Subcultura - Artes e Letras para o Estômago

Home >> Ensaios >> Os Amores de Kafka
Os Amores de Kafka Imprimir E-mail

Kafka e Felícia "Ele era tímido, temeroso, modesto e bom, mas escreveu livros cruéis e dolorosos. Ele viu um mundo pleno de demônios invisíveis que esfolavam e destruíam o homem sem defesa." Ninguém melhor do que Milena Jesenska, um dos grandes amores de Kafka, para definir este homem que era dominado pela solidão e pelo sofrimento. Os amores de Kafka nem sempre foram fáceis. Existia sempre um obstáculo, algo dentro dentro da sua imaginação ou que se impunha entre ele e a mulher amada. Embora nunca tenha se casado, amou quase a loucura várias mulheres. No seu diário ele escreve : "Você não pode me amar tanto quanto gostaria; você está infelizmente apaixonada pelo próprio amor que você sente por mim, mas seu amor por mim não está apaixonado por você." Kafka parece se alimentar desta orgia de desespero, autoflagelação e autodestruição.

"Ele era tímido, temeroso, modesto e bom, mas escreveu livros cruéis e dolorosos. Ele viu um mundo pleno de demônios invisíveis que esfolavam e destruíam o homem sem defesa." Ninguém melhor do que Milena Jesenska, um dos grandes amores de Kafka, para definir este homem que era dominado pela solidão e pelo sofrimento. Os amores de Kafka nem sempre foram fáceis. Existia sempre um obstáculo, algo dentro dentro da sua imaginação ou que se impunha entre ele e a mulher amada. Embora nunca tenha se casado, amou quase a loucura várias mulheres. No seu diário ele escreve : "Você não pode me amar tanto quanto gostaria; você está infelizmente apaixonada pelo próprio amor que você sente por mim, mas seu amor por mim não está apaixonado por você." Kafka parece se alimentar desta orgia de desespero, autoflagelação e autodestruição.

Diversas mulheres passaram pela vida do autor tcheco. Algumas foram apenas uma ligação passageira, outras tiveram algo profundo que foi capaz de influir sobre o curso de sua vida. Aos 22 anos teve um romance com uma mulher que ficou conhecida como a "garota de Berlin", mas tarde, Kafka atribui-lhe uma grande importância na sua vida, afirmando que essa mulher tinha sido uma das duas mulheres com quem, ao longo de sua vida, chegara a conhecer uma verdadeira intimidade. Outras não tiveram ou não alcançaram essa intimidade que ele chegou a escreveu no seu diário : "O amor não se aplacará com um simples buquê de flores. Isto só será possível pela literatura e pelo coito."

Franz Kafka nasceu em Praga no dia 3 de julho de 1883. Foi o primeiro filho de Hermann e Julia Kafka. O pai era um comerciante enérgico, autoritário, que marcou com seu caráter despótico, a personalidade do filho. A mãe era serena, suave, sempre disposta a atenuar os efeitos do temperamento autoritário do marido no trato com Kafka. Franz cursou o primário e o secundário numa escola alemã. A disciplina interna era rígida. Na universidade estudou química (15 dias), alemão (seis meses) e Direito. O essencial para Kafka era a literatura. A paixão comum pela literatura aproxima-o de Max Brod, que permaneceu seu amigo durante toda a vida e que, felizmente, não atendeu o último pedido do escritor para queimar todos os seus manuscritos.

FELÍCIA BAUER

Milene

Kafka e Felicia Bauer em Budapeste (Julho de 1917)

Um dos seus maiores e mais complicados amores foi Felícia Bauer. Inicialmente Kafka pensou que ela fosse uma empregada. Ele se apaixona e a pede em casamento. O namoro dura dois anos. Numa carta ele explica : "Tudo foi culpa minha. Ela é sensível e qualquer palavra, mesmo a mais gentil, pode ofendê-la. Eu não podia ser feliz, calmo, determinado, capaz para o casamento, embora tivesse repetido e assegurado disto, embora, ás vezes, a amasse desesperadamente, embora não conhecesse nada mais desejável do que o casamento."

No seu relacionamento com Felícia ele vive dilacerado por duas exigências contrárias e inconciliavéis : casar-se, pelo amor profundo e estável, pela união com uma mulher, superar o seu isolamento insuportável ou preservar a sua independência, não se prendendo a nada, ainda que pagando o com preço da sua solidão. Ele hesita cada vez mais, sente-se frágil e doente. Vai se repousar num sanatório e tem um romance com uma suiça-cristã. Nada se sabe deste amor. Ele prometeu guardar segredo e cumpriu a promessa. Ao voltar do sanatório, Felícia pede a uma amiga, Greta Bloch, que interferisse ao seu favor, ela aceita a missão e termina tendo um caso amoroso com Kafka. Ele termina voltando para Felícia, mas escreve no seu diário : " Eu me sentia amarrado como um criminoso. Se tivessem me colocado num canto, com algemas de verdade e carcereiros á minha volta, dando-me apenas a permissão para ficar observando, acorrentado, o que se passava, a coisa não teria sido pior; e era o meu noivado." Dois meses depois eles rompem. Felícia não suporta mais as dúvidas e angústias do noivo.

MILENA JESENSKA

Dora

Milena Jesenska
(1896- 1944)

Já com 36 anos Kafka conhece Julia Wohryzek com quem fica noivo. Novamente os problemas de saúde. Em 1920 inicia uma correspondência com Milena. O amor que o uniu a Milena teve logo um primeiro obstáculo. Ele era noivo de Julia e Milena era casada. Kafka a conheceu devido as traduções dos primeiros escritos do autor para o tcheco. Milena era uma mulher sensível, inteligente e de um excelente gosto literário. Com ela era possível uma comunicação espiritual superior a que tivera com Julia ou Felícia. Kafka se apaixona e pede que Milena venha viver com ele em Praga. Ela recusa. De 1920 a 1923, Milena é o centro da vida de Kafka.

As cartas que trocaram durante este tempo mostram os dramas, os sofrimentos, as angústias e a solidão que aprisionava Kafka. Quando Milena lhe fala em felicidade, ele escreve : "Para que falar de um futuro comum que jamais se realizará. Poucas coisas são seguras, mas uma delas é que nós nunca viveremos juntos na mesma casa, nunca sentaremos juntos á mesma mesa, nem sequer chegaremos a viver na mesma cidade." Milena compreende Kafka como como poucos e numa carta a Max Brod ela diz : "Todos nós, aparentemente, conseguimos ir vivendo porque, num dado momento, somos capazes de nos refugiar na mentira, na cegueira, no entusiasmo, no otimismo, numa convicção absorvente ou em qualquer outra coisa. Mas ele não tem asilo protetor algum. È absolutamente incapaz de mentir, como também é incapaz de se embriagar. Não tem o menor refúgio. O menor abrigo. Por isto está permanentemente exposto àquilo que estamos protegidos. É como se fosse um homem nu no meios dos vestidos..."

O ÚLTIMO AMOR : DORA DYMANT

Kafka -e -Felícia

Dora Dymant

Desiludido por não conseguir o amor de Milena, ele encontra uma jovem de 18 anos, Dora, filha de operários judeus poloneses. Somente com Dora ele realizou algo que nunca conseguiu fazer durante toda a sua vida : desligou-se da família, deixou Praga e foi viver com ela em Berlin. Viveram em precárias condições financeiras, mas pela primeira vez, Kafka encontrou um clima de tranquilidade, intimidade e felicidade. Vivendo com Dora, estuda o hebreu e desenvolve intensa atividade literária. A doença novamente o persegue e ele não sabe que os dias de felicidade estão contados. Já no fim da vida e com apenas 41 anos, a tuberculose, tinha se apoderado de todo o seu organismo. Ele não desanima e quer partir com Dora para a Palestina. Sua saúde está abalada demais. Ele continua a trabalhar com afinco nos seus manuscritos, sempre disposto a viver, não se conformando com a doença ou a fraqueza. Dora exercia sobre ele os efeitos mais salutares, mas era tarde demais. Kafka pede a mão de Dora em casamento. O pai recusa. Ela o acompanha por todos os sanatórios e não o deixa sò um único instante. A situação de Kafka se agrava; ele não consegue mais comer ou beber. No dia 3 de junho de 1924 entra em agonia. Expulsa a enfermeira do quarto e pede morfina a um amigo médico. Ele nega e Kafka diz : "Mate-me, senão você é um assassino." Poucas horas depois morria um dos maiores gênios da literatura do século XX.


Felipe de Oliveira, nascido em Recife, jornalista com passagens em vários jornais brasileiros, entre os quais a Folha de S. Paulo, Estado de São Paulo e revista  Veja, vive atualmente em Moçambique (Àfrica).
Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Trackback(0)
Comentarios (0)Add Comment

Escreva seu Comentario

security code
Escreva os caracteres mostrados


busy
 

Autores

Amigos

Banner

Filtragem Rápida