes, a exemplo da norte-americana, nos afasta gradualmente do nosso brasileirismo. Mas foi em terra estrangeira que a minha brasilidade me pegou de surpresa. Quando deixei o Brasil senti um certo alívio, sensação de liberdade, deixava uma cidade, um país, preocupações, amores, temores, rostos e olhares que como nuvem iam se dissipando na minha mente e não eram mais importantes. À frente estava o desconhecido, um misto de excitação e medo. No início, como na maioria das experiências que vivenciamos, fui atraído por um forte encantamento, depois, senti o peso do exílio, ainda que fosse voluntário. A saudade que ardia em meu peito não se direcionava a pessoas, nem mesmo a terra em si. Era de tudo um pouco e nesse pouco havia um tudo. A viagem também me fez entender melhor o outro dentro de sua cultura sem precisar abandonar a minha. Em Bruxelas conheci Julie, uma pintora e poetisa belga. Ela escrevia poemas com a mesma perfeição com que pintava suas telas, estudava Arte Contemporânea na Universidade de Louvain e inclusive já havia estado no Brasil. Julie me mostrou um quadro que ela havia pintado por ocasião de sua vinda a Salvador. A suavidade dos traços com os quais ela retratara o Elevador Lacerda, o Mercado Modelo e a Praça Cairú como se fosse uma fotografia tirada do Forte de São Marcelo reproduzia não só um lugar, mas também a alma dos que vivem nessa terra e dos que por lá passaram trazendo consigo um pouco dela. Na hora em que vi o quadro sinestesicamente senti o cheiro de peixe fresco e escutei o ruidoso barulho dos automóveis que descem a Avenida Contorno rumo à Cidade Baixa. Assim como eu, ela vivia no ímpeto de suas emoções, à mercê de sonhos ainda não cristalizados, correndo contra o vento em busca da concretização de sua utopia. Nos conhecemos num café localizado na "Grand-Place" de Bruxelas onde majestosamente se ostentam edifícios de rara beleza construídos a partir do século XV apresentando-se como um dos principais conjuntos arquitetônicos europeus, a exemplo da Torre do Relógio erguida em 1449; do Museu Municipal, antiga Casa dos Pandeiros ou Casa do Rei da Espanha; e da Câmara Municipal construída no século XV e que atualmente se caracteriza como um dos maiores expoentes do gótico flamígero brabantino. Estávamos sentados de frente um pro outro. Notei que ela, a cada dez segundos, aproximadamente, erguia seu rosto, olhava em minha direção e depois voltava sua atenção pr'um papel onde desenhava algo. Levantando o copo de vinho tinto que eu estava bebendo a cumprimentei, ela retribuiu com um sorriso afetuoso, e continuou seu trabalho. Nesse momento passava uma jovem entre as mesas postas na área externa do café sob o atento olhar dos garçons, parecia ser uma cigana (nunca imaginei que encontraria ciganas por lá), ela trazia consigo uma cesta com flores. Aproximou-se de mim e falando um francês com sotaque espanhol perguntou-me qual flor eu gostaria de levar para minha esposa, disse-lhe que não era casado, mas queria comprar duas tulipas, uma para ela e outra para a moça que estava sentada na mesa em frente a minha. Julie recebeu a flor com um sorriso ainda mais belo que o anterior e fazendo um gesto com as mãos convidou-me para sentar a sua mesa. Foi quando vi meu rosto desenhado no papel que ela tinha em mãos. Bebemos uma garrafa de vinho tinto e depois de algumas voltas pela capital da Bélgica e da província de Brabante, fomos pro seu apartamento. Foi a primeira vez que eu transei com uma estrangeira. Fiquei um mês morando com Julie em Bruxelas, depois tomei o rumo de minha vida vagabunda. Aquela garota que a menos de uma hora estava em meu apartamento, de algum modo, me lembrava Julie. "Qual é o seu nome?". Perguntei-lhe. Fui pra cozinha fazer a única coisa que eu sei: lasanha. Viviane veio me ajudar, mas acabou atrapalhando. Quebrou um prato e dois copos. Almoçamos a lasanha e tomamos cerveja, depois saí para comprar papel e tinta pra minha impressora. Peguei o elevador, dessa vez não havia ninguém na cabine além de mim. Chegando na portaria vi um homem calvo de meia idade com cara de invejoso e seviciador, acompanhado de uma mulher com cara igualmente invejosa e esnobe. Conversavam com o porteiro. O homem perguntava ao seu Silva (o porteiro) se ele tinha visto uma garota - deu as mesmas características físicas de Viviane, inclusive a roupa que ela estava vestindo - passar pela portaria naquela manhã. Diminuí os passos. Seu Silva respondeu que ela saíra logo cedo, mas por volta das nove horas retornara. "Então ela está em algum lugar no condomínio", cogitou a mulher até então em silêncio. Eles já tinham ido embora quando retornei. Peguei o elevador de volta ao meu apartamento, mais uma vez não havia ninguém na cabine além de mim em todo percurso do térreo ao décimo oitavo andar. Em casa encontrei Viviane deitada no sofá da sala lendo o prefácio de um dos meus livros. Estava distraída e não me viu entrar. "Viviane, quando desci, encontrei na portaria o pessoal da sua casa. Eles estão te procurando e sabem que você está aqui no prédio". Descrevi o homem e a mulher que encontrei falando com o seu Silva e ela me confirmou como sendo seu padrasto e a mulher dele. Fui em meu quarto e peguei no guarda-roupa um short azul e uma blusa laranja que a Patrícia havia deixado em meu apartamento da última vez que esteve aqui. Ela sempre deixava algo, fingia que esquecia e depois voltava para buscar e esquecia outra coisa para poder voltar outra vez. Dei para Viviane vestir. Ela ficaria mais à vontade. Coloquei um filme do Almodóvar para assistirmos. Viviane pegou no sono com a cabeça encostada ao meu peito, a saliva escorrendo num canto da boca, mas antes do filme acabar ela acordou me perguntando como foi o final. A campainha tocou, Viviane correu pro meu quarto e eu fui ver quem era. Era a Patrícia. Abri a porta. "Você não me telefona nunca, né?". Viviane aparece na sala. Viviane jogou sobre o sofá o short e a blusa de Patrícia. Ficou só de calcinha, cobriu os seios com as mãos. Fui pro quarto com Patrícia. Viviane ficou na sala. Ficamos nus, Patrícia me pediu para chupa-la. Sua boceta cheirava a almíscar, parecia ter passado perfume, mas à medida que minha língua a invadia ela assumia o seu cheiro e sabor natural. Patrícia tinha um clitóris grande e lábios vaginais grossos, mantinha a vagina sempre depilada exibindo a saliência dos grandes lábios. Depois invertemos a posição para ela poder me chupar. Saímos da cama, ela sentou-se na poltrona ao lado, abriu bem as pernas e me pediu para penetra-la de frente. Segurei meu esperma enquanto ela gozava, depois levantei seus quadris e a sodomizei na mesma poltrona despejando todo meu sêmen em seu ânus. Quando acabamos pedi pra ela se vestir e ir embora. Viviane não estava na sala. "Cadê ela?". O short azul e a blusa laranja de Patrícia continuavam sobre o sofá, peguei e dei para ela levar. Depois que ela saiu, Viviane apareceu na sala. Voltei pro meu quarto e deixei Viviane na sala tomando um pote de sorvete napolitano e assistindo a um desses ridículos programas de auditório cujo assunto é a vida de artistas e políticos. No quarto encontrei a calcinha e o batom de Patrícia sobre a mesinha de cabeceira. Ela vai voltar. Liguei meu computador e abri a pasta onde estão guardados os primeiros capítulos de um novo livro que não vou enviar a editora. Não é um livro para ser lido, preciso escrevê-lo, porque esse é o único meio que tenho de desabafar, não sei falar, só sei escrever... Quando eu fechar o último capítulo, vou coloca-lo numa caixinha de aço que mandei fabricar, vou trancar a caixinha, jogar a chave no oceano e enterra-la na areia da praia. Depois que enterrar o livro vou esquece-lo e assim esquecer o sofrimento que está nele. Daqui a alguns anos quando as geleiras forem dissolvidas pelo efeito estufa e o nível do mar aumentar invadindo cidades costeiras como Salvador, não haverá mais chance de desenterra-lo. Quando parei de escrever já eram sete horas. A noite esconde segredos talvez jamais revelados. Ela é ao mesmo tempo inocente e maliciosa, explícita e misteriosa, calma e eufórica, silenciosa e barulhenta, efêmera e eterna. Tudo depende de como recebe-la. Ao escurecer as mulheres ficam ainda mais sensuais, seus medos desaparecem e seus desejos explodem como um vulcão em erupção. Viviane, na sala, assistia a uma telenovela. Por telefone pedi uma pizza para jantarmos, fui na cozinha e peguei duas cervejas em lata que estavam no frízer. A pizza chegou meia-hora depois no baú de uma motocicleta, veio também uma garrafa de refrigerante de dois litros. Comemos a pizza e tomamos o refrigerante, depois fomos jogar cartas. "O que é que você faz?". Viviane tirou toda a sua roupa, em seguida deitou-se no sofá. Seu braço direito apoiado em uma das almofadas, a mão esquerda cobrindo o púbis e os longos cabelos pretos, soltos, espalhados, projetavam seu corpo adolescente com a mesma beleza e volúpia da Vênus de Urbino. O cheiro do seu sexo me entorpecia, inundava meus poros, acelerava meus batimentos, meu pênis enchia-se de sangue e de vigor, seu cheiro de fêmea exaltava a minha masculinidade. Ela tinha um gosto levemente salgado, minha língua se queimava nos seus grandes lábios, quando entrei nela explodi num gozo incontrolável. Nossos corpos permaneceram juntos, encaixados, eu precisava estar nela e ela precisava me sentir nela. Adormeci abraçado a Viviane no sofá da sala. Naquela noite tive um pesadelo horrendo. Sonhei que estava entrando na cidade de Tebas, na Grécia antiga, numa noite bastante fria. Na entrada fui interpelado por um monstro imenso com cabeça e tronco de mulher, corpo de leão e asas de ave. Estava agachado sobre uma rocha. Pôs sua asa direita barrando minha entrada, havia ódio em seu olhar, seu rosto não era estranho, seus olhos estavam vermelhos como fogo, quando olhei pros seus seios, vi os seios de Viviane. Era Viviane. Fitou-me com os seus olhos vermelhos escorrendo lágrimas de sangue. Um rugido quase que inaudível saiu de sua boca, ela tinha mandíbulas cavernosas e ensangüentadas no lugar dos dentes: "Decifra-me ou te devoro". Acordei sobressaltado. Viviane não estava mais no sofá. Procurei por ela no apartamento, mas não a encontrei. Como já passava das quatro da manhã resolvi ficar acordado. Às seis horas tomei café, depois saí para minha caminhada matinal. Ao retornar, depois das oito, encontro o prédio cercado por policiais, repórteres, uma ambulância e um rabecão. Seu Silva estava encostado a um carro fumando um cigarro que tremia entre seus dedos. Havia uma expressão de horror em seu rosto. Ele me contou que os moradores do 502, um pastor evangélico, dono de seis templos em bairros periféricos, e sua esposa, foram mortos com dezesseis facadas cada um e depois tiveram seus pescoços cortados. A filha única deles de dezesseis anos, que estava desaparecida desde a manhã do dia anterior, foi a autora do duplo homicídio seguido de suicídio. Depois que matou os pais, a jovem se enforcou com lençóis no seu quarto. Eu fiquei estarrecido com o que ouvi. Após me identificar como morador, foi permitido que eu subisse direto ao meu andar. No elevador havia vários rostos assustados. Não saí mais de casa naquele dia. À noite dei uma olhada no site de um jornal local na internet. A página policial noticiava a tragédia. O quarto de Viviane foi fotografado, mas seu corpo já havia sido retirado. Na parede estava escrito com grandes letras de sangue: "Decifra-me ou te devoro".
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