Norman Povhoretz – Os ignorantes boêmios

Norman Povhoretz – Os ignorantes boêmios

de Geração Beat – Antologia
Org. por Seymour Krim
Editora Brasiliense, 1968.

O pequeno livro de poesias de Allen Ginsberg, intitulado “Howl”, que provocou gritos de alegria entre os jovens escritores de São Francisco, há cerca de um ou dois anos atrás, era dedicado aos seguintes autores: Jack Kerouac ( “o novo Buda da prosa norte-americana que deu uma ampla exibição de inteligência em onze livros escritos na metade do número de anos. ..criando uma prosódia bop espontânea e uma literatura clássica original”) William Seward Burroughs (“autor do livro “Naked Lunch”, um romance interminável que vai deixar todo mundo louco” ) e Neal Cassady ( “autor do romance “The First Third”, uma autobiografia. ..que esclareceu o Buda” ) . Até o presente momento, a saúde mental de todos foi poupada graças ao fato do livro “Naked Lunch” não ter encontrado um editor. Talvez não tenhamos também a oportunidade de saber o que o Buda aprendeu lendo a autobiografia de Neal Cassady, mas, graças às editoras Vicking e Grove, dois clássicos originais de Kerouac foram revelados ao mundo: os romances On The Road e The Subterraneans. Quando On The Road apareceu no ano passado, Gilbert Milstein comemorou o acontecimento no jornal New York Times, declarando tratar-se de uma “ocasião histórica” comparável à publicação do romance The Sun Also Rises, de Hemingway, em 1920. Antes mesmo do romance ser publicado, divulgou-se a notícia de que Kerouac era o porta-voz de um novo grupo de rebeldes e boêmios que se denominavam a si mesmos a geração beat; logo depois, seu rosto fotogênico ( de barba crescida, naturalmente, com os cabelos pretos e brilhantes caindo sobre a testa) foi reproduzido em várias revistas de grandes tiragens. Na mesma ocasião, Kerouac deu entrevistas a canais de televisão e foi apresentado em uma boate de Greenwich Village, em Nova Iorque, onde, à maneira de São Francisco, leu trechos de sua prosódia bop espontânea com o acompanhamento de uma música de jazz. Embora o programa na boate tenha sido um fracasso, seu livro On The Road vendeu o bastante para permanecer durante algumas semanas na lista dos best-sellers. 0 que não é de admirar. Os norte-americanos têm verdadeira mania de documentos representativos de um grupo ou de uma mentalidade, e não podia haver nada mais fascinante, em nossa Idade da Sociologia, do que um livro que se dizia o porta-voz da juventude. (O fato de Kerouac estar com cerca de trinta e cinco anos não entrou em cogitação) . Acredito além disso que o aparecimento da geração beat foi recebido com um suspiro de alívio por um público que se sentia importunado pela excessiva respeitabilidade e “maturidade” da literatura que surgiu depois da guerra. Em lugar dos magros, calvos e dignos autores que escreviam versos irônicos com uma das mãos enquanto com a outra trocavam a fralda do bebê, surgiu repentinamente uma juventude irrequieta, rebelde, cheia de vida. E por mais que a boêmia não seja especialmente apreciada em nossos dias, sua imagem exerce ainda uma poderosa fascinação, sobretudo nos bairros afastados e pobres onde vive uma população de homens e mulheres que não aceitam de bom grado sua condição social de conformistas, vendo na boêmia uma forma de heroísmo diante da vida. É essa, aliás, a idéia dominante do romance Marjorie Morningstar – convencer os jovens casais que residem nos subúrbios das grandes capitais que a condição deles é bem superior a dos habitantes aparentemente privilegiados de Greenwich Village, os denominados Luftmenschen ( folgados). O fato mesmo de Herman Wouk ter se esforçado tanto para tornar esta idéia convincente é uma boa indicação da descrença existente a respeito dela. À primeira vista, pelo menos, a atitude boêmia presente no romance On The Road é deveras atraente. Vemos um bando de jovens entusiastas cruzando o país em todas as direções (a maior parte das vezes pegando carona de carros e caminhões, outras vezes em seus próprios carros usados) , organizando festas “terríveis” em Nova Iorque, Denver e São Francisco, vivendo de pouquíssimo dinheiro (fundos educativos para filhos de combatentes, uma nota providencial de cinquenta dólares de uma tia generosa, biscates eventuais como datilógrafo, apanhador de fruta, guarda de estacionamento), conversando entusiaticamente sobre amor, Deus e salvação, fumando marijuana (mas nunca tomando heroína ou cocaína) , ouvindo em transe músicas de jazz tocadas em pequenos locais abarrotados de gente e dormindo, sem nenhum problema, com jovens lindas e disponíveis. Vez por outra há uma referência à melancolia e à tristeza, mas o clima característico de Kerouac é a de exuberância:

“Paramos um momento na estrada para comer alguma coisa. O cowboy foi ver se consertava a câmara de ar do pneu sobressalente, enquanto Eddie e eu nos sentamos para tomar nossa merenda. Foi quando ouvi uma enorme gargalhada, a maior gargalhada desse mundo e eis que me aparece um rústico fazendeiro dos velhos tempos do Nebraska acompanhado de um bando de rapazolas. Podia-se ouvir seus berros cristalinos e rudes atravessando o campo, atravessando toda aquela extensão de terra cinza que é o mundo deles. Todos eles em cero riam com o fazendeiro. Um tipo curioso, que não se preocupava com nada e tinha o maior respeito pelos outros. Pensei comigo, Puxa, veja como esse homem ri. Isso é o Oeste, eis-me no Oeste. Ele aproximou-se esfuziante, gritando por Maw, a mulher, que fazia as tortas mais deliciosas do Nebraska, e eu fui servido com uma fatia que tinha uma montanha de sorvete em cima. “Maw, vá me buscar alguma coisa para comer antes que eu coma as minha mãos ou faça alguma besteira parecida.” E ele sentou-se num banco enquanto gargalhava sem parar hahaha hahaha. “E ponha também uma colher de feijão no prato!” berrou ele para a mulher. Era o espírito do Oeste que estava sentado ao meu lado. Desejei conhecer sua vida inteira e saber o que mais ele fizera durante todos esses anos além de gritar e rir daquele jeito. Uh,Uh, exclamei comigo mesmo, e foi quando o cowboy voltou com o pneu e partimos em direção a Grand Island.”

O entusiasmo de Kerouac pelo fazendeiro do Nebraska faz parte de uma idéia sua segundo a qual a origem da vitalidade e das virtudes humanas encontra-se entre os indivíduos simples do campo e os grupos urbanos da classe pobre (negros, vadios e prostitutas ) .Segundo ele, a vida em Nova Iorque é a de

“milhões e milhões de pessoas que se agitam incessantemente às voltas com o dinheiro. ..agarrando, tomando, dando, suspirando, morrendo, até o momento de serem enterradas naqueles horrendos cemitérios que estão situados depois de Long Island”,

enquanto que o restante da América do Norte é povoado quase que exclusivamente pelos eleitos. Essa sua atitude tem muito em comum com uma superstição popular generalizada, se bem que por outros aspectos ela se assemelha à opinião de Nelson AIgren  segundo a qual os vadios, as prostitutas e os marginais viciados em drogas são gente mais interessante do que os funcionários de escritório ou os operários em geral. A diferença entre um e outro, está no fato de que Algren detesta a respeitabilidade da classe média por razões políticas e morais – a classe média explora e persegue os mais desfavorecidos – enquanto que Kerouac, que é inteiramente apolítico, parece acreditar que a respeitabilidade é um indício de morte espiritual e não de corrupção moral. “As únicas pessoas que contam para mim,” diz Sal Paradise, o narrador de On The Road, “são os loucos, os loucos pela vida, os loucos por uma conversa, os loucos para serem salvos, que desejam tudo ao mesmo tempo, os que nunca bocejam ou dizem alguma coisa banal, mas ardem, ardem, ardem à maneira de fabulosos fogos de artifício que explodem como aranhas coloridas por entre as estrelas…”. Essa tremenda ênfase na intensidade emocional, a afirmação de que o estado de euforia provocado por excitantes é a mais desejável de todas as condições humanas faz parte integrante da ideologia da geração beat, e a distingue radicalmente do espírito boêmio do passado. A boêmia de 1920 representava uma negação do provincialismo, do patriotismo. excessivo e da hipocrisia moral da vida norte­americana – vida essa que, de fato, era ainda, nas suas características culturais, a de uma pequena cidade do interior. A boêmia, por conseguinte, era um movimento criado em nome da civilização; seus ideais eram a inteligência, a cultura e os refinamentos espirituais da existência. A figura literária típica de 1920 era a do homem do centro-oeste (fosse ele Hemingway, Fitzgerald, Sinclair Lewis, Eliot, Pound) que havia fugido de sua cidade natal para Nova Iorque ou Paris em busca de uma forma de vida mais livre, mais expansiva e esclarecida do que era possível nos estados do Ohio, Minnesota ou Michigan. O radicalismo político que forneceu o clima característico do movimento boêmio de 1930 não alterou fundamentalmente o aspecto urbano e cosmopolita do de 1920. No que tinha de melhor, o radicalismo de 1930 estava marcado por uma profunda seriedade intelectual e seu objetivo era uma sociedade na qual os frutos da civilização seriam repartidos de forma mais equitativa por um número cada vez maior de pessoas – até que finalmente por todos. O espírito boêmio de 1950 é algo totalmente diverso. Ele é inimigo da civilização, adora o primitivismo, O instinto, a energia. o “sangue”. Seus raros aspectos intelectuais limitam-se a algumas doutrinas místicas, filosofias irracionais e à psicologia reichiana de esquerda. A única forma de arte que os novos boêmios praticam é o jazz, especialmente na sua variedade cool. A predileção que revelam pela linguagem bop é uma forma de demonstrar solidariedade com a primitiva vitalidade e espontaneidade que encontram no jazz. Desprezam, por isso, a linguagem coerente e racional, uma vez que, sendo um produto da mente, é segundo eles uma forma de morte. Ser racional é admitir que não se possui sentimento (pois como poderiam os sentimentos autênticos serem expressos por uma linguagem correta?), é confessar-se incapaz de maravilhar-se diante de tudo (Kerouac maravilha-se diante de tudo dizendo “Obal”), é admitir que se é provavelmente impotente. Em uma das extremidades da linha, esse frenesi transforma-se em violência e criminalidade, enquanto a parte central é dominada pelo vício de tóxicos e pela loucura. A poesia de Allen Ginsberg, com sua lúgubre orgia apocalíptica de “jovens boêmios com cabeças de anjo”, revela o lado mais sombrio do novo espírito boêmio. Kerouac é mais ameno. Ele não demonstra grande interesse pela violência. A criminalidade que admira é a do tipo inofensivo. O herói do romance On The Road, Dean Moriarty , possui uma curiosa folha corrida:

“Dos onze aos dezessete anos, ele passou a maior parte do tempo em reformatórios. Sua especialidade ­ era roubar automóveis, correr atrás de garotas que saíam das universidades à tarde, leva-Ias para lugares distantes, possuí-las e voltar para a cidade onde dormia em qualquer banheira de hotel”. A criminalidade de Dean, porém, como o autor nos confessa, “não era do tipo amarga ou revoltada; pelo contrário, era o resultado de um excesso de vitalidade, de uma alegria tlpicamente norte-americana, era bem oeste, como o vento oeste, uma ode às planícies americanas, algo novo, há muito profetizado, há muito esperado ( ele só roubava carros com a intenção de dar alegres passeios)”.

De fato, os boêmios que encontramos nos romances de Kerouac comportam-se geralmente dentro da lei. No romance The Subterraneans, um bando de rapazes embriagados rouba uma carrocinha durante a noite e deixam-na em frente ao edifício onde mora um conhecido deles. O narrador da história os critica severamente por “ameaçarem a tranquilidade do meu amigo”. Quando Sal Paradise (no romance On The Road) furta alguns alimentos da cozinha de um grupo de trabalhadores itinerantes, junto aos quais trabalhou algum tempo como guardador de barraca, o narrador comenta: “De repente me ocorreu que todo mundo na América nasce com espírito de ladrão” -O que é, evidentemente, uma maneira bem curiosa do autor desculpar o roubo cometido como sendo uma travessura de criança. Seja como for, Kerouac sente-se atraído pela criminalidade, o que nos parece um fenômeno mais significativo do que ele tentar pôr um freio nos seus impulsos destrutivos. O sexo ocupou sempre um lugar privilegiado na boêmia: fazer amor foi sempre uma das mais enfáticas demonstrações de liberdade boêmia frente ao convencionalismo dos padrões morais burgueses; isso inclui, naturalmente, a negação tácita do conceito social segundo o qual o sexo só é permitido no casamento e com a finalidade da procriação. Ao mesmo tempo, levar uma vida sexual “promíscua” correspondia a afirmar a validade da experiência sexual independente de quaisquer outros fatores. O “significado” do sexo para o espírito boêmio, por conseguinte, era ao mesmo tempo social e individual, um elemento básico na ideologia boêmia da civilização. Ainda uma vez, existe um contraste acentuado entre essa concepção anterior e a da atual geração beat. Os exemplos de atividade sexual ocorrem abundantemente nos dois romances de Kerouac, anteriormente citados. Dean Moriarty é uma “nova espécie de santo norte-americano” e isso em parte graças à sua prodigiosa vitalidade sexual: ele pode satisfazer a três mulheres simultaneamente e está sempre disposto para o amor (certa vez ele possuiu uma jovem no banco traseiro do carro enquanto o pobre Sal Paradise tentava dormir no banco da frente) .Sal, por outro lado, não fica atrás, e se bem que ele não seja sempre tão bem sucedido quanto o grande Dean, seu comportamento sexual é dos mais brilhantes. ocorre-me de memória uma aventura com uma jovem em Denver, com uma outra num ônibus e com uma terceira em Nova Iorque. Isso não quer dizer, evidentemente, que não ocorram outras muitas aventuras pelo livro afora. A heroína do romance The Subterraneans, uma jovem preta de nome Mardou Fox, troca frequentemente de parceiros dentro do mesmo grupo, voltando mais tarde ao primeiro ( “Esse grupo foi no seu tempo bastante incestuoso” ) , e o autor nos dá a entender que não há nada de muito inusitado nessas mudanças. O tema principal, porém, dessas situações sexuais não é afirmar uma maior liberdade frente às proibições sociais comuns ( exceto no que diz respeito à homossexualidade, prato favorito de Ginsberg: entre “os melhores espíritos” da geração de Ginsberg que foram destruídos pela América do Norte encontram-se aqueles “que se deixaram enrabar pelos sagrados motociclistas e gritavam de alegria, que amaram e foram amados por estes serafins humanos que são os marinheiros, carícias do Atlântico e do Mar de Caribe.” O sexo nos romances de Kerouac vem sempre acompanhado de conversas intermináveis a respeito de se criar laços permanentes de amizade (“Embora eu me sinta tremendamente atraído sexualmente por ela”, diz o poeta Adam Moorad no romance The Subterraneans,eu realmente não quero ir adiante com esse caso não apenas por essas razões mas sobretudo porque, e essa é a razão principal, se eu me envolver com uma mulher agora quero que a coisa seja real­mente permanente, séria e duradoura, e não estou em condições no momento para ter uma relação desse tipo com ela” ). Fora isso, os livros contam muitos casos de separações e uniões, e ocorrem tantos casamentos e divórcios no romance On The Road como nos meios cinematográficos de Hollywood. ( Talvez seja consequência do clima quente da Califórnia). Ouçam o que diz Sal Paradise: “Durante todos esses anos procurei a mulher com quem gostaria de casar. Não encontrava uma jovem sem pensar comigo: Que espécie de mulher ela será?” Mais interessante ainda é a recusa de Kerouac em admitir que um de seus personagens, qualquer que ele seja, faça amor de maneira devassa ou lasciva. Por mais casual que seja a aventura erótica, ela está sempre ligada a sentimentos de ternura em relação à mulher. Sal, por exemplo, tem um caso com Rita Bettencourt, em Denver. ele a havia conhecido pouco antes.

“Levei-a para meu quarto apôs uma longa conversa, no escuro, na sala da frente. Ela era uma jovem delicada, simples e verdadeira [evidentemente] e tremendamente assustada com relação ao sexo. Disse para ela que era lindo. Gostaria de provar isso a ela. Ela deixou, mas eu estava demasiado impaciente e não provei nada. Ela soluçava no escuro. “O que você espera da vida?” perguntei. Costumava fazer essa pergunta a todas as jovens que encontrava.”

Essa cena me parece bastante tocante. Sobretudo porque o narrador tem tanto medo do sexo quanto sua ingênua companheira. Ele tem medo de um fiasco e preocupa-se apreensivamente com seu desempenho. Isto porque o desempenho sexual é o alvo mirado – desempenho e bons orgasmos”. São estes os primeiros deveres do homem e as únicas obrigações da mulher. Tudo isso revela, como no caso citado, uma ansiedade sexual de proporções gigantescas – ansiedade essa que surge nitidamente no romance The Subterraneans, onde se narra a história de amor ocorrida entre o jovem escritor Leo Percepied e a jovem mulata Mardou Fox. Por mais que o autor afirme o contrário, o livro não é mais do que uma interminável agonia de medo e tremor sexual:

“Passei noites sem conta e horas sem fim preparando-a e finalmente aconteceu, rezei para que isso acontecesse, podia ouvi-la respirando mais forte, esperei contra a esperança que desta vez ela seria bem sucedida quando um ruído no corredor (ou uma algazarra de bêbedos no quarto pegado) distraiu-a, ela perdeu a vontade e riu para mim -mas quando ela conseguiu finalmente terminar, ouço-a soluçar, choramingar e o sobressalto provocado pelo orgasmo feminino intenso faz com que ela chore como uma criança, gemendo dentro da noite, até que quando tudo passa ela lamenta ” Ah por que não durou mais” e “Quando vamos terminar juntos?” -“Logo, logo, tenho certeza,” disse para ela, “estamos chegando cada vez mais perto”

Bem primitivo, bem espontâneo, bem elementar, bem beat. Para os novos boêmios, as amizades e os casos de amor entre raças representam aparentemente o mesmo papel de rebeldia social que o sexo representava nos círculos boêmios do passado. Os brancos e os pretos juntam-se livremente numa base de completa igualdade humana, sem nenhum vestígio de hostilidade racial. E há mais ainda: não somente o problema racial inexiste nestes encontros, como nota-se uma verdadeira adulação dirigida aos “pretos felizes, sinceros e ardentes da América”:

“No crepúseulo azulado caminhava com todos os músculos do corpo doloridos por entre as luzes das ruas Vinte e Sete e Welton, no bairro preto de Denver, desejando ser um preto, pensando que o melhor que o mundo dos brancos havia me oferecido não era bastante ardente para mim, não era bastante vida, alegria, emoções, música, não era bastante noite…Desejei ser um mexicano de Denver, ou mesmo um pobre japonês sobrecarregado de trabalho, tudo menos ser o que me fazia sentir tão amargurado, um “homem branco” desiludido. Durante minha vida inteira tivera ambições de branco.. .Passei em frente às casas dos mexicanos e dos pretos; vozes melodiosas se ouviam, vez por outra surgia, por uma porta entreaberta, o joelho castanho de uma jovem misteriosa e sensual. Por trás de roseiras apareciam os rostos escuros dos homens. Crianças pequenas estavam sentadas, como sábios, em velhas cadeiras de balanço.”

Os pretos devem ter ficado surpresos ao saber que são tão felizes e contemplativos. Não tenho conhecimento de uma outra pintura mais idílica da vida dos pretos desde a época em que certos ideologistas do sul tentaram convencer o mundo que a vida dos escravos, nas ‘antigas plantações, oferecia toda espécie de conforto e bem estar. De qualquer forma, o amor de Kerouac pelos pretos e outros grupos étnicos de cor está ligado à sua adoração por tudo que é primitivo; ele não decorre em absoluto de atitudes sociais radicais. Há, porém, uma curiosa ironia no fato dele considerar os pretos indivíduos mais primitivos do que os brancos, porquanto, como observou agudamente Ned Polsky, isso corresponde a “uma forma invertida de manter o preto no seu lugar.” Mas mesmo admitindo que os pretos norte-americanos, graças à posição que ocupam em nossa cultura, preservararn um certo grau de espontaneidade primitiva, o último lugar para se encontrar uma prova disso é entre os negros boêmios. A boêmia, antes de tudo, é a oportunidade para o preto entrar no mundo dos brancos, e nenhum preto boêmio gostaria de ser identificado com os pretos do Harlern ou da Dixieland. O único personagem preto importante nos dois romances de Kerouac é Mardou Fox, e ela é tão primitiva quanto o próprio Wilhelm Reich. A grande verdade é que o primitivismo da geração beat serve acima de tudo como pretexto para uma atitude tipicamente anti-intelectual. Diante desse sentimento tão amargo e revoltado, a repulsa que os norte-americanos manifestarn geralmente pelos intelectuais pedantes assume ares de delicadeza. É bem verdade que Kerouac e seus companheiros consideram-se intelectuais (“eles são tremendamente intelectuais, sabem tudo sobre Pound sem serem pretensiosos e não passam os dias falando a respeito disso” ) , mas essa declaração não passa de uma atitude. A prova aqui está: eis um exemplo verdadeiro do que Kerouac considera uma linguagem inteligente -“formal, brilhante e inteira, sem nenhuma tediosa intelectualidade”:

“Deixamos para trás na estrada um menininho que jogava pedras nos carros que passavam. “Veja isso,” disse Dean. “Um dia esse menino vai atirar uma pedra no parabrisa de um carro, o motorista vai sofrer um acidente e vai morrer – e tudo isso por causa desse gurizinho. Você percebe o que eu digo? Deus existe sem dúvida alguma. Enquanto viajamos nessa estrada estou absolutamente convencido de que tudo existe para nossa proteção – que mesmo você, guiando esse carro, preocupado com o volante…o carro conserva a direção por si mesmo e você não sairá da estrada, de forma que posso dormir sossegado. Além disso nós conhecemos a América, estamos em casa; posso ir em qualquer lugar da América e conseguir o que quiser porque em toda parte é sempre a mesma coisa, conheço as pessoas, sei o que elas fazem. Damos, recebemos e prosseguimos nosso caminho em meio a uma ternura incrivelmente complicada, ziguezagueando para todo os lados”.

O leitor entendeu que o autor quis dizer?  Ele é formal, brilhante e inteiro. Sem nenhuma tediosa intelectualidade; inteiramente despretensioso. “Não havia nenhuma clareza nas coisas que ele dizia mas o que pretendia dizer era de certa forma puro e claro.” De certa forma. Evidentemente. Se o que ele pretendia dizer houvesse sido cuidadosamente pensado ou precisamente expresso, o resultado teria sido cansativo e pretensioso e sem dúvida de certa forma obscuro e claramente impuro. Mas enquanto ele profere essas banalidades com sua voz de gago, sem prestar nenhuma importância ao significado que possam ter, atento unicamente aos ruídos que se originam na sua alma (uma vez que não podem ter se originado na sua mente) ,ele é aprovado nos testes da verdadeira intelectualidade.

Analisemos agora a prosódia espontânea bop de Kerouac. Essa prosódia não deve ser confundida com a própria linguagem bop que possui um vocabulário tão limitado (o Inglês Básico é um tesouro de palavras comparado com ela) que não daria para escrever um recado para o leiteiro, muito menos um romance. Kerouac, no entanto, permanece fiel ao espírito da gíria hipster , embora faça, de quando em quando, incursões em território inimigo ( isto é, na língua inglesa) , revelando uma total incapacidade de se comunicar normalmente por meio das palavras. Seu recurso habitual, quando necessita descrever alguma coisa, consiste em recorrer incansavelmente à mesma meia dúzia de adjetivos que conhece: “o máximo”, “tremendo”, “louco”, “doido”, “fantástico” e talvez mais um ou dois. Quando alguma coisa é mais do que simplesmente louca, doida ou fantástica, ela passa à categoria de “realmente louca”, “realmente doida” ou “realmente fantástica”. ( Todas as quantidades acima de três são definidas como “inumeráveis”, que é uma palavra usada “inumeráveis” vezes no seu romance On The Road, e não tão inumeravelmente no The Subterraneans ). A mesma pobreza de recursos toma-se evidente toda vez que Kerouac introduz uma situação que envolve sentimentos, mesmo quando não apresentam nenhuma complexidade especial. Sua tática usual consiste em esconder-se atrás de lugares comuns, dirigindo alusões ao leitor. Um exemplo:

“Olhei para ele; meus olhos estavam úmidos de constrangimento e lágrimas. já ele ainda olhava para mim. Agora seus olhos estavam inexpressivos e olhavam através de mim…Algo estalou dentro de nós dois. Comigo foi o súbito interesse por um homem que era alguns anos mais moço do que eu, cinco anos, e cujo destino estava ligado ao meu durante os últimos anos; o que ocorreu com ele só fiquei sabendo ao certo pelo que ele fez mais tarde.”

Se o leitor não tem nenhuma dúvida do que trata essa cena, seja antes, durante ou depois, pode dar-se por feliz de não ser um quadrado. Levando-se em conta seus aspectos populares, o estilo do romance On The Road é folclórico e lírico. A prosa do The Subterraneans, entretanto, assemelha-se a uma paródia do que há de pior em Faulkner. A diferença principal consiste no fato de que Faulkner geralmente produz uma prosa ruim quando ele se deixa levar pelo impulso de rebuscar os lugares comuns, enquanto que Kerouac se perde exatamente quando tenta uma certa “espontaneidade” de linguagem. Rigorosamente falando, a espontaneidade é uma qualidade do sentimento e não da linguagem escrita; quando denominamos espontâneo um trecho literário, procuramos traduzir nossa impressão de que O autor encontrou as palavras exatas sem nenhum esforço especial; que não lançou mão de “artifícios” ou intenções premeditadas, que seus sentimentos se expressaram livremente, como se houvessem fluido da pena no momento da composição. Kerouac acredita, aparentemente, que ser espontâneo significa dizer tudo que lhe passa pela cabeça, não importa a ordem ou a desordem em que as palavras ocorram. Não são as palavras exatas que ele procura (mesmo quando as conhece perfeitamente) , mas as primeiras palavras que surgem, ou pelo menos as palavras que melhor traduzam a emoção diretamente, sem a intelectualização, palavras que brotam direta­mente da “vida” e não da “literatura”, que saem do estômago e não da mente. (A mente, estão lembrados, é o anjo da morte) . Por outro lado, a prosa que surge fácil e “espontâneamente” como resultado de sentimentos fortes, não é nunca vaga; muito pelo contrário, ela é sempre aguda e precisa porque está na natureza dos sentimentos fortes serem provocados por objetos específicos. Essa idéia de que um entusiasmo confuso, generalizado e permanente é a marca de uma grande sensibilidade e permeabilidade, é uma concepção inteiramente fantástica, uma idéia tão absurda quanto imaginar que a embriaguez ou a toxicomania são estado de perfeito vigor emocional. O resultado de um tal entusiasmo é abolir completamente a realidade exterior. Se um posto de gasolina provoca o mesmo sentimento de pasmo e admiração que as Montanhas Rochosas é de se supor que tanto um quanto o outro perderam sua realidade própria. A idéia que Kerouac faz do sentimento é tão absurda que somente um solipsista acreditaria nela – e um solipsista, convém lembrar, é o indivíduo que não se relaciona com nada exterior a si mesmo. O solipsismo é a característica mais fundamental da literatura de Kerouac. Seus romances On The Road e The Subterraneans são tão evidentemente autobiográficos que é quase impossível analisá-los como ficção. Se a espontaneidade fosse realmente uma tentativa de desfazer a distinção existente’ entre vida e literatura esses dois livros seriam um testemunho inegável disso. “Quando nos dirigíamos para o carro, Babe escorregou e caiu com o rosto no chão. A pobrezinha estava exausta. O irmão dela, Tim, e eu ajudamo-la a levantar-se. Entramos no carro; Major e Betty se reuniram a nós. Assim teve início a triste viagem de volta para Denver.”  Babe é uma moça que é mencionada raramente durante O decorrer da história; não sabemos porque ela estava exausta nessa ocasião, e mesmo que soubéssemos isso não nos esclareceria nada, uma vez que não há nenhuma razão para sua presença no romance. Mas Kerouac nos conta que ela caiu de bruços no chão quando se dirigia para o carro. É impossível acredital que Kerouac tenha imaginado esse episódio, que sua imaginação haja criado um mundo suficientemente real para incluir elementos inteiramente gratuitos. E se este fosse o caso, Babe teria adquirido vida como um ser humano. Mas ela é apenas um nome: Kerouac não nos diz mais nada a seu respeito. Ela entra na história unicamente porque a irmã de um dos amigos de Kerouac estava presente quando ele fêz uma viagem para Central City , no Colorado, e se ela escorrega no romance é porque ela escorregou de fato aquele dia quando se encaminhava para o carro. Podemos dizer o mesmo de quase todos os outros acidentes que ocorrem nos dois romances de Kerouac. Tudo acontece acidentalmente. Nada possui uma razão dramática para acontecer. Sal Paradise encontra com tais e tais pessoas na estrada, com algumas simpatiza, com outras ( mais raramente) antipatiza; trocam algumas palavras, bebem uma garrafa de cerveja juntos, e depois se despedem. Tudo é bem desinteressante e comum, mas para Kerouac é sempre O máximo, fantástico, incrível. A voz que se ouve nestes dois livros é a de um homem exclamando a todo instante que ele está vivo, enquanto oferece aos leitores as experiências banais que lhe ocorreram realmente na vida. Uma vez eu fiz isso, outra vez fiz aquilo ( diz ele) e, juro por Deus, tudo isso teve importância para mim. Teve importância porque senti. Se a experiência em questão teve tanta importância para ele, então por que ele não consegue explicar a razão porque foi importante, e porque insistir nesse caso? Acredito que o culto da geração beat pelo que é primitivo e espontâneo é mais do que um mero disfarce de sua hostilidade contra a inteligência; ele decorre sobretudo de uma patética pobreza de sentimentos. Os membros e os adeptos da juventude beat são rebeldes, como se afirma, mas a revolta deles não diz respeito às condições sociológicas ou históricas da classe média, do capitalismo ou até mesmo da respeitabilidade humana. Ela é antes a revolta de uma espiritualidade subdesenvolvida e de uma alma atrofiada – ela é o patrimônio de jovens que não sabem pensar corretamente e que odeiam todos aqueles que o fazem; jovens que não conseguem superar o marasmo do egoísmo e que por isso constróem definições de sentimento de onde excluem todos os demais seres humanos que conseguem viver, mesmo que miseravelmente, em um mundo real; jovens que se sentem angustiados até a morte com a pungente ansiedade sexual fomentada pela América do Norte – na sua promessa eterna de um erotismo glorioso e na sua desdenhosa negação de um relacionamento erótico real; jovens que sonham com um orgasmo perfeito e inatingível que compense todos os fracassos sexuais do mundo real. Há algum tempo atrás, Norman Mailer sugeriu que o movimento hipster representa o “primeiro passo em direção à segunda grande revolução em nosso século, a revolução que não caminha para a frente, em vista da ação e de uma distribuição de bens mais racional e justa, mas que caminha para trás, em direção ao ser e aos segredos da energia humana. Para dizer a verdade, irrito-me violentamente toda vez que ouço alguém falar sobre instinto, ser e segredos da energia humana. Todas essas idéias conduzem geralmente ao mesmo resultado: aceitar a prática da violência. A questão é saber se a pessoa que defende esse ponto de vista admira o fato de alguém dar umq surra no outro ou enterrar-lhe uma faca na barriga. A história – e especialmente a história dos tempos modernos -, ensina-nos que existe uma relação estreita entre ideologias de vitalidade primitiva e uma certa propensão a considerar a crueldade e o derramamento de sangue com complacência, senão com um inteiro entusiasmo. A razão pela qual cito estes exemplos é que a geração beat me surpreende como possuidora do mesmo espírito que anima os jovens selvagens com blusões de couro que tantos vandalismos cometerarn nos últimos anos com seus canivetes e armas de fogo.”  O que pensa Norman Mailer desses deIinquentes? O que pensa ele do bando que apedrejou um menino de nove anos até ele morrer? Isso ocorreu no Central Park, em pleno dia, alguns meses atrás. Ou do outro adolescente que ateou fogo em um pobre velho adormecido em um banco, perto do cais do Brooklyn num dia de verão? Ou daquele que agarrou uma criança aleijada e a esfaqueou dezenas de vezes, barbaramente, mesmo depois dela estar inteiramente morta? É isto que ele entende por Iiberação dos instintos e pelos mistérios do ser? Talvez seja. Pelo menos ele diz, em outro trecho de seu artigo, que dois marginais de dezoito anos que mataram o vigia de uma confeitaria estariarn com isso assassinando uma instituição, cometendo um ato que “viola a propriedade privada”, idéia essa que me pareceu terrivelmente assustadora do ponto de vista moral e que indica para onde pode levar a ideologia do hipsterism. Sou levado a acreditar que existe uma relação direta entre a apatia vital da classe média norte-americana e a expansão da criminalidade juvenil durante a década de 1950, mas creio igualmente que o crime juvenil pode ser explicado em parte como o ressentimento dos jovens contra os sentimentos normais, além da tentativa de negar o mundo da inteligência, tentativa essa comum a Kerouac e AIlen Ginsberg. Mesmo o ambiente relativamente ameno dos livros de Kerouac pode facilmente passar à brutalidade, uma vez que existe um grito abafado nesses livros: “Matem os intelectuais que falam coerentemente, matem as pessoas que ficam sentadas durante cinco minutos a fio, matem os indivíduos que se apaixonam seriamente por uma mulher, por um trabalho, por uma idéia.” Como pode alguém pretender, em perfeito juízo, que isso tem alguma coisa a ver com a propriedade privada ou com a classe média? Não. O que a geração beat visa antes do mais é afirmar a superioridade da incoerência sobre a precisão, da ignorância sobre a inteligência, enquanto declara que o exercício da mente e a racionalização são formas de morte. Da mesma forma, essa geração pretende justificar os atos sórdidos de violência na medida em que são cometidos em nome do “instinto”. Ela é responsável ainda pela glorificação deplorável do adolescente na cultura popular norte-americana. Sua responsabilidade principal, em outras palavras, consiste em haver criado o antagonismo entre estar-se contra ou a favor da inteligência.

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