Lawrence Ferlinghetti – O editor dos malditos

Lawrence Ferlinghetti – O editor dos malditos

de Alma Beat
Ed. Brasiliense, 1984

No início dos anos 50, os poetas boêmios e intelectuais rebeldes da costa Oeste dos E.U.A.estavam indignados com o silêncio oficial da nação com relação a suas obras e com a inexistência de um canal que divulgasse seu trabalho inovador. Em maio de 1953, ao retornar da Europa, onde estivera estudando pintura, o ítalo-americano Lawrence Ferlinghetti (então com 24 anos)decidiu abrir uma pequena livraria com 80 metros quadarados que servise como ponto de encontro e discussão do novo movimento que explodia nos bares de Jazz e bairros boêmios da cidade.

Para isso, fulminou seu “pé-de-meia” e investiu 500 dólares em associação com o artista Shigeyoshi (shig) Murao para abrir a City Lights Books – não por acaso localizada ao lado do bar vesúvio, um reduto de poetas, escritores e doidos em geral. Dois anos mais tarde, em julho de 1955, Ferlinghetti e seu sócio perceberam que era hora de criar uma editora e a City Lights, ao invés de apenas vender livros, passou a publicá-los.O primeiro foi “Pictures of a Gone World” do próprio Ferlinghetti.

De início, a nova editora encontrou alguns problemas: em primeiro lugar foi bastante mal vista pelas editoras tradicionais que lançavam apenas livros de capa dura (enquanto que a City Lights tornou-se a primeira casa a publicar em paperback e em papel jornal na costas Oeste) e chegou a ser denunciada (jamais se soube por quem) para o Comité de Investigação de Atividades Anti-Americanas.A fama mundial da City Lights começou justamente por causa de um destes problemas:a polícia prendeu Shig Murao por vender cópias de “Howl” de Ginsberg ( no Brasil, “Uivo”, LP&M EDitores, 1984), livro que foi levado a julgamento por ser considerado com “obra obscena”. Depois da vitória judicial, Uivo vendeu 360 mil exemplares, consagrando (além, claro, de Ginsberg) o próprio Ferlinghetti, reconhecido então como um audaz editor de vanguarda. A City Lights então não parou mais de crescer:

“Na verdade, desde que abrimos as portas, não conseguimos mais fechá-las”,  relembra Ferlinghetti.”

Naquele tempo North Beach não era o centro da cabarés com shows de toplessnem de casa de massagens que é hoje. Havia lugares incríveis como o jazz Workshop, o Hungry i, Coexistence Bagel Shop e o café The Scene. Decidimos então ficar abertos diaramente até meia-noite. E o fazemos até hoje, sete dias por semana.”

Mas às vezes voltavam os problemas:o livro Love Poems de Lenore Kandel e a revista em quadrinhos Zap Comics foram também processados por obscenidade, no final dos anos 60 e início dos 70, respetivamente. Graças à lei que resguarda a liberdade de informação nos EUA, Ferlinghetti conseguiu obter documentos secretos do FBI nos quais o ultra-reacionário senador J.Edgar Roover lhe acusa, e também a Ginsberg e a Jane Fonda, de “desequilíbrio mental”, cujas atividades levavam “ao enfraquecimento moral da nação”.

Em 1975, porém, em reconhecimento por seu trabalho inovador, a prefeitura de San Francisco decidiu criar no calendário cultural da cidade um dia de homenagem ao poeta, o Lawrence ferlinghetti Day. Ele,quer mais:”Sonho dirigir uma editora repleta com a poesia dos grandes poetas e rebeldes do mundo inteiro, em edições de bolso simples e baratas e, acima de tudo, continuar publicandom os impublicáveis.”

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