Cenário para Howl: memórias dos anos Waugh

Cenário para Howl: memórias dos anos Waugh

de De repente, acidentes
L&PM editores.

Foi Franklin Roosevelt quem declarou que odiava Waugh. Na época afirmou também que sua mulher Eleonor odiava Waugh. Eu, ao contrário, adorava Waugh. Lembro que li três de seus livros, um atrás do outro, antes de planejar um esquema suicida sem igual: ser suicidado pela sociedade à Ia Van Gogh. Peguei um sanduíche de manteiga de amendoim sem pagar no bar do Brooklyn College, esperando ser apanhado e executado sumariamente pelo gigantesco guarda de plantão. Nessa época eu também estava influenciado pelo famoso crime gratuito do “Les Caves du Vatican II” de André Gide. O que se seguiu não foi nenhuma execução, mas uma apresentação à enfermeira-chefe do Instituto Psiquiátrico de Manhattan, onde, a história segue estranhos caminhos, encontrei pela primeira vez meu futuro companheiro beatnik, Allen Ginsberg. Dei a Allen uma versão apócrifa de minhas aventuras e audácias pseudo-intelectuais. Ele anotou tudo o que eu falei meticulosamente (nessa época eu achava que ele sofria do “mal do escritor”, que ele pensava ser um grande escritor). Mais tarde, quando decidi renunciar à carne e me tomar um santo-lunático profissional, ele publicou todas estas informações, parcialmente verdadeiras, mas na maioria delírios de autojustificação, fanfarronices criptoboêmias à Ia Rimbaud, piruetas afeminadas e aforismos esotéricos plagiados de Kierkegaard e de outros – sob a forma de Howl. Deste modo ele cultuou a mentira como verdade e o delírio como sensatez para a contemplação e perdição das futuras gerações. Lee Harvey Oswald tinha o seu Mark Lane – eu não tinha ninguém. E não precisava de ninguém, provei ser um homem de ação quando confrontado com as mentiras e falsas análises da minha própria geração – aquele bando glamouroso de imbecis. Eu consegui sair de uma variedade infinita de hospícios e provei que sou um cidadão bom e honrado, temoroso de Manitou – um humanista sensível e letrado. E isto apesar da pederastia geral à qual fui exposto desde a mais tema juventude. Apesar da influência dos acadêmicos enrugados que foram os primeiros a me colocar no mau caminho me expondo a sedutores da juventude como Gide, etc.”

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