O número sete tem uma magia para Henry Miller. Quase todos os seus amores duraram exatamente sete anos. Grande parte dos seus sofrimentos veio das relações tumultuadas, conflitantes e dantescas com as mulheres, mas em nenhum momento da sua vida ele desistiu da eterna busca da sua outra metade. Ninguém melhor do que o autor de Trópico de Câncer para se definir : "Minha obra é como eu sou : o homem confuso, temerário, exuberante, obsceno, turbulento, escrupuloso, inquieto, mentiroso. O homem diabolicamente sincero que eu sou."
O número sete tem uma magia para Henry Miller. Quase todos os seus amores duraram exatamente sete anos. Grande parte dos seus sofrimentos veio das relações tumultuadas, conflitantes e dantescas com as mulheres, mas em nenhum momento da sua vida ele desistiu da eterna busca da sua outra metade. Ninguém melhor do que o autor de Trópico de Câncer para se definir : "Minha obra é como eu sou : o homem confuso, temerário, exuberante, obsceno, turbulento, escrupuloso, inquieto, mentiroso. O homem diabolicamente sincero que eu sou."
Com apenas 19 anos, em 1910, ele via a sua vida como um mosaico de fragmentos. O seu amor juvenil, Cora, parecia-lhe impossível, então, ele procura refúgio nos braços de uma mulher mais velha, Pauline Chouteau. Nos seus escritos, ele sempre a chamará de "a viúva." Pauline o inicia as delícias do amor e da vida que, aos seus olhos, estava cada vez mais caótica. O único conselho que ele escuta é : siga os seus impulsos mais fortes, os mais nobres, custe o que custar.
Como era de se esperar, Cora, casa-se com outro e ele termina abandonando a "viùva" e encontra uma jovem pianista, Beatrice Wickens. Casam-se e somente aí ele vai conhecer o verdadeiro caráter da sua esposa : dominadora e agressiva. Ela dizia aos amigos o que pensava do seu marido : vulgar, desenquilibrado e neurótico.
Aos 29 anos, já tinha feito tantos trabalhos diferentes : vendedor de jornais, lixeiro, porteiro, datilógrafo, operador de máquinas, professor de educação física, redator, livreiro, bombeiro, que todos o olhavam com desconfiança. No começo de Sexus ele retrata esta época : "Estava me aproximando do 33° aniversário, a idade de Cristo crucificado. Uma vida nova se estendia diante de mim. Tinha apenas a coragem de arriscar. Na verdade não havia nada para arriscar : eu estava no último degrau da escada, um fracasso em todo sentido da palavra."
A realidade era sombria e confusa. Beatrice parte. Ele estava enjoado da sua vida. O sonho de se tornar escritor estava cada vez mais difícil, mas ainda não tinha morrido. As mulheres eram a principal fonte de conflito. De um lado elas significavam a dependência, do outro, elas eram um instrumento de liberação. Sua infância tinha sido em torno desse paradoxo. Toda promessa de liberdade emanava de uma realidade através da mulher. Não era amor que exigiam dele, mas obediência, conformismo e dependência. Miller constata que faz amor por hábito. As mulheres perderam o encanto e fazer amor não tinha mais prazer. Era preciso reagir.
JUNE
Uma noite de verão, dia de pagamento, Miller percorre as ruas de Broadway em busca de algo que pudesse modificar a sua existência. Entra dentro de um dancing e encontra June Mansfield. Era uma criatura de sonho : opiácea e animal. Ela lhe conta tantas coisas : persongens de livros, Deus, prostituição, drogas, perversidades. Incapaz de discernir entre a realidade e a ficção, ele se apaixona perdidamente. Mal sabia que estava começando a sua "descida aos infernos."
June será a sua sombra inseparável. Juntos eles farão mil coisas para sobreviver e escapar da miséria total. Ela o incentiva a escrever e fica responsável pela comida e moradia. Uma lésbica vem se juntar a eles, e pela primeira vez, Miller sente ciúmes. Jane era uma lésbica talentosa, atirada por movimentos revolucionários e modismos. Ela lhe fala da Europa, dos movimentos de vanguarda, da psicanálise e de Rimbaud. Essas três figuras saídas de um romance jamais escrito viviam dentro de um porão em Greenwich Village.
Sofrendo toda sorte de humilhações pelo amor de June, chega mesmo a tentar o suicídio. Numa discussão June joga-lhe na cara : "Espécie de puritano, burguês falido, doente mental, Sofrer te fará bem, ao menos terás coisas a dizer." Sofrer para escrever. Era demais. A partir deste momento Miller escreverá somente cartas e assinará : "a derrota." As duas partem para Paris e deixam Miller desesperado. Daí em diante ele compreende que era preciso descer aos infernos até que se abram as portas do céu.
PARIS E ANAIS NIN
Com apenas 10 doláres no bolso ele parte para a Europa. Que extase! Paris by Night. A um amigo ele escreve : "Aqui eu poderei escrever." Mas como viver em Paris sem dinheiro, sem amigos e sem esperanças. Depois de sete meses June bate na sua porta. Ele ainda a amava, mas progressivamente, tem consciência que Paris é o lugar certo para se tornar um escritor. A carta que June lhe enviou deixou-o contente, mas com uma emoção desagradável. Muitas lembranças más. O paraíso não dura muito tempo. June retorna e o inferno começa novamente. Ele pára de escrever e as disputas tomam conotações trágicas.
Miller estava apaixonado por Anais Nin, mas June ainda tinha forças para colocar sua vida em desordem. Era um balé de emoções em que todos os três jogavam com a atração e a repulsão. June parte novamente e ao voltar toma conhecimento do romance "Tròpico de Câncer", que tinha sido publicado com a ajuda de Anais Nin. Ela se sente injuriada e explode : "Tudo o que eu fiz por você. Eu lia suas cartas como se fosse Deus que as tivesse escrito e você tem a coragem de escrever este monte de mentiras contra mim." Ao sair ela diz : "Nosso contrato de casamento e as alianças estâo no fundo do Sena." Desta vez era para sempre. Sete anos haviam se passado deste que ele a encontrou num dancing em New York.
Anais Nin agora lhe protegia e ele poderia enfim escrever. Sua obsessâo é casar com Anais, mas ela nâo deixarà o conforto material do seu marido para viver uma vida boêmia com Miller. Ele escrevia como um Deus e ao seu redor os amigos o incentivavam. Seu livro estava nas livrarias e ele tinha o sentimento de ser o mestre de cerimônia de de um reino màgico. Finalmente conseguira o que sempre imaginara : cada dia era dia do seu aniversàrio.
A Segunda Guerra Mundial vai acabar os seus sonhos e forçà-lo a abandonar Paris. Sete anos tinham se passado desde que conhecera Anais. O retorno ao Estados Unidos é desesperante. Um verdadeiro pesadelo climatizado. As mulheres batiam a sua porta, mas ele deseja uma verdadeira mulher e nâo bonecos de fazer sexo. A um amigo ele escreve : "Eu tenho necessidade de uma mulher, somente agora eu sei que posso fazer uma mulher feliz. Eu quero dar a uma mulher tudo o que tenho e eu quero que ela me tenha por inteiro. Recuso uma aliança puramente sexual. "
Ele finalmente encontra Janine Lepska, uma polonesa, eles se casam em 1944 e partem para viver em Big Sur, uma praia deserta da Califòrnia. Logo ele compreende que cometeu um erro. Janine era organizada demais e Miller adorava o caos. Durante este tempo seus livros sâo proibidos na Europa e nos EUA. A guerra termina e um comitê de defesa - formado por Sartre, Camus, Gide, Breton- de Henry Miller é criado para pedir o fim da censura dos seus livros. A censura cai na Europa, mas os seus livros -Tròpico de Câncer e Capricòrnio -continuavam proibidos nos EUA. Miller decide de contra-atacar e publica o primeiro volume da sua triologia: Sexus, Plexus e Nexus. O mundo quase vem abaixo. Todos falam de Miller : como pornogràfico ou escritor genial. EVE e HIROTO Sete anos haviam se passado e ele encontra Eve, uma jovem de 28 anos, Miller jà tem 60, o que importa a idade. A Lawrence Durrell ele escreve : " Ela me faz pensar a Anais e ela consegue me transmitir um sentimento de segurança e alegria." A vida lhe sorria uma outra vez. A um juiz americano, que quer colocà-lo na prisâo por divulgaçâo de pornografia, ele diz : " Nâo sou um santo, nem um deus, nem mesmo o apòstolo de uma nova ordem. Eu sou simplesmente um homem. Um escritor que escolheu a pròpria vida como sujeito, uma vida rica, alegre, apesar dos obstàculos, intempéries e convençôes. Espero que aquilo que eu digo, seja compreendido claramente, pois falando da minha vida eu falo da vida em geral. Eu amo a vida. Nâo considero que sejam os deuses, nem as circunstâncias que a tornam difìceis; somos nòs mesmos que a tornamos insuportàveis."
Depois de sete anos de casamento, a relaçâo começa a se deteriorar. Eve queria ser uma artista e nâo a esposa de um escritor célebre. Ela abandona Big Sur. Depois de tanto tempo, June, a eterna June, pede para encontrà-lo. Depois de Paris eles nunca mais haviam se encontrado. "Eu nâo tenho a coragem de revê-la, e no entanto, eu sei que tenho que vê-la mais cedo ou mais tarde. Nòs devemos nos reconciliar." Trinta anos depois do divòrcio eles se encontram. Ele nâo tem coragem de escrever : "Ela era mais forte, mas fui eu que ganhei." Miller tem agora 74 anos e seu coragem continua jovem. Por quê nâo se apaixonar de novo ? Em 1966, ele encontra Hiroto Tokuda, ela tem apenas 27 anos. Eles se casam em 1970. Os problemas de saùde transtornam a sua existência. Hiroto nâo suporta a uniâo e o abandona. Ele chega mesmo a confessar: "O casamento mata o amor."
A um dos seus biografos, Jay Martin, ele diz : "Evidente que nunca disse toda a verdade e isto vale para os meus amores também. Vàrios amores nâo figuram dentro dos meus livros. Ninguém pode conhecer a verdade da minha història." Brenda Venus, talvez tenha sido o ùltimo amor de Miller. No dia 10 de junho de 1980, o jornal Le Monde publicava na primeira pàgina : "Morre o profeta da desordem salvadora."