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Beleza Roubada Imprimir E-mail
Escrito por Alexon Oliveira   

O telefone tocou desesperadamente naquela madrugada, eu não sabia que horas eram, mas sabia que era madrugada. A metrópole adormecia lentamente ao balançar nauseabundo das ondas do mar que lhe banhava a costa e muitos dos carros que agoniadamente se definhavam nas avenidas e ruas algumas horas antes estavam naquele momento estacionados n'algum lugar. Era uma segunda-feira. Não atendi. Passados exatos trinta segundos, o estridente barulho da campainha do telefone voltou a soar com a mesma aflição anterior. O aparelho ficava sobre a mesa de cabeceira ao lado da minha cama, bastava estender a mão para alcança-lo. Fui me deitar antes da meia-noite, liguei a luz do abajur para ver as horas. O relógio-despertador marcava 3:00 AM. Finalmente tirei o fone do gancho. Quem estava do outro lado da linha esperou que eu falasse primeiro.

"Alô?".

"Hello?".

"Quem está falando?".

"This is Willem".

Embora fosse holandês, Willem tinha um sotaque acentuadamente britânico ao falar inglês.

"Willem, what happened?".

Nossa conversa seguiu-se em inglês.

"Desculpa ligar pra você uma hora dessas, mas eu preciso te ver agora, é urgente. Vou passar na tua casa em trinta minutos. É urgente".

Antes que eu pudesse dizer uma única palavra, ele bateu o telefone, deixando-me numa ansiosa expectativa. Conheci o Willem nos tempos de faculdade. Ele fazia parte dum programa de intercâmbio entre estudantes brasileiros e europeus promovido pelo Ministério da Educação e Cultura. Era um homem alto, corpo bem projetado para sua altura, cabelos louros e olhos claros, vestia-se sempre com elegância, o que chamava a atenção de muitas de nossas colegas. Estudava Artes Plásticas e tinha um interesse especial pelas obras renascentistas. Nos tornamos amigos e através dele conheci Isabelle, uma linda francesinha de apenas dezoito anos com quem tive um relacionamento mais sexual do que afetivo. Repentinamente Willem sumiu, antes mesmo de terminar o programa de intercâmbio. Ninguém mais teve notícias suas. Isso aconteceu há dez anos. Quando me formei, passei um ano com Isabelle na França e depois voltei ao Brasil. O olhar seco e realista com o qual eu vejo o mundo afastou-me pouco a pouco das pessoas. Tornei-me um pessimista, frio e isolado. Na minha infância conheci uma senhora que morava numa casa em frente a da minha família. Ela não tinha parentes, nem amigos. Morava sozinha com seus animais de estimação. Sua casa parecia um zoológico. Havia cães, gatos, coelhos, preás, jabutis e pássaros de várias espécies. Todos vivendo harmoniosamente. Da janela do meu quarto eu olhava a perfeita união entre os diferentes animais que habitavam sua residência. Até mesmo inimigos mortais como cães e gatos comiam no mesmo prato. Certa vez, lembro-me como se fosso hoje, ela convidou-me pra ver seus animais de perto, já que notara meu interesse ou curiosidade por eles. Ela não parecia ser infeliz e sozinha como a maioria das pessoas e como eu imaginei que ela fosse. Os meninos da vizinhança chamavam-na de bruxa e diziam que ela fazia feitiçaria usando sapos e os bichos que criava. Apontando para os animais disse-me que eles eram seus únicos e verdadeiros amigos. Acrescentou que preferia a companhia deles que a de qualquer ser humano. Confesso que essa afirmação, soando como um desabafo, deixou-me de algum modo escandalizado. A minha mente imatura não conseguiu compreende-la naquela época, hoje, compartilho sua opinião. Sinto um asco, uma ojeriza pela humanidade, não gosto de gente. As velhas amizades já foram todas esquecidas e não pretendo fazer novos amigos. Meu contato com o ser humano resume-se a minha família, meus personagens e algumas mulheres que entram e saem da minha vida sem deixar marcas. Apenas sexo. Nada mais. Alguns dizem que sou um escritor louco e medíocre, que a qualquer momento vou cometer suicídio. Não me importa o que os outros falam a meu respeito, há muito tempo ignoro o que as pessoas dizem. São todos um bando de vermes desesperados por um utópico lugar ao sol. Vivem à sombra de uma falsa realidade pateticamente criada e tantas vezes recriada para a manutenção de um mundo onde todos são meros coadjuvantes de uma vida que nunca viveram de fato. Deixei a casa dos meus pais - contra a vontade deles - assim que passei no vestibular, indo morar num belo apartamento perto da praia que eles haviam comprado alguns meses antes. Nessa época eu tocava guitarra numa banda de rock, a qual abandonei assim que me formei para ir trabalhar num emprego chato e burocrático. Três anos depois sofri um acidente de carro que me deixou hospitalizado por seis longos meses. Pensei que iria morrer ou ficar inválido pelo resto da vida, mas a sorte ou sei lá o que estava do meu lado. Tendo recebido alta passei um ano na casa dos meus pais me recuperando do acidente, depois voltei pro meu apartamento. O acidente não me deixou seqüelas, além do trauma de dirigir, e ainda consegui me aposentar bastante jovem. Dediquei o tempo livre que me restou para escrever. Inesperadamente, Willem me liga. O que ele queria? O que haveria de tão importante que o fizesse me ligar no meio da madrugada após dez anos sem dar notícias? Precisava beber algo enquanto o esperava, era uma forma de diminuir a ansiedade que eu estava sentindo. Na sala preparei uma dose de Cavalo Branco sem gelo e fui até a janela observar o movimento na rua. O uísque descia rasgando minha garganta como se estivesse limpando um caminho pedregoso, causando em mim uma sensação de alívio e conforto. Quando estive na Europa, fui também à Escócia, maior produtor de uísque do mundo. Aproveitei a oportunidade e visitei uma destilaria em Edimburgo onde conheci um pouco do processo de produção dessa bebida e de sua história. É provável que a destilação do uísque tenha começado na Irlanda nos séculos XI ou XII, porém na China a destilação da cerveja de arroz (saquê) já era praticada no ano 800 a.C., o que na Europa era pouco provável antes do século X. O uísque é destilado da cerveja ou de outro malte similar através da fermentação de cereais, apresentando um teor alcoólico de 40% a 50% cada volume. Há dois tipos básicos de uísque: o uísque de puro malte com sabor intenso e personalidade, e o uísque misturado (blended), que pode originar-se de várias destilarias, diferentes tipos de grãos e métodos diversos de destilação, por sua vez suave e sedoso. A noite estava quente, mas uma brisa com cheiro de mar acariciava meu rosto cansado, a barba ainda para fazer. O brilho das estrelas no céu chamou minha atenção, há muito tempo eu não olhava as estrelas. Algumas delas não estavam mais lá, já haviam morrido há séculos ou milênios, mas seu brilho pomposo permanecia. Pareciam dançar sinuosamente sob o atento olhar de um voyeur perdido na noite. Eu era um voyeur. Todo ser humano é um voyeur. A lua, entretanto, naquela noite, apresentava um brilho furtivo escondendo-se por trás das estrelas. Na rua o silêncio imperava, poucos carros cortavam a avenida, nenhum transeunte. Uma luz é acesa num apartamento em frente ao meu, a larga e comprida avenida separa nossos prédios, vejo a silhueta de uma mulher atrás das cortinas. Depois um homem. Beijam-se. Ela afasta as cortinas, a janela estava aberta. Um táxi pára em frente ao prédio onde moro acordando-me do voyeurismo inerente a natureza humana. Um homem carregando uma espécie de moldura salta do táxi e se dirige a portaria. O táxi o espera. Não tive dúvidas de que aquele homem era Willem, embora não visse o seu rosto. O interfone toca, o porteiro avisa que um gringo quer subir ao meu apartamento. Digo-lhe que o deixe subir. Vou para janela e não vejo mais o táxi. Em menos de um minuto Willem chega ao décimo andar, a campainha é tocada, pelo olho mágico vejo seu rosto. Não mudara muito, mas parecia bastante ansioso. Carregava uma pasta de couro preta usada para guardar quadros. Vestia um sobretudo preto e uma boina marrom que lhe dava a aparência de um gangster. Imaginei o calor que ele deveria estar sentindo por baixo daquele sobretudo. Ao abrir a porta do apartamento Willem se lançou para dentro num movimento impetuoso como se estivesse fugindo de alguém.

"Willem, it's been ten years, where have you been man? What happened?

Nosso diálogo correu mais uma vez em inglês.

"Há mais alguém aqui além de você?".

"Não".

"É uma longa história. Você é o único amigo que tenho no Brasil, preciso da sua ajuda".

"Como você soube que eu ainda morava aqui e estava com o mesmo número telefônico?".

"Eu tive que correr o risco. Preciso que você guarde uma coisa para mim".

"O que você quer que eu guarde?".

"Por favor, não posso dizer no momento".

"Então, sinto muito Willem. Se eu não souber do que se trata, nada feito".

Ele hesitou alguns segundos em silêncio.

"Tudo bem, vou te mostrar, mas não deixe que ninguém, sob hipótese alguma, veja isso. Coloque no lugar mais seguro que houver. Quando tudo estiver pronto, você será recompensado".

Willem foi até a janela que dava para a avenida e a fechou cuidadosamente, puxou as cortinas para que ficassem juntas e para que nenhum olhar voyeur nos espionasse. Foi até a porta certificar-se de estava realmente trancada. Depois se voltando para mim, solenemente, abriu a pasta. Eu fiquei atônito com a visão magnífica que tive. Todo esplendor e grandeza da Arte Renascentista estavam a minha frente. Nem mesmo no Louvre senti tamanha emoção. Tempera on canvas 172.5 x 278.5 cm (67 7/8 x 109 5/8 in.). O ar melancólico, a elegância nos traços e a expressividade nas linhas de um dos maiores pintores do Renascimento Florentino se encontravam sobre o humilde sofá da minha sala de estar, roubando a cena com sua graça profana, exaltando a beleza e a sensualidade do nascimento da Afrodite Romana, a mulher de Vulcano e mãe de Cupido. Sim, era a Vênus exalando seu perfume. A Vênus de Botticelli. O Nascimento da Vênus.

"Willem, como você conseguiu o quadro?".

"É original. Foi pintado por Sandro Botticelli em 1485".

"Eu sei que é original, nenhuma falsificação apresenta tal graciosidade. Quero saber como você o conseguiu?".

Willem contou-me que a pintura havia sido retirada a uma semana da Galeria dos Uffizi, em Florença, por uma quadrilha especializada em roubo de obras de arte que age na Europa e Ásia. Entre os bandidos estavam envolvidos altos funcionários do Parlamento Europeu. Ele era uma espécie de mula, encarregado de levar as mercadorias roubadas para receptores no Oriente Médio e Leste Europeu. O roubo da Vênus foi encomendado por um empresário árabe dono de um vasto patrimônio que incluía poços de petróleo e companhias aéreas. A mercadoria lhe foi entregue em Marsala, na Sicília. De lá ele pegou um barco que o levou a Cartago, cidade criada pelos Fenícios e localizada na costa setentrional da Tunísia. Havia um vôo reservado em seu nome naquela cidade que o levaria a Riad, capital da Arábia Saudita, onde se encontraria com um intermediário do pagador do quadro. A negociação seria feita no aeroporto de Riad, ele entregaria a Vênus e receberia a quantia de trinta milhões de dólares. Sem sair do aeroporto seguiria em outro vôo para Valletta, capital de Malta, e de Valletta partiria para Liège, na Bélgica, onde entregaria o dinheiro e receberia quinhentos mil dólares pelo trabalho. Willem, contudo, tinha outros planos. Ele poderia ficar com a Vênus para si, afinal idolatrava a Arte Renascentista e já ganhara uma fortuna com o contrabando. Mas dinheiro nunca é demais. Às vezes supera o amor a arte. Tornara-se um fino ladrão e pela qualidade e eficiência dos seus trabalhos adquirira uma fama internacional. Entretanto raras pessoas conheciam o seu rosto. Um bilionário chileno, herdeiro de uma das maiores fortunas do mundo e profundamente apaixonado pela obra de Botticeli, entrou em contato com Willem através de um e-mail que ele dispusera para seus trabalhos. O bilionário identificara-se como "The Latin Fox". Fez-lhe, então, uma proposta melhor. Pagaria cinqüenta milhões de dólares pelo quadro de um dos maiores pintores do Renascimento Italiano. Willem não tinha acesso direto às obras nas galerias e museus, mas era a mula mais confiável e eficiente, soubera da encomenda do empresário saudita e sabia que seria chamado para executar a missão. Aquela era a oportunidade de dar o golpe de mestre. Receberia sozinho cinqüenta milhões de dólares. Mas também sabia que passaria o resto da vida fugindo de assassinos. De Cartago, Willem pegou um vôo para Winnipeg no Canadá usando um passaporte húngaro. Deixou Winnipeg três horas depois de desembarcar, viajando com outro passaporte, dessa vez inglês, para Acapulco no México onde passou uma noite. No dia seguinte, partiu num vôo que o levou a Montevidéu, no Uruguai. Num ônibus viajou da capital uruguaia até Rivera, cidade que faz fronteira com o Brasil, atravessou a fronteira e em outro ônibus, já em território brasileiro, seguiu viagem a Porto Alegre. No início dessa noite desembarcava no aeroporto internacional Dois de Julho, em Salvador. Local escolhido por The Latin Fox para a negociação. Agora se chamava Ronald Collins, 29 anos, natural de Perth, Austrália. Entrara no Brasil com passaporte australiano. Antes de sair, o dia quase amanhecendo, Willem me pediu para chamar um táxi e depois de assegurar-se que o quadro estava realmente protegido num fundo falso do guarda-roupa em meu quarto, fez-me uma série de recomendações que me entediaram pela temerosidade e aflição de suas palavras, mas, em momento algum, ele demonstrava arrependimento. Por fim, disse que me telefonaria em dois dias e saiu. A mim restava admirar aquela beleza roubada enquanto estivesse em meu poder. Tirei a Vênus do lugar que a pusemos minutos antes, coloquei o quadro sobre a cama, encostado a cabeceira, e pus-me a solitária veneração de um amante do Renascimento. Alessandro di Mariani Filipepi, apelidado de Botticelli, palavra que deriva de Botticello (pequeno barril em italiano) foi um dos mais grandiosos pintores italianos. Nascido em Florença em 1444 e aí falecido em 1511. De origem pobre, aos 26 anos já com atelier próprio foi colocado sob a proteção do poderoso Lorenzo de Médicis (o Magnífico), sob as ordens de quem trabalhou no Campo Santo de Pisa, nas obras da Capela Sixtina no Vaticano, entre outros. Até completar 46 anos ele foi protagonista de uma frenética veneração do mundo clássico com suas idéias neoplatônicas. Em 1490, sob a influência do padre dominicano Girolamo Savonarola, entra em crise religiosa, que coincide com a expulsão dos Médicis e uma acusação de sodomia (jamais comprovada, mas que o fêz sofrer muito). Savonarola era o Superior do Convento de São Marcos e, depois de excomungado pelo Papa Alexandre VI, foi queimado pela heresia de propor uma constituição meio teocrática, meio democrática para Florença. Botticelli terminou os seus dias em completa pobreza, fazendo trabalhos menores. Contudo, com ele, a pintura atingira o seu apogeu no século XV, o momento de equilíbrio máximo e completa beleza. Uma sala da Galeria dos Uffizi guarda seus quadros mais famosos como A Primavera, Virgem no Trono, Anjos e Santos, O Retorno de Judith , Anunciação e, entre eles, O Nascimento da Vênus que naquele instante se encontrava sobre a minha cama. O Nascimento da Vênus foi pintado num momento máximo da carreira de Botticelli. A peça mostra uma Vênus inocente, deusa da beleza e do amor, em pé numa concha surgindo num mundo novo para ela. O vento sopra na direção do litoral onde Flora, deusa das flores, a espera para saudá-la. Vênus com seu sorriso delicado, olhar sereno, corpo nu e púbis coberto pelos seus longos cabelos carrega em si uma beleza incomum onde detalhes naturais são projetados com cores vivas e brilhantes, ao mesmo tempo tímida e majestosa. Embora seu corpo se mostre nu, seu rosto absorve toda magnitude de sentimentos e emoções. É simplesmente, tão divinamente humana quanto humanamente divina. Adormeci numa poltrona que eu coloquei em frente a cama sob o encantamento da Vênus de Botticelli e acordei com o barulho estridente do telefone. Os ponteiros do relógio-despertador, que eu nunca usava, marcavam 1:00 PM. Levantei-me com uma desagradável dor nas costas para atender ao telefone. A voz rouca de Tatiana estava por trás da linha em meio a um barulho ensurdecedor.

"Onde você está?".

"Tô no shopping. Vou passar na tua casa agora. Me espera, tchau".

Coloquei a Vênus de volta ao fundo falso do guarda-roupa, dentro de sua pasta. Não queria que Tatiana a visse. Sei que ela guardaria segredo, no entanto qualquer deslize traria graves problemas, não só pro Willem, mas também pra nós dois. Onde Willem estava uma hora daquelas? Será que já entrara em contato com The Latin Fox? Perdi-me imaginando quantas emoções ele vivera ao longo desses dez anos. Minhas aventuras limitavam-se a vida dos personagens por mim criados e que eu não ousava tirar do papel e incorporar a minha realidade. A porta do apartamento se abriu. Eu estava no banho. Era a Tatiana, apesar de não morar comigo, ela tinha a chave do meu apartamento, o que a fazia pensar ter também a chave da minha vida. Do banheiro a ouvi chamar meu nome, como não respondi de imediato, veio a minha procura. Não foi difícil me encontrar, o barulho da água caindo do chuveiro era audível até no elevador.

"Ha, ha, tá se escondendo de mim, hein gato fujão! Não escutou eu te chamar?".

Tatiana abriu a porta do box e como se estivesse com o corpo em chamas foi tirando a roupa. Já despida entrou no minúsculo box onde mal cabia uma pessoa. Meu pênis não demorou muito em ficar ereto, a visão do seu corpo nu me entorpecia de tesão, confesso que isso me causava uma sensação de desconforto, pois sabia que o sexo era uma arma forte que ela tinha contra mim. Seu corpo era delicadamente bem feito, pele clarinha com um bronzeado discreto, olhos verdes, boca carnuda, seios pequenos, mas não muito, barriga magrinha, bunda média e bem definida, vagina carnuda com os pêlos aparados em triângulo, clitóris pequeno. Seus cabelos eram castanhos claros, com cachinhos que se tornavam mais ondulares à medida que alcançavam suas nádegas macias. Começamos a foder no box, consumando o ato sexual no carpete do quarto. Toda vez que terminávamos uma transa, Tatiana acendia um cigarro, fumava até a metade e depois transávamos de novo. Quando a conheci ela era apenas uma garotinha boba de catorze anos cheia de pudores e preconceitos, hoje, aos dezenove se transformara numa pantera sexual capaz de ensinar a qualquer trintão como eu. Ficamos juntos sete meses, ela perdeu a virgindade comigo, depois nos afastamos, ou melhor, eu me afastei dela. Fiz isso pelo bem dela, não que o que eu quisesse fosse apenas desvirgina-la e cair fora, o sexo foi ela mesma quem pediu. Afastei-me porque ela estava muito apegada a mim, o que conseqüentemente traria frutos negativos para sua vida certinha, já que a minha era totalmente incerta. Nos reencontramos há um ano. Mais amadurecida, ela compreendeu minha atitude na época. Contou-me as aventuras, namoros e paixões que viveu depois que nos separamos. Hoje vivemos um novo relacionamento, mais aberto e não menos incerto, porém consciente por ambos da efemeridade das paixões. Não estamos presos aos moldes burgo-puritanos de fidelidade, pudor e sexo moderado. Ao contrário, nos entregamos ao oceano insaciável das paixões, ainda que fugazes, mas incendiáveis e livres. Nada falei com a Tatiana a respeito da Vênus. Willem ainda não telefonara, o prazo de dois dias que ele havia dado para me ligar ainda não chegara ao fim. Por um lado, era estranho o fato de não terem noticiado nos jornais o roubo da Vênus, por outro, era lógico. Se a notícia fosse espalhada, as investigações seriam prejudicadas, deixando os bandidos, nesse caso Willem e os contrabandistas que ele trapaceou, em alerta e ciente das movimentações da polícia internacional a fim de recupera-la. O carnaval, praticamente, já havia começado. Em Salvador, o maior carnaval do mundo sempre se inicia com um show de grupos de axé ou pagode n'algum clube, no sábado anterior a lavagem do Porto da Barra, que, por sua vez, acontece na quarta-feira seguinte. Blocos alternativos desfilam no circuito Barra-Ondina na quarta e quinta-feira, na sexta e no sábado desfilam outros blocos alternativos, porém o circuito aumenta e vai do bairro de Ondina à Praça Castro Alves. Do domingo à terça-feira é a vez dos blocos tradicionais. Desfilam pelas avenidas, de parte da orla ao centro, blocos tidos como de elite, onde o preconceito racial é visível; blocos mais simples e blocos afros também fazem o mesmo trajeto, alguns desses últimos dão o troco não permitindo que brancos se afiliem. É um absurdo coisas desse tipo aconteceram na cidade mais miscigenada do Brasil. O carnaval prossegue até o meio-dia da Quarta-feira de Cinzas, contrariando o dia sagrado dos Cristãos Católicos, que nesse dia iniciam o tempo de penitência da Quaresma. Por ocasião do carnaval milhares de turistas vindos de várias partes do Brasil e, principalmente, do exterior enchem os hotéis, pousadas e resorts da cidade e arredores; alugam casas e apartamentos na orla e centro, lugares preferidos por eles por estar mais perto da folia. A cidade se torna cosmopolita por alguns meses, os primeiros reflexos surgem no início do mês de dezembro e vão até o final de março. Há uma diversidade de sotaques evidenciando brasileiros de diversos estados e regiões bem como portugueses e outros povos do mundo lusófono. Outras línguas também são faladas nos bares, restaurantes, pizzarias, churrascarias, boates, praias e ruas, do inglês cotidianamente imposto em nosso dia-a-dia ao exótico japonês. Pessoas de várias raças e etnias se misturam aos típicos estereótipos dos baianos. Novos amores surgem quando outros são desfeitos para se refazerem, quem sabe, quando o carnaval passar. Só então em abril, Salvador volta a sua normalidade tradicionalista enraizada nos costumes afro-europeus. No entanto, sempre fica um pouco de tudo que aconteceu à margem da Baia de Todos os Santos, fica um pouco do sotaque do outro, do idioma do outro, de suas gírias, seu modo de vestir, falar e gesticular, fica um pouco de amor, um pouco de ódio, um pouco de saudade e um fio de esperança. Fica também doenças, violência e marcas que o tempo jamais apagará. E fica a vontade de fazer tudo de novo no próximo ano. No carnaval a distância entre pobres e ricos se torna ainda mais evidente. Os blocos padronizados garantem um carnaval de rua com conforto e segurança para aqueles que podem pagar, separando através de cordas e seguranças agressivos o folião dos blocos e o folião de rua, chamado de folião "pipoca". O espaço público é indevidamente tomado pelos blocos com seus trios elétricos. Ao folião pipoca resta o aperto e desconforto da calçada, contando ainda com a truculência, arbitrariedade e violência da polícia militar. Os nojentos burgueses do mercado de turismo lucram somas exorbitantes às custas de desempregados explorados em trabalhos temporários, com seus direitos trabalhistas usurpados. Os dois dias se passaram, trios elétricos com seus longos blocos movimentam-se no circuito Barra-Ondina e nada de Willem. Não telefonou como havia dito. Nem poderia. Tatiana, que como eu não gosta de carnaval, uma raridade entre as jovens soteropolitanas, me chama da sala, alias, grita meu nome. Eu tava no quarto olhando para a noite estrelada e ansioso por receber notícias do Willem. Vou até a sala. O jornal local noticiava a invasão de uma pousada na Barra por ladrões fortemente armados e o assassinato de um turista australiano de nome Ronald Collins, 29 anos e natural de Perth, cidade situada no sudoeste da Austrália e capital da Austrália Ocidental. Quatro homens, aparentemente estrangeiros, entraram na pousada localizada na rua Princesa Isabel, renderam três hospedes que estavam no saguão, a recepcionista, o mensageiro, a camareira, a cozinheira e o segurança. Todos foram colocados num dos quartos. Em seguida, os assassinos foram até a suíte 902, onde estava Willem. Ele foi entupido de balas e teve o rosto totalmente desfigurado com tiros disparados de uma metralhadora HK de fabricação alemã. Nada foi roubado. A polícia federal se encarregou de presidir as investigações. Os assassinos não deixaram nenhuma pista e ninguém na rua, nem nos arredores, ouviu os tiros. Corri pro quarto e pus-me desesperadamente a arrumar minhas malas, não sei quanto tempo eu iria passar fora, talvez nunca mais voltasse. Quem matou Willem viria atrás de mim. Eu não ficaria ali esperando a morte chegar.

"Por que você está fazendo as malas? Foi aquela notícia que te deixou assim?".

"Tatiana, eu tô metido na maior roubada. Não posso ficar nem mais um minuto aqui".

"O que aconteceu?".

"Eu não quero te envolver nessa história".

"Você tem algum envolvimento com a morte desse gringo? Você nem saiu de casa".

"Volta para a casa dos seus pais... eles vão vir aqui".

"Eles quem?".

"Tatiana, eu já disse que não quero te envolver".

"Eu vou com você. Bem que eu notei seu comportamento estranho, tava andando muito ansioso e calado nesses últimos dias".

"Você é maluca, é melhor voltar para a casa dos seus pais".

"Já disse que vou com você".

Saímos de casa num táxi antes das oito da noite e fomos direto à estação rodoviária, lá pegamos um ônibus que nos levou à cidade de Feira de Santana. Assim que chegamos à rodoviária de Feria, compramos passagens para Vitória da Conquista, cidade do centro-sul baiano. O ônibus só sairia às cinco da manhã, ficamos na rodoviária esperando o tempo passar. Finalmente, saímos as cinco em ponto, ainda era noite por causa do horário de verão, havia poucos passageiros. Chegamos em Vitória da Conquista por volta de duas da tarde, na rodoviária compramos passagens para Itatiaia, no estado do Rio de Janeiro. O ônibus saiu no início da noite. Há doze anos estive com alguns colegas de faculdade, que como eu fugiam do carnaval soteropolitano e buscavam a tranqüilidade dos árcades, numa pousada afastada da zona urbana de Itatiaia e próxima ao primeiro parque nacional brasileiro que tem o mesmo nome da cidade. Uma região paradisíaca cercada de montanhas e com uma imensidão de belezas poeticamente desenhadas pelas linhas finas da natureza. Lá não é permitido o uso de aparelhos eletrônicos. Meu notebook veio escondido na bagagem. Mantive contato com meus pais que me relataram o seguinte episódio noticiado pelos jornais: Um empresário chileno de férias em Salvador havia sido seqüestrado pelos mesmos bandidos que mataram o turista australiano que, na verdade, não era australiano e sim holandês e chamava-se Willem van Jordan. O empresário foi mantido em cativeiro até o término do carnaval, quando a Polícia Federal brasileira, com apoio das Polícias Civil e Militar baiana, estouraram o cativeiro localizado numa casa de praia em Guarajuba, litoral norte da Bahia. A quadrilha a qual Willem também fazia parte, duas semanas antes, roubara um quadro da Galeria dos Uffizi, em Florença, na Itália. O quadro pertencia ao pintor italiano Sandro Botticelli e fora pintado no século XV, sendo considerado uma das maiores obras da Arte Renascentista. O roubo havia sido encomendado pelo empresário chileno, então, Willem adiantou-se e acertou tudo com o empresário a fim de receber sozinho cinqüenta milhões de dólares pela peça, passando para trás seus comparsas. Autoridades italianas vieram a Salvador interrogar o empresário chileno e os integrantes da quadrilha que mataram Willem. Não conseguiram provar a participação do empresário como receptador do roubo, porém autuaram os bandidos por formação de quadrilha, roubo de obras de arte, seqüestro, homicídio doloso, roubo e receptação de armas, entre outros crimes que fazem inveja a qualquer velho ladrão de banco. A Vênus, segundo a imprensa a partir de informações obtidas por autoridades brasileiras e italianas, foi recuperada, estava escondida na casa de praia que a quadrilha alugara para fazer de cativeiro. O mundo da arte recuperara sua preciosidade. Grande mentira. Mais uma vez eles estavam guardando informações a fim de chegar ao quadro. Arrumei um jeito de esconder a Vênus num lugar onde ninguém a encontraria, nem mesmo Tatiana. Para ela inventei outra estória, mas nada que indicasse que a Vênus estava comigo. Aluguei uma casa em Resende, no estado do Rio, e morei lá com a Tatiana por cinco anos. Nesse tempo escrevi dois romances e um livro de contos. Voltamos para Salvador após esses cinco anos, compramos uma casa e meus pais alugaram o apartamento onde eu morava anteriormente. Já superei o trauma de dirigir, comprei um carro e a pouco terminei meu novo romance que já está em via de publicação. Tatiana e eu tivemos nosso primeiro filho, chama-se Sandro em homenagem a Botticelli, após seu nascimento nós decidimos nos casar. Há alguns meses viajamos à Europa, visitamos vários museus e galerias de arte. Estivemos em Florença, na Itália, e visitamos a Galeria dos Uffizi. A Vênus estava lá protegida numa redoma de vidros a prova de bala. Uma bela falsificação. As autoridades italianas não poderiam dar esse desgosto a humanidade e mostrar sua ineficiência. Melhor conviver com a dor do que com a desmoralização. Já estavam tão acostumados que se enganavam com a própria mentira. Na ocasião em que visitamos a Galeria dos Uffizi, Tatiana demonstrou um surpreendente fascínio pela Vênus.

"Essa sim é uma obra de arte, não aquela falsificação que nós temos em nosso quarto".

 

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