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O último discurso de Ngungunhane Imprimir E-mail
Escrito por Ungulani Ba Ka Khosa   

Ngunguhane foi o último soberano do sul de Moçambique, antes da conquista definitiva da região pelos portugueses. Ele foi derrotado e preso em 1896 e levado a Portugal, onde veio a falecer. Este conto de Ungulani é particularmente emblemático, pelo fato de que, através da voz do soberano, o autor fez uma crítica aguda do sistema político Moçambicano pôs independência, pautado pela repressão política, carência e guerra civil. Em suma, tudo o que "o rei profetizou", se concretizou. (Beto,1999.)


Virou-se repentinamente para a multidão que o vaiava, a uns metros do paquete que o levaria ao exílio, e gritou como nunca, silenciando as aves e o vento galerno, petrificando os homens e as mulheres com as palavras que saíam em catadupa e que percorreram, em outras bocas, gerações e gerações em noites de vigília e insônias, dada a forja premonitiva que carregavam nessa manhã sem outro registro que o mar sem ondas, o paquete atracado, o Sol com a mesma cor, as nuvens de todos os tempos, a multidão concentrada, Ngungunhane falando, e o corpo bojudo oscilando para a direita e para a esquerda, enquanto os olhos reluziam e as mãos tremiam ao ritmo das palavras que cresciam, de minuto a minuto, como agora em que Ngungunhane dizia a todos, podeis rir, homens, podeis aviltar-me, mas ficai sabendo que a noite voltará a cair nesta terra amaldiçoada que só teve momentos felizes com a chegada dos nguni que vos tiraram dos abismos infindáveis da cegueira e da devassidão. Fomos nós, homens, que vos tiramos da noite que vos tolhia á entrada ao mundo da luz e da felicidade. As nossas lanças tiraram as cataratas fossilizadas que ostentavam, e os nossos escudos esconjuraram os males de séculos e séculos que carregavam no corpo putrefato. E hoje, corja de assassinos e cobardes, ousais achincalhar-me com toda a força dos pulmões rotos que tendes.É a paga, eu sei, dos bens que os nguni fizeram. Mas ficai sabendo, seus cães, que o vento trará das profundezas dos séculos o odor dos vossos crimes e viverão a vossa curta vida tentando afastar as imagens infaustas dos males dos vossos pais, avós, pais dos vossos avós e outra gente da vossa estirpe. Começareis a odiar os vossos vizinhos, encrespando-os dos males que padecerão nas palhotas sem idade. O ódio alastrar-se-á de família em família, atingindo os animais da vossa estima que passarão a lutar pelos pastos, se de gado bovino ou caprino se tratar. Os galos não se meterão com as galinhas da vizinha e os ratos dividir-se-ão por casas e roerão os bens de uma só família ao longo de gerações e gerações. E aí, seus cães, não terão coragem de erguer a cabeça. A corcova será de tal ordem que tereis filhos e netos com uma bossa interminável e hereditária!

- Há pormenores que o tempo vai esboroando disse o velho, tossindo. Colocou duas achas no fogo e soprou. Novelos de fumo passaram pelo rosto. Pequenas lágrimas saíram dos olhos cansados e tocaram na pele coberta de escamas. Afastei os papéis. Olhei-o. Era noite.

 
Dead Can Dance - The Host of Serafim Imprimir E-mail
Escrito por Beto Cadilhe   

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Episódios da vida de um roedor Imprimir E-mail
Escrito por Andrezej Zaniewski   

"É a primeira vez que vejo gente, que lhes sinto o cheiro. Estou perto deles pela primeira vez. Ouço a batida forte de corações humanos. O odor azedo de suor invade o porão. Barulhentos, disformes, com pernas que se dobram, com cabeças arredondadas e firmes, eles emitem sons desconexos e sibilantes. Minha mãe está nervosa. Mais uma vez ela agarra as minhas costas com os dentes. Faz meia-volta e corre em direção aos canos de esgoto. Conseguimos. Espremidos entre canos envolvidos em estopa e reboco, nos sentimos um pouco mais seguros. O sangue de minha mãe bombeia mais devagar. Quase retoma o ritmo normal. Mas as pessoas ainda nos ameaçam. Sua presença, seu cheiro, a luz que trouxeram nos agitam. Estamos cercados. Aberto em cima, o espaço entre os canos e a parede não representa um esconderijo seguro. As narinas de minha mãe se movem. Cada ser humano tem um cheiro diferente e caracteristico - só que naquela ocasião eu ainda não sabia disso.

Ratos

 

Boteco do Tulípio

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