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Cacaso : Poeta aos pés da amada Imprimir E-mail
Escrito por Miguel Sanches Neto   

O Pequeno e esquecido livro de Cacaso recupera uma poética da paixão nos anos 70. Período marcado por um projeto poético comunitário, em que prevaleciam temas e estilos coletivos, os anos 70 não deixaram de ter, à sua maneira, seus poetas representativos, que deram tintura pessoal a um discurso construído grupalmente. Cacaso (1944-87) foi um destes mínimos faróis destacados das pequenas luzes dos apartamentos da grande metrópole poética. Apesar de seu valor, por um pudor tipicamente mineiro, que não o deixou usar a mídia como, por exemplo, um Paulo Leminski, Cacaso hoje é um ilustre desconhecido - sua última coletânea de poemas foi publicada em 1985 pela Brasiliense. Só por isso, é um grande acontecimento literário a segunda edição de um de seus principais livrinhos, Beijo na boca (7Letras, 2000), numa edição fiel ao espírito da geração mimeógrafo e ao gosto de Cacaso. Utilizando fonte que emita a letra da máquina de escrever, com reprodução de desenhos do autor (o que faz lembrar um pouco o Primeiro caderno de poesia do aluno Oswald de Andrade) e capa despojada, o volume é, graficamente, um verdadeiro revival de toda uma época editorial.

O Pequeno e esquecido livro de Cacaso recupera uma poética da paixão nos anos 70. Período marcado por um projeto poético comunitário, em que prevaleciam temas e estilos coletivos, os anos 70 não deixaram de ter, à sua maneira, seus poetas representativos, que deram tintura pessoal a um discurso construído grupalmente. Cacaso (1944-87) foi um destes mínimos faróis destacados das pequenas luzes dos apartamentos da grande metrópole poética. Apesar de seu valor, por um pudor tipicamente mineiro, que não o deixou usar a mídia como, por exemplo, um Paulo Leminski, Cacaso hoje é um ilustre desconhecido - sua última coletânea de poemas foi publicada em 1985 pela Brasiliense. Só por isso, é um grande acontecimento literário a segunda edição de um de seus principais livrinhos, Beijo na boca (7Letras, 2000), numa edição fiel ao espírito da geração mimeógrafo e ao gosto de Cacaso. Utilizando fonte que emita a letra da máquina de escrever, com reprodução de desenhos do autor (o que faz lembrar um pouco o Primeiro caderno de poesia do aluno Oswald de Andrade) e capa despojada, o volume é, graficamente, um verdadeiro revival de toda uma época editorial.

Beijo na boca tem sua unidade na temática amorosa, vista por um ângulo menos dramático e mais irônico, não obstante o olhar carinhoso do poeta que, ao mesmo tempo que zomba das dores do coração, se entrega totalmente à paixão. O seu assunto é a mulher, principalmente a ex-namorada, o que dá ao livro um tom saudosista, desprovido de pieguice graças ao recorte maroto de quem recorda - cor, cordis (do lat.), coração.

quando penso no futuro me transformo
no passado de minha ex-namorada (p.33)

Erro seria ler o poeta apenas como o antilírico que se rebelou pela zombaria contra o romantismo inerente ao momento ao qual pertenceu. Cacaso, na verdade, intensificou o tom romântico da poesia marginal, que muitas vezes descambou para o puro sociologismo ou para um vanguardismo meio arrependido porque temporão. O diferencial deste mineiro foi a sua poesia afetiva e brincalhona, avessa tanto às experimentações estéticas vazias quanto à luta explícita contra a ditadura - ele contesta ao escrever uma poesia à-vontade e não ao reivindicar isto ou aquilo. Em todos os poemas, encontramos a alma boa e bonachona do brasileiro, como ele mesmo confessa em "Há uma gota de sangue no cartão postal" (alusão ao livro mais romântico do velho e bom Mário de Andrade): "eu sou manhoso eu sou brasileiro"(p.12). Apesar das referências a textos da literatura brasileira, ele falava do e para o coração, mas nunca se entregando totalmente, plantando sempre a semente da blague. Foi um romântico sem idealismo e crença ingênua nas coisas, que sentiu o Brasil em sua doce linguagem oral e em seu permanente estado de graça e bom humor.

Tal dualidade se casa perfeitamente com o poeta que declara estar divido entre dois amores, sem saber qual deles escolher. No plano poético, ele permanece entre duas posturas, uma mais crítica e outra mais sensual. O resultado é um livro que mescla momentos de delicadeza, mostrando a amada como paisagem amena:

Do corpo de meu amor
exala um cheiro forte.

Será a primavera nascendo?
com outros em que ela aparece retratada fisiologicamente:
quem vê minha namorada vestida
nem de longe imagina o corpo que ela tem
[...]
feliz de mim que freqüento amiúde e quando posso
a b. dela (p.37)

Estão aí os dois retratos desta mulher nunca nominada, que pertence ao passado, presente e futuro do poeta do amor liberado, distante portanto de seu conceito convencional. Tendo que escolher entre um ou outro, ele adia a escolha: "Por hoje basta. Amanhã volto a pensar neste problema"(p. 20), assim como fica suspensa a opção única no campo da produção poética. Daí Cacaso abrir o livro declarando-se modernamente romântico, o que o colocava longe de uma tradição de rigor vinda de João Cabral e replicada de forma intransigente pelas vanguardas dos anos 50. Esta dupla orientação lhe garantiu uma moradia no presente, mesmo quando falava de um velho e gasto tema como a mulher amada.

Espécie de suspiros poéticos e saudades, Beijo na boca investe num discurso miniloqüente, que relativiza o próprio amor, tratado quase sempre de passagem, sem dramas e divagações excessivos. O grande amor, do qual surgiam grandes poemas, dilacerantes ou efusivos, dá lugar ao pequeno e múltiplo amor, sem nome:

Rememoro com resignado e fervoroso amor
a primeira namorada.
Mas o nome dela dançou. (p.14)

Ou ainda no último poema: "Penso em meu amor. Qual deles?"(p.56). Numa época de amores múltiplos e contemporâneos, em que o poeta está, esteve e estará apaixonado ("daquele amor que nunca tive tenho / saudade ou esperança?", p. 53) por pessoas diferentes, a poesia abandona a mulher amada à sua sorte, uma vez que não cabe mais eleger uma e elevá-la ao centro de uma manifestação poética idealizadora. O poema se fragmenta assim como o coração do poeta está disperso em inúmeros amores. A volubilidade deste sentimento é visível no próprio título (Beijo na boca), que trata do enlace de dois corpos e não de suas almas - um enlace temporário, ditado pela conquista momentânea do prazer.

Continua ainda a idéia da felicidade através da conquista da mulher, mas de uma mulher que perdeu o seu nome, que pode ser A, B ou C. Transportando este raciocínio para a esfera da arte, poderíamos dizer que o passado do poeta e da própria literatura brasileira, por isso, está presente, não como representação de um tempo melhor, mas como móveis sentimentais de uma vida e de uma poesia que vê tudo num mesmo plano, sem rupturas violentas.

No âmbito das influências, descobrimos ecos de vários autores brasileiros, mostrando que há forte intenção de dar um caráter nacional ao livro, não só pelo uso de uma linguagem simples e conjugada cotidianamente, mas também pela fixação num estrato literário formador de nossa nacionalidade. Cacaso entende-se como um poeta que deve surpreender em seus textos a maneira de ser do Brasil encontrado nas ruas. Ao dar visibilidade a esta camada de linguagem e de sentimentos, ele se sentia unido ao povo num quadra histórica em que os poderes políticos estavam distantes. Foi esta a sua rebeldia num período em que muitos poetas confundiram poesia com palavras de ordem.

Embora subvalorizado, Cacaso foi o Vinicius de Moraes de sua geração - é espantosa a semelhança entre a trajetória dos dois poetas. Assim como Vinicius, o mineiro estreou equivocado, longe de si mesmo, repetindo um certo cerebralismo à la Cabral: A palavra cerziada (1967), livro assinado por um circunspecto Antonio Carlos Ferreira de Brito, nome de pia do autor. O mesmo se deu com o poeta carioca, cujos três primeiros livros sofreram a influência de Augusto Frederico Schmidt e Octavio de Faria. Cacaso e Vinicius foram compositores, tendo tido parceiros em comum, como Maurício Tapajós e Tom Jobim. E os dois renunciaram a uma carreira literária tradicional, para se integrarem aos movimentos culturais ligados à música popular brasileira, fazendo do cotidiano e do sentimento amoroso partes centrais de suas maneiras de ser e de escrever. Assim como Vinicius, Cacaso é autor de músicas de sucesso e deixou um cancioneiro bastante significativo.

Se as opções são parecidas, a poesia de cada um é bem particular, ficando inscritas nelas as marcas de gerações diferentes, sendo Vinicius mais preso ao lirismo e Cacaso um lírico desconfiado. Ambos, no entanto, construíram seus retratos enamorados do Brasil.


In "Gazeta do Povo", 02 de julho de 2000

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